A escabiose crostosa é hiperinfestação por Sarcoptes scabiei caracterizada por extensa hiperceratose, carga muito alta de ácaros e extraordinária contagiosidade. É classicamente associada à imunossupressão ou à capacidade reduzida de coçar e permanece excepcional em bebês saudáveis.1,2 O presente relato descreve o caso de um bebê imunocompetente com eritrodermia e inflamação sistêmica acentuada, em quem a dermatoscopia à beira do leito acelerou o diagnóstico e ajudou a controlar um surto domiciliar.
Uma lactente de 3 meses de idade, previamente saudável, foi internada com histórico de um mês de erupção papuloedematosa pruriginosa de progressão rápida, evoluindo para eritrodermia generalizada. Ela estava afebril e hemodinamicamente estável, mas acentuadamente irritável. O exame cutâneo mostrou eritema difuso com descamação fina generalizada e crostas hiperceratóticas espessas e aderentes, mais proeminentes no tronco dorsal e nos membros superiores proximais (fig. 1). Não havia envolvimento mucoso. A família relatou ganho ponderal preservado e ausência de histórico de prematuridade, desnutrição, infecções recorrentes ou exposição a medicamentos imunossupressores. A avaliação laboratorial mostrou leucocitose (32.500μL) com eosinofilia acentuada (7.700μL) e linfocitose (14.400μL), sem desvio à esquerda, e proteína C‐reativa elevada (56mg/L). Não foram identificadas evidências clínicas ou laboratoriais de infecção bacteriana secundária. Os níveis de imunoglobulinas séricas estavam dentro da faixa normal para a idade e não havia características clínicas sugestivas de imunodeficiência primária.
Dada a combinação de eritrodermia, crostas hiperceratóticas e prurido intenso, suspeitou‐se de escabiose. A dermatoscopia realizada à beira do leito revelou múltiplos túneis serpiginosos terminando em estrutura triangular marrom consistente com o sinal da “asa delta”. Além disso, foram observadas estruturas ovoides esbranquiçadas compatíveis com ovos/detritos, com autofluorescência focal induzida por ultravioleta (fig. 2), padrão recentemente descrito como o “sinal da bola”.3 O exame microscópico direto de raspados de pele confirmou numerosos ácaros vivos e ovos. Durante a avaliação, a mãe acompanhante relatou várias semanas de prurido noturno e apresentava pápulas escoriadas nos pulsos e espaços interdigitais, corroborando a transmissão domiciliar.
Dermatoscopia e dermatoscopia ultravioleta. (A) Dermatoscopia mostrando túnel serpiginoso terminando em estrutura triangular marrom (sinal da “asa delta”). (B) Dermatoscopia de fluorescência induzida por ultravioleta mostrando uma estrutura ovoide fluorescente azul‐esbranquiçada focal (seta), consistente com o “sinal da bola” (ovo/detritos de ácaro).
O diagnóstico foi de escabiose crostosa. O uso oral de ivermectina em crianças com peso <15kg permanece off‐label em muitos contextos, apesar dos crescentes dados de segurança nessa faixa de peso,4 portanto, optou‐se por terapia tópica intensiva. Um relato de caso também descreveu o uso off‐label de ivermectina oral em altas doses em um lactente (1.200μg/kg uma vez por semana durante três semanas) após resposta insatisfatória à terapia tópica.5 O bebê recebeu aplicações repetidas de permetrina a 5% em todo o corpo durante duas semanas, combinadas com medidas para reduzir a barreira de crostas (banhos mornos, hidratação e remoção manual delicada das crostas) e emolientes em abundância. Todos os familiares que moravam com o bebê foram tratados simultaneamente. O controle ambiental incluiu lavagem de roupas e roupas de cama em água quente e exposição prolongada ao sol de itens não laváveis. O prurido e a irritabilidade melhoraram na primeira semana, e a eritrodermia e as crostas praticamente desapareceram na terceira semana, com resolução paralela dos sintomas nos familiares que moravam com o bebê.
Este caso destaca três pontos práticos. Primeiro, a escabiose crostosa deve permanecer no diagnóstico diferencial da eritrodermia infantil, particularmente quando crostas espessas e eosinofilia acentuada estão presentes, mesmo sem imunossupressão conhecida.1,2 Segundo, a dermatoscopia é atalho rápido e não invasivo para a coleta de amostras confirmatórias e pode aumentar a confiança diagnóstica em crianças; a dermatoscopia ultravioleta pode fornecer pistas visuais adicionais.3 Terceiro, como a carga de ácaros e a transmissibilidade são extremas, o tratamento simultâneo dos contatos próximos e as medidas ambientais são essenciais para prevenir a reinfestação rápida e a disseminação contínua.6,7
ORCID IDRenata Ferreira Magalhães: 0000‐0001‐9170‐932X
Andréa Fernandes Eloy da Costa França: 0000‐0003‐1657‐4570
Suporte financeiroEste estudo foi financiado exclusivamente pelos autores, sem qualquer apoio financeiro de instituições públicas ou privadas.
Contribuição dos autoresMárcio Fellipe Menezes Viana: Conceitualização; investigação; curadoria de dados; redação do rascunho original; visualização.
Renata Ferreira Magalhães: Metodologia; investigação; redação – revisão e edição.
Andréa Fernandes Eloy da Costa França: Supervisão; conceitualização; validação; redação – revisão e edição.
Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito e concordam em ser responsáveis por todos os aspectos do trabalho.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorHiram Larangeira de Almeida Jr.
Como citar este artigo: Viana MFM, Magalhães RF, França AFEC. Erythrodermic crusted scabies in an immunocompetent three‐month‐old infant with marked systemic inflammation. An Bras Dermatol. 2026;101:501389.
Trabalho realizado na Divisão de Dermatologia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil.


