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Vol. 101. Issue 3.
(May - June 2026)
Cartas ‐ Investigação
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Incidência e mortalidade do melanoma cutâneo estratificado por sexo e idade – Análise da população brasileira de 2013 a 2023

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Débora Terra Cardiala,
Corresponding author
dradeboraterracardial@gmail.com

Autor para correspondência.
, Francisco Macedo Paschoala, Luiz Vinicius de Alcantara Sousab
a Departamento de Dermatologia, Faculdade de Medicina do Centro Universitário ABC, Santo André, SP, Brasil
b Departamento de Saúde Pública, Faculdade de Medicina do Centro Universitário ABC, Santo André, SP, Brasil
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Tabela 1. Casos de melanoma por sexo, de 2013 a 2023
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Tabela 2. Incidência de melanoma por 100.000 habitantes, por sexo, de 2013 a 2023
Tables
Tabela 3. Incidência de melanoma por 100.000 habitantes por faixa etária, de 2013 a 2023
Tables
Tabela 4. Mortalidade por melanoma por 100.000 habitantes, por faixa etária, de 2013 a 2023
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Tabela 5. Mortes por melanoma por etnia, de 2013 a 2023
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Prezado Editor,

O melanoma cutâneo é responsável por quase 90% de todas as mortes relacionadas ao câncer de pele no mundo.1 Quando detectado em estágios iniciais, o prognóstico é significantemente melhor, ressaltando a importância do rastreamento em nível populacional. Globalmente, tanto a incidência quanto a mortalidade têm apresentado tendência de alta sustentada, com a maior carga concentrada em regiões de alta renda.2 Entre elas, a Austrália permanece referência global em virtude da incidência excepcionalmente alta de melanoma e da implementação precoce de campanhas nacionais de rastreamento e educação, iniciadas na década de 1980. Esses esforços provavelmente contribuíram para o pico observado na incidência em 2005, seguido por declínio gradual.3 Em contraste, outras nações socioeconomicamente desenvolvidas, incluindo os Estados Unidos, ainda não alcançaram reduções semelhantes na incidência.4

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Dermatologia lançou campanhas nacionais de conscientização e detecção precoce do câncer de pele a partir de 1999. Apesar dessas iniciativas, a morbidade e a mortalidade relacionadas ao melanoma permanecem substancialmente altas.5 A suscetibilidade genética, a exposição crônica à radiação ultravioleta e a vasta heterogeneidade territorial e climática do país contribuem para o risco de melanoma. Enquanto isso, o acesso a testes de risco genético e tecnologias de diagnóstico avançadas permanece limitado em todo o território brasileiro, refletindo desigualdades estruturais mais amplas no sistema de saúde.6

Diante desse cenário, a compreensão dos determinantes sociodemográficos do risco de melanoma é essencial para apoiar a triagem direcionada, a alocação equitativa de recursos e a elaboração de estratégias de saúde pública custo‐efetivas – particularmente em países grandes e desiguais como o Brasil. Nações de alta renda, como a Austrália, já demonstraram que políticas estruturadas podem levar à estabilização ou redução da mortalidade por melanoma.3 Isso reforça a urgência de implementar estratégias de detecção precoce escaláveis e acessíveis no Brasil.

Estudos anteriores que examinaram as tendências do melanoma no Brasil sugeriram que o crescimento e o envelhecimento da população podem estar superando as melhoras na capacidade diagnóstica, contribuindo potencialmente para o subdiagnóstico ou detecção tardia em certas regiões.5,7,8 Para contribuir com essa discussão, foi realizado estudo ecológico utilizando dados secundários do DATASUS, que é o banco de dados público do Ministério da Saúde do Brasil. Os casos foram extraídos do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), os óbitos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/SUS) e as estimativas populacionais anuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os casos de melanoma foram identificados utilizando o código C43da CID‐10 e as taxas foram calculadas por 100.000 habitantes.

Entre 2013 e 2023, foram notificados 20.087 casos de melanoma no Brasil. Observou‐se ligeira predominância masculina, com homens representando 57,5% dos casos e mulheres 42,5%. Essa distribuição por sexo permaneceu estável ao longo da década. O número anual de casos aumentou gradualmente de 1.547 em 2013 para 2.047 em 2023 – aumento geral de aproximadamente 32% (tabela 1).

Tabela 1.

Casos de melanoma por sexo, de 2013 a 2023

Sexo  2013  2014  2015  2016  2017  2018  2019  2020  2021  2022  2023  Total 
Masculino  903 (58,37)  916 (56,93)  1.012 (56,41)  1.036 (58,43)  1.031 (56,19)  1.038 (57,99)  1.159 (58,59)  1.120 (58,24)  1.057 (57,70)  1.102 (56,25)  1.176 (57,45)  11.550 (57,5) 
Feminino  644 (41,63)  693 (43,07)  782 (43,59)  737 (41,57)  804 (43,81)  752 (42,01)  819 (41,41)  803 (41,76)  775 (42,30)  857 (43,75)  871 (42,55)  8.537 (42,5) 
Total  1.547 (100)  1.609 (100)  1.794 (100)  1.773 (100)  1.835 (100)  1.790 (100)  1.978 (100)  1.923 (100)  1.832 (100)  1.959 (100)  2.047 (100)  20.087 (100) 

* Valores apresentados em frequência absoluta e relativa.

As taxas de mortalidade também demonstraram disparidades consistentes entre os sexos. A mortalidade ajustada por idade foi maior entre os homens durante todo o período do estudo, variando de 0,93 a 1,14 óbitos por 100.000 habitantes, enquanto a mortalidade feminina variou de 0,63 a 0,80. Embora pequenas oscilações anuais tenham sido observadas, a diferença persistente sugere risco sistematicamente elevado de morte relacionada ao melanoma entre os homens no Brasil (tabela 2).

Tabela 2.

Incidência de melanoma por 100.000 habitantes, por sexo, de 2013 a 2023

Sexo  2013  2014  2015  2016  2017  2018  2019  2020  2021  2022  2023 
Masculino  0,78  0,77  0,79  0,79  0,76  1,84  2,82  2,42  2,41  2,72  2,89 
Feminino  0,60  0,59  0,58  0,57  0,55  1,75  2,83  2,37  2,33  2,73  3,01 

A idade foi fortemente associada à mortalidade. Indivíduos com menos de 30 anos representaram menos de 2% dos óbitos. A mortalidade aumentou acentuadamente após os 50 anos, com aumento progressivo em todas as faixas etárias mais velhas. Adultos com 80 anos ou mais representaram a maior carga de mortalidade, respondendo por 22,9% de todos os óbitos entre 2013 e 2023. Além disso, a contribuição relativa do grupo com 80 anos ou mais aumentou ao longo do tempo – de 19,3% dos óbitos em 2013 para 24,9% em 2023 –, destacando a crescente influência do envelhecimento populacional na mortalidade por melanoma no Brasil (tabelas 3 e 4).

Tabela 3.

Incidência de melanoma por 100.000 habitantes por faixa etária, de 2013 a 2023

Faixa etária (anos)  2013  2014  2015  2016  2017  2018  2019  2020  2021  2022  2023 
0–19  0,03  0,02  0,03  0,02  0,02  0,07  0,14  0,10  0,11  0,10  0,14 
20–24  0,10  0,11  0,09  0,07  0,07  0,30  0,38  0,29  0,24  0,30  0,32 
25–29  0,19  0,16  0,17  0,20  0,14  0,41  0,57  0,57  0,47  0,46  0,47 
30–34  0,25  0,34  0,26  0,26  0,24  0,57  0,98  0,70  0,67  0,66  0,72 
35–39  0,43  0,46  0,46  0,39  0,39  0,89  1,34  1,05  1,08  1,06  1,14 
40–44  0,81  0,63  0,66  0,57  1,36  2,03  1,72  1,47  1,55  1,79   
45–49  1,09  0,80  1,15  0,94  0,80  1,91  2,95  2,36  2,53  2,53  2,78 
50–54  1,38  1,39  1,28  1,21  1,10  2,83  4,40  3,61  3,21  3,78  4,04 
55–59  2,01  1,86  1,71  1,69  1,61  3,93  6,01  5,03  4,63  5,48  5,38 
60–64  2,27  2,24  2,11  2,12  2,14  4,96  7,98  6,98  6,96  7,32  7,95 
65–69  2,92  2,52  2,98  2,79  2,64  6,83  10,18  8,60  8,48  9,73  10,16 
70–74  2,55  3,23  2,63  3,06  3,12  8,27  12,71  11,00  10,56  13,19  13,35 
75–79  3,75  3,55  3,28  3,38  2,78  10,35  15,82  12,44  12,59  14,47  16,28 
80 e acima  1,93  2,47  2,33  2,17  2,79  10,45  16,23  13,58  13,98  16,55  17,08 
Tabela 4.

Mortalidade por melanoma por 100.000 habitantes, por faixa etária, de 2013 a 2023

Faixa etária (anos)  2013  2014  2015  2016  2017  2018  2019  2020  2021  2022  2023 
0–19  0,01  0,01  0,02  0,02  0,01  0,01  0,01  0,01  0,02  0,01  0,01 
20–24  0,06  0,07  0,04  0,09  0,07  0,04  0,05  0,07  0,04  0,04  0,06 
25–29  0,11  0,12  0,12  0,13  0,12  0,09  0,10  0,10  0,10  0,12  0,10 
30–34  0,27  0,22  0,23  0,25  0,23  0,19  0,21  0,16  0,19  0,23  0,20 
35–39  0,41  0,40  0,40  0,42  0,35  0,36  0,28  0,31  0,31  0,31  0,31 
40–44  0,51  0,63  0,61  0,59  0,51  0,49  0,48  0,43  0,40  0,43  0,40 
45–49  0,72  0,87  0,91  0,81  0,84  0,80  0,79  0,69  0,70  0,86  0,75 
50–54  1,07  0,98  1,29  1,45  1,21  1,15  1,13  1,07  0,93  1,02  1,10 
55–59  1,72  1,63  1,76  1,61  1,51  1,37  1,54  1,64  1,53  1,42  1,40 
60–64  2,37  2,23  2,49  2,23  2,38  2,18  2,42  2,09  2,08  2,07  2,32 
65–69  3,10  3,39  3,26  2,87  3,05  2,80  3,37  2,96  2,75  2,66  2,83 
70–74  4,12  3,74  4,87  3,89  3,93  4,04  4,57  4,24  3,73  4,58  4,14 
75–79  5,42  5,30  5,52  6,08  5,66  6,02  5,58  6,17  4,86  5,30  5,54 
80 e acima  8,98  9,60  10,67  10,31  10,89  10,53  11,42  10,89  10,51  10,63  11,13 

A etnia também desempenhou papel importante. Indivíduos que se autodeclararam brancos apresentaram consistentemente as maiores taxas de mortalidade, representando de 77% a 81% dos óbitos em todos os anos analisados (tabela 5).

Tabela 5.

Mortes por melanoma por etnia, de 2013 a 2023

Etnia  2013  2014  2015  2016  2017  2018  2019  2020  2021  2022  2023  Total 
Branca  1.262(81,58)  1.305(81,11)  1.439(80,65)  1.430(80,65)  1.464(79,78)  1.418(79,17)  1.563(79,02)  1.485(77,22)  1.424(77,73)  1.576(80,45)  1.599(78,11)  15.965(79,48) 
Negra  38(2,46)  34(2,11)  42(2,34)  41(2,31)  50(2,72)  32(1,79)  62(3,13)  47(2,44)  42(2,29)  45(2,30)  49(2,39)  482(2,40) 
Asiática  8(0,52)  2(0,12)  5(0,28)  1(0,06)  7(0,38)  3(0,17)  4(0,21)  7(0,36)  5(0,27)  6(0,31)  7(0,34)  55(0,27) 
Parda  172(11,12)  189(11,75)  243(13,71)  243(13,71)  257(14,01)  267(14,94)  307(15,52)  303(17,58)  316(17,25)  307(15,67)  359(17,54)  3.030(14,95) 
Indígena  1(0,06)  2(0,12)  1(0,06)  0(0)  4(0,22)  1(0,06)  2(0,10)  3(0,16)  0(0)  1(0,05)  1(0,05)  15(0,07) 
Não relatada  66(4,27)  77(4,79)  59(3,29)  58(3,27)  53(2,89)  70(3,91)  40(2,02)  43(2,24)  45(2,46)  25(1,28)  32(1,56)  568(2,83) 
Total  1.547(100)  1.609(100)  1.794(100)  1.773(100)  1.835(100)  1.791(100)  1.978(100)  1.923(100)  1.832(100)  1.959(100)  2.047(100)  20.088(100) 

Os dados são expressos em números absolutos e porcentagens de mortes relacionadas ao melanoma por etnia entre 2013 e 2023.

A distribuição étnica heterogênea do Brasil ajuda a contextualizar esse padrão. As regiões Sul e Sudeste – historicamente moldadas pela extensa imigração europeia – concentram a maioria dos indivíduos brancos no país e, consequentemente, apresentam a maior incidência e mortalidade por melanoma.9 Esse padrão demográfico está alinhado com os resultados do presente conjunto de dados nacional e ajuda a explicar as diferenças regionais na carga do melanoma.

Os presentes resultados são consistentes com o perfil epidemiológico de longa data descrito em uma grande coorte populacional de Blumenau, Santa Catarina, que acompanhou a incidência de melanoma por quase quatro décadas. Esse estudo demonstrou predominância persistente de melanoma entre homens brancos com mais de 54 anos, com a incidência aumentando de modo constante ao longo do período de observação.9 A semelhança entre os presentes resultados nacionais e a coorte de Blumenau reforça a hipótese de que a composição demográfica – particularmente a alta concentração de indivíduos de ascendência europeia no sul do Brasil – desempenha papel substancial na distribuição do melanoma no país.

Além dos fatores ambientais e demográficos, determinantes comportamentais e biológicos específicos do sexo podem contribuir para a carga desproporcional entre os homens. Estudos internacionais demonstraram que os homens tendem a se engajar com menos frequência na fotoproteção, adiar a avaliação dermatológica e apresentar menor adesão às medidas preventivas.10 A suscetibilidade biológica também foi proposta: diferenças na resposta imune, na capacidade de reparo do DNA e na carcinogênese induzida pela radiação UV podem predispor os homens a um comportamento tumoral mais agressivo, independentemente do contexto geográfico ou socioeconômico.9,10 Juntos, esses fatores podem ajudar a explicar a maior mortalidade observada entre os homens brasileiros.

Em conjunto, os presentes achados ilustram um cenário multifatorial no qual determinantes demográficos, comportamentais, biológicos e estruturais de saúde convergem para moldar a carga do melanoma no Brasil. Se os padrões globais atuais forem mantidos, o Brasil poderá seguir a trajetória dos países de alta renda, com potencial estabilização ou declínio gradual na incidência entre indivíduos mais jovens, mas com aumento contínuo de casos entre adultos com mais de 55 anos em virtude do envelhecimento da população. Com maior conscientização pública e estratégias de rastreamento ampliadas, no entanto, a redução na mortalidade é possível, como demonstrado em outras experiências nacionais.1–3

ORCID ID

Francisco Macedo Paschoal: 0000‐0002‐6264‐1538, Luiz Vinicius de Alcantara Sousa: 0000‐0002‐6895‐4914

Suporte financeiro

Este estudo foi financiado em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) e por recursos próprios dos pesquisadores.

Contribuição dos autores

Débora Terra Cardial: Concepção e planejamento do estudo; obtenção, análise e interpretação dos dados; análise estatística; elaboração e redação do manuscrito ou revisão crítica de conteúdo intelectual importante; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.

Francisco Macedo Paschoal: Concepção e planejamento do estudo; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; aprovação da versão final do manuscrito.

Luiz Vinicius de Alcantara Sousa: Concepção e planejamento do estudo; obtenção, análise e interpretação dos dados; análise estatística; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Nenhum.

Editor

Sílvio Alencar Marques

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Como citar este artigo: Cardial DT, Paschoal FM, Sousa LV. Incidence and mortality of cutaneous melanoma stratified by sex, age, and age group – An analysis of the Brazilian population from 2013 to 2023. An Bras Dermatol. 2026;101:501338.

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina do Centro Universitário ABC, Santo André, SP, Brasil.

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