Esporotricose é a micose subcutânea mais prevalente nas áreas tropicais e subtropicais, ocasionada por fungos do gênero Sporothrix,1 cuja transmissão ocorre predominantemente por mordedura ou arranhadura de animais infectados na zona urbana de áreas endêmicas,2 como o Amazonas.3
As formas clínicas da esporotricose cutânea dividem‐se em linfocutânea, cutânea fixa e disseminada. A forma linfocutânea é a mais comum, caracterizada por úlceras, classicamente, acompanhadas de linfangite. Habitualmente, acomete os membros superiores de pacientes adultos, e a face, em crianças.1,4 Nas formas sem linfangite, como na forma cutânea fixa, o diagnóstico pode ser menos lembrado.5
Relata‐se o caso de uma paciente com esporotricose cutânea localizada com apresentação tumoral exuberante e atípica, diagnosticada em área endêmica.
Trata‐se de paciente do sexo feminino, de 44 anos, florista há 15 anos, residente em Manaus/AM, previamente hígida. A paciente apresentava lesão dolorosa e de crescimento progressivo no segundo quirodáctilo esquerdo havia duas semanas, após trauma com espinho vegetal; negava contato com animais doentes. Ao exame físico, observou‐se tumor ulcerado, de coloração violácea, friável, recoberto por material fibrinoso e envolvendo toda a extremidade distal, associado a microvesículas na base da lesão, sem linfangite (fig. 1). A paciente havia recebido cefalexina 500mg, 6/6 horas, por sete dias, sem melhora clínica.
Foi realizada biopsia incisional, enviando‐se fragmentos para cultura e histopatologia. O exame histológico revelou processo granulomatoso supurativo (fig. 2), sem fungos detectados ao PAS. A cultura bacteriana foi negativa, enquanto a cultura fúngica isolou Sporothrix spp. (fig. 3). Reação em cadeia da polimerase em tempo real, a partir de material da cultura, revelou Sporothrix brasiliensis. Instituiu‐se itraconazol 200mg/dia, com melhora importante da dor e regressão significante da lesão em três semanas de uso. Em quatro meses de tratamento, houve resolução completa do tumor (fig. 4).
A presença de lesão tumoral e dolorosa na região periungueal sugere doenças neoplásicas como tumor glômico, carcinoma espinocelular e melanoma, bem como outras doenças como verruga vulgar, paroníquia crônica e exostose subungueal.5,6 A apresentação clássica da esporotricose cutânea consiste em lesão nodular no local da inoculação, que pode evoluir para ulceração e disseminação linfocutânea, acometendo mais frequentemente os membros superiores e, ocasionalmente, envolvendo os dedos e as regiões periungueais. Úlceras crônicas e de difícil cicatrização no polegar e na região periungueal já foram descritas, especialmente após traumas mínimos, com subsequente desenvolvimento de eritema progressivo, edema e dor persistente.7 Raramente, a esporotricose pode induzir hiperplasia pseudoepiteliomatosa, resultando em lesão hiperplásica ou de aspecto tumoral.8
Entre 2021 e 2022, houve aumento de 304% no número de casos de esporotricose zoonótica em Manaus. Entre 2022 e 2023, esse aumento foi de 349%. O principal animal implicado na transmissão é o gato. Assim como em outras áreas endêmicas, o principal agente etiológico é o S. brasiliensis.3,9
No presente caso, a ocorrência de infecção cutânea por S. brasiliensis sem história de contato com animais doentes é epidemiologicamente plausível e clinicamente relevante. A paciente é florista, com manipulação diária de flores, ramos, espinhos, musgos e solo, circunstância que implica microtraumas repetidos por material orgânico e, portanto, potencial inoculação não zoonótica. Em cenários endêmicos, a alta carga fúngica decorrente da epidemia em felinos favorece a disseminação ambiental do agente (solo, matéria vegetal e objetos), o que amplia a probabilidade de implantação traumática a partir de material contaminado e explica casos autóctones em indivíduos sem exposição direta a gatos.10
Em regiões endêmicas, especialmente na Amazônia, a possibilidade de esporotricose deve sempre ser considerada no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas exuberantes, dolorosas ou de aspecto tumoral na região periungueal, mesmo na ausência de contato com animais doentes, sobretudo quando há antecedente de trauma com material orgânico. A apresentação clínica atípica, como a forma tumoral, pode mimetizar neoplasias ou outras dermatoses infecciosas e inflamatórias, exigindo alto grau de suspeição clínica e confirmação micológica. O reconhecimento precoce e o tratamento adequado são fundamentais para evitar complicações locais e assegurar a resolução completa do quadro. Este relato reforça a importância da vigilância clínica em áreas de transmissão ativa, bem como da integração entre os serviços de dermatologia e micologia na identificação e no manejo de casos incomuns de esporotricose cutânea.
ORCID IDThiago Vilas Boas: 0009‐0006‐8832‐7711
Kananda Kesye Sousa Nunes: 0009‐0009‐7352‐0617
Guilherme Caldas de Souza: 0009‐0009‐3538‐0748
Carolina Talhari: 0000‐0003‐2283‐069X
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresMathias Ferreira: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Thiago Vilas Boas: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito.
Kananda Kesye Sousa Nunes: Revisão crítica do manuscrito; revisão crítica da literatura.
Guilherme Caldas de Souza: Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados.
Carolina Talhari: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorSílvio Alencar Marques
Como citar este artigo: Ferreira M, Vilas‐Boas T, Nunes KKS, Souza GC, Talhari C. Tumor‐like periungual cutaneous sporotrichosis in an endemic area. An Bras Dermatol. 2026;101:501397.
Trabalho realizado na Fundação Hospitalar de Dermatologia Tropical e Venereologia “Alfredo da Matta”, Manaus, AM, Brasil.




