A rosácea é doença inflamatória crônica que afeta principalmente a região central da face ou os olhos, caracterizada por rubor, eritema persistente, telangiectasia, pápulas, pústulas, edema e alterações fimatosas, com envolvimento ocular manifestando‐se como blefarite, hiperemia conjuntival e sintomas de olho seco. Os medicamentos tópicos de primeira linha atuais (metronidazol, ácido azelaico e ivermectina) oferecem eficácia e tolerabilidade variáveis, enquanto os agentes sistêmicos podem causar disbiose, tontura, fotossensibilidade e teratogenicidade em populações selecionadas.1,2 O tapinarof (também conhecido como benvitimod) é um agonista não esteroidal de molécula pequena do receptor de hidrocarbonetos arílicos (AhR) com efeitos anti‐inflamatórios, restauradores da barreira cutânea e supressores da secreção sebácea.3 É aprovado para psoríase em placas e demonstrou benefício na dermatite atópica.4 Que seja de conhecimento dos autores, o tapinarof não foi relatado para o tratamento da rosácea. São apresentados dois pacientes com rosácea papulopustulosa (RPP) tratados com creme tópico de tapinarof a 1%. A gravidade da doença foi avaliada pela Avaliação Global do Investigador (IGA, do inglês Investigator Global Assessment; 0‐4) pelo dermatologista responsável e pelo Dermatology Life Quality Index (DLQI; 0‐30) relatado pelo paciente.
Caso 1Paciente do sexo masculino, de 66 anos, apresentou‐se com histórico de dois meses de eritema nasal persistente, acompanhado de várias pápulas inflamatórias e leve desconforto. O tratamento anterior com gel de metronidazol a 0,75% havia apresentado melhora mínima. O exame físico revelou eritema centrofacial com pápulas eritematosas discretas e seborreia. Foi aplicado creme tópico de tapinarof a 1% uma vez ao dia. Na 4ª semana, o eritema e as pápulas estavam quase totalmente resolvidos (IGA de 2 para 1), o DLQI melhorou de 5 para 0 e a seborreia foi reduzida (fig. 1A‐B). Em seguida, o tapinarof foi descontinuado. Não ocorreram eventos adversos locais ou sistêmicos. Sem terapia de manutenção, a resposta terapêutica foi mantida aos seis meses.
Caso 2Paciente do sexo feminino, de 48 anos, relatou histórico de cinco anos de eritema persistente centrofacial, pápulas e papulopústulas acompanhadas de sebo facial excessivo. Ela recusou terapia sistêmica. A triagem sorológica para doença autoimune do tecido conjuntivo (anticorpos antinucleares, anti‐antígeno nuclear extraível, anti‐DNA de fita dupla e anti‐mitocondriais) foi negativa. O IGA basal era 3 e o DLQI era 14. O tratamento com creme de tapinarof a 1%, aplicado à noite por quatro semanas e, em seguida, em noites alternadas por mais quatro semanas, foi iniciado. A contagem de lesões e o eritema foram substancialmente reduzidos (IGA de 3 para 1) e a produção de sebo diminuiu; o DLQI melhorou para 3 (fig. 2A‐B). A paciente não recebeu terapia de manutenção. Não foram observados efeitos adversos, e a resposta terapêutica persistiu durante os quatro meses de seguimento. A paciente relatou leve recidiva quatro meses após a descontinuação, caracterizada por eritema facial central discreto e menos de cinco lesões papulopustulosas dispersas; essas lesões melhoraram após o uso de tapinarof por iniciativa própria.
A rosácea tem diferentes manifestações. A RPP é caracterizada por erupção centrofacial de múltiplas pápulas e/ou papulopústulas com eritema centrofacial persistente.1,2 Estes dois casos demonstraram que o creme de tapinarof a 1%, aplicado uma vez por noite, atenuou rapidamente as lesões papulopustulosas e reduziu a seborreia, com remissão sustentada por mais de três meses. A melhora no DLQI reforçou o benefício significante relatado pelo paciente. Não foram observadas irritação cutânea, sensibilização de contato ou toxicidade sistêmica, o que indica boa tolerabilidade.
A eficácia observada está de acordo com os insights mecanísticos. As taxas de infestação por Demodex são significantemente maiores no grupo com rosácea do que em controles saudáveis.1,2 Os ácaros Demodex podem ativar o receptor Toll‐like 2 (TLR2) e a imunidade inata dominada pelo TLR2 contribui para o desenvolvimento da rosácea. Quando o TLR2 é ativado, os queratinócitos produzem citocinas e quimiocinas pró‐inflamatórias. Amostras de pele de pacientes com rosácea exibem expressão aumentada de citocinas pró‐inflamatórias, como IL‐8, IL‐1β e TNF‐α. A IL‐8 leva à quimiotaxia de neutrófilos na pele, enquanto a IL‐1β e o TNF‐α promovem reações inflamatórias adicionais. O TLR2 ajuda a aumentar a expressão de KLK5, que é essencial para a ativação de LL37.5 A ativação do sistema imunológico adaptativo, demonstrada pela presença de células T‐helper 1 (TH1) e T‐helper 17 (TH17) com seus respectivos mediadores imunológicos em lesões cutâneas da rosácea, resulta em aumento da inflamação e maior ativação imunológica. Também foi identificada a regulação positiva de IFN‐γ e IL‐17A na pele afetada pela rosácea. Demonstrou‐se que a IL‐17 induz a angiogênese por meio do VEGF e afeta a expressão de LL‐37 em queratinócitos humanos.1,2 A ativação do AhR pelo tapinarof suprime as respostas inatas mediadas por TLR2, reduz a produção de citocinas Th17 e regula negativamente a lipogênese sebácea, mitigando assim tanto as lesões inflamatórias quanto o ambiente rico em lipídios, que favorece a proliferação de Demodex.3,5‐7 No entanto, os mecanismos precisos que explicam o efeito do tapinarof na rosácea requerem investigação adicional.
O presente estudo sugere que o tapinarof tópico pode ser alternativa potencialmente eficaz para a RPP. O tamanho reduzido da amostra e o curto período de seguimento são limitações deste estudo. Estudos controlados são necessários para confirmar esses achados preliminares e estabelecer a frequência de dosagem ideal.
ORCID IDJiacheng Lin: 0009‐0001‐8555‐770X
Qiong Wu: 0000‐0002‐8586‐6860
Qiang Ju: 0000‐0002‐0251‐1598
Suporte financeiroEste estudo recebeu suporte financeiro da National Natural Science Foundation of China (n° 82173434).
Contribuição dos autoresLanqi Wang*: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; aprovação da versão final do manuscrito.
Sitong Li*: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; aprovação da versão final do manuscrito.
Jiachen Lin: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Qiong Wu: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Qiang Ju: Participação efetiva na orientação da pesquisa; concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
*Estes autores contribuíram igualmente para este trabalho e compartilham a primeira autoria.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorAna Maria Roselino


