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Vol. 101. Issue 1.
(January - February 2026)
Cartas ‐ Investigação
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Fatores de risco e desfechos cirúrgicos no carcinoma basocelular periocular tratado com cirurgia micrográfica de Mohs

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Glaysson Tassara Tavaresa,b,
Corresponding author
gtassara@terra.com.br

Autor para correspondência.
, Alberto Julius Alves Wainsteina, João Renato Vianna Gontijob, Ana Paula Drumond Lagea
a Instituto de Pós-Graduação, Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
b Serviço de Dermatologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
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Tabela 1. Modelo de regressão logística univariado das variáveis associadas aos principais desfechos cirúrgicos no carcinoma basocelular periocular. Recidiva pré‐cirurgia de Mohs (RPCM), razão de chances ou odds ratio (OR)
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Tabela 2. Regressão logística multivariada para os desfechos de diâmetro> 10mm, recidiva prévia à cirurgia micrográfica de Mohs (RPCM) e subtipo histológico agressivo. Razão de chances ou odds ratio (OR)
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Prezado Editor,

O carcinoma basocelular (CBC) periocular representa desafio terapêutico em virtude de seu comportamento invasivo e da proximidade com estruturas anatômicas críticas. Poucos estudos avaliaram seus preditores de agressividade e recorrência tratados com cirurgia micrográfica de Mohs (CMM).

Foi realizada uma coorte retrospectiva, em um centro multidisciplinar brasileiro, por um único cirurgião (mantendo o mesmo padrão da técnica cirúrgica). Incluíram‐se pacientes com CBC periocular tratados com CMM entre 2008 e 2018.

Coletaram‐se dados de sexo, idade, localização tumoral, subtipo histológico agressivo (micronodular, esclerosante, infiltrativo e metatípico/basoescamoso) ou não agressivo (superficial, nodular), diâmetro tumoral (> 10mm ou ≤ 10mm), recidiva prévia à cirurgia de Mohs (RPCM), estágios da CMM, tipo de reconstrução, seguimento e recidiva pós‐operatória. Casos com invasão perineural (dois) e radioterapia prévia (nenhum) foram excluídos por serem fatores de alto risco já consagrados, para homogeneização da amostra estatística e por serem poucos casos. Nos casos com subtipos mistos, considerou‐se o mais agressivo. As reconstruções foram classificadas, com base em critérios não padronizados, como menores (fechamento primário, pequenos retalhos, cantotomia‐cantólise), moderadas (retalho de Tenzel) e significantes (retalhos de Hughes ou Mustardé), de acordo com o tamanho do defeito e estruturas acometidas (até 25% a 30%, 30% a 60% e acima de 60% da margem palpebral, respectivamente). Para os casos sem acometimento da margem palpebral, foram considerados significantes os que necessitaram do retalho de Mustardé, enquanto os demais foram considerados pequenos.

A análise estatística incluiu estatísticas descritivas, teste de Shapiro‐Wilk, Wilcoxon, teste exato de Fisher e Kruskal‐Wallis (p<0,05). Modelos de regressão logística foram utilizados, com seleção de variáveis baseadas no cálculo do critério de informação de Akaike.

Foram incluídos 108 pacientes, 57,1% do sexo feminino, idade média de 66,3 anos (± 15,1; 27‐91 anos). A pálpebra inferior foi o local mais afetado (55,5%) e canto medial (29,7%), consistentes com outros trabalhos da literatura de CMM nessa localização (51%).1 Subtipos agressivos estavam presentes em 66,1%. Tumores com diâmetro> 10mm foram observados em 49,1%, e 8% apresentaram RPCM. Recidiva após a CMM ocorreu em 3,8% (n=4), com seguimento de 64,8 meses (± 31,6), similar a estudos prévios com recorrência de 3% a 3,3% em coortes semelhantes.2,3 A área tumoral média foi de 96mm2, e a área final média foi de 398mm2. As reconstruções foram menores (62%), moderadas (13%) e significantes (25%).

Mais estágios de CMM associaram‐se a RPCM (2,9± 1,5) vs. CBC primário (2,0±1,1) (p=0,002), diâmetro> 10mm (2,6±1,4) vs. <10mm (1,9±1,1) (p=0,007), e histologia agressiva (2,4±1,1) vs. não agressiva (2,0±1,5) (p=0,005).

A tabela 1, por meio da regressão logística univariada, exemplifica que tumores> 10mm foram fortemente associados à histologia agressiva (OR=7,33; p <0,001) e maior área de defeito (OR=1,008; p <0,001). Tumores com RPCM apresentaram maior número de estágios (OR=1,72; p=0,002), maior área de defeito (OR=1,008; p=0,001) e mais reconstruções significantes (OR=2,73; p=0,039). Tumores com histologia agressiva exibiram maior chance de reconstruções complexas (OR=4,53; p=0,006).

Tabela 1.

Modelo de regressão logística univariado das variáveis associadas aos principais desfechos cirúrgicos no carcinoma basocelular periocular. Recidiva pré‐cirurgia de Mohs (RPCM), razão de chances ou odds ratio (OR)

Desfecho  Variável  Valor‐p  Razão de chances (OR)  Intervalo de confiança 
Diâmetro> 10 mmRPCM  <0,001  5,875  2,413‐15,635 
Estágios  0,008  1,575  1,142‐2,256 
Área do defeito  <0,001  1,008  1,005‐1,012 
Histologia agressiva  <0,001  7,333  3,093‐18,848 
Reconstrução moderada  0,829  0,876  0,246‐2,832 
Reconstrução significante  <0,001  6,938  2,494‐22,807 
RPCMDiâmetro> 10 mm  <0,001  5,875  2,413‐15,635 
Estágios  0,002  1,721  1,236‐2,485 
Área do defeito  0,001  1,008  1,005‐1,012 
Histologia agressiva  0,158  1,873  0,8‐4,623 
Reconstrução moderada  0,154  2,391  0,697‐7,945 
Reconstrução significante  0,039  2,732  1,05‐7,169 
Histologia agressivaDiâmetro> 10 mm  <0,001  7,333  3,093‐18,848 
Estágios  0,072  1,364  0,988‐1,954 
Área do defeito  0,066  1,001  1‐1,002 
RPCM  0,158  1,873  0,8‐4,623 
Reconstrução moderada  0,056  3,778  1,067‐17,817 
Reconstrução significante  0,06  4,533  1,636‐14,815 

A tabela 2 utilizando o modelo multivariado indicou que RPCM associou‐se com maior área de defeito (OR=1,002; p=0,001) e reconstrução significante (OR=3,77; p=0,0177), assim como estudos prévios que demonstraram que lesões previamente tratadas por cirurgia convencional, de forma inadequada, tendem apresentar comportamento crescimento subclínico aumentado/mais agressivo ao recorrer localmente.4,5 Tumores> 10mm associaram‐se à RPCM (OR=8,02; p=0,0148), subtipo agressivo (OR=8,41; p=0,0021) e maior área de defeito (OR=1,006; p=0,0017). Histologia agressiva associou‐se ao diâmetro> 10mm (OR=6,92; p <0,001).

Tabela 2.

Regressão logística multivariada para os desfechos de diâmetro> 10mm, recidiva prévia à cirurgia micrográfica de Mohs (RPCM) e subtipo histológico agressivo. Razão de chances ou odds ratio (OR)

Resultado  Variável  Razão de chances (OR)  Intervalo de confiança  Valor p 
Diâmetro> 10 mmÁrea do defeito  1,006  1,003‐1,010  0,0017 
RPCM  8,023  1,688‐52,422  0,0148 
Histologia agressiva  8,412  2,316‐36,826  0,0021 
RPCMÁrea do defeito  1,002  1,001‐1,004  0,0007 
Reconstrução significante  3,765  1,256‐11,510  0,0177 
Histologia agressivaDiâmetro> 10 mm  6,922  2,724‐19,070  <0,001 
Reconstrução moderada  4,944  1,271‐24,944  0,0305 

A distribuição anatômica e a taxa de cura (3,8%) após CMM estão alinhadas com a literatura, de 4,2% (n=167); a pálpebra inferior e o canto medial são os locais mais frequentes.1–3,6–8 A análise descritiva inicial revelou associações entre maior número de estágios da CMM e tumores com histologia agressiva, diâmetro>10mm e RPCM, como descrito em estudos prévios.4,9

A análise univariada reforçou que tumores maiores, histologia agressiva ou com RPCM exibem maior chance de crescimento subclínico e reconstruções complexas.

A análise multivariada confirmou esses achados; contudo, mostrou que tumores com RPCM, tumores> 10mm tinham quase sete vezes mais chance de terem histologia agressiva. Embora modestas, as diferenças na área do defeito final foram estatisticamente significantes, destacando o impacto dessas características tumorais na extensão cirúrgica. Os achados sugerem que tumores maiores e com histologia agressiva exigem excisões mais amplas.

Reconstruções significantes foram associadas à RPCM (OR=3,76), sugerindo que tumores recidivados exigem abordagens mais complexas. No entanto, a complexidade reconstrutiva pode refletir a biologia/comportamento do tumor (tamanho, subtipo histológico), sem ser preditor independente. Conforme mostrado acima, CBCs com RPCM tendem a subtipos agressivos e diâmetro> 10mm.

Associação entre tamanho, RPCM e agressividade do tumor reafirmam a CMM como técnica preferencial nesses casos, tendo em vista a maior chance de crescimento subclínico.4,5,9 O controle de margens é crucial, especialmente onde a cirurgia convencional ainda é comum e o acesso à CMM limitado, reduzindo os riscos de tumor invasivo.2,3

São limitações do estudo o desenho retrospectivo e unicêntrico, que podem limitar seus achados. Estudos maiores podem validar essas associações e apoiar o planejamento cirúrgico individualizado.

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Glaysson Tassara Tavares: Redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante e aprovação final da versão final do manuscrito.

Alberto Julius Alves Wainstein: Redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante e aprovação final da versão final do manuscrito.

João Renato Vianna Gontijo: Redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante e aprovação final da versão final do manuscrito.

Ana Paula Drumond Lage: Redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante e aprovação final da versão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Nenhum.

Editor

Luciana P. Fernandes Abbade

Referências
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Como citar este artigo: Tavares GT, Wainstein AJA, Gontijo JRV, Lage APD. Risk factors and surgical outcomes in periocular basal cell carcinoma treated with Mohs micrographic surgery. An Bras Dermatol. 2026;101:501281.

Trabalho realizado no Instituto de Pós‐Graduação, Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

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