A mucinose folicular (MF), mucinose cutânea rara, é caracterizada por placas eritematosas infiltradas com proeminência folicular. Não há consenso sobre o tratamento da MF. As opções terapêuticas atuais incluem corticosteroides tópicos de potência leve a moderada, antibióticos tópicos e orais, retinoides, dapsona, sulfacetamida, imiquimode, pentoxifilina, pimecrolimus, psoraleno com ultravioleta A (PUVA) e mostarda nitrogenada.1 Evidências emergentes sugerem que o tofacitinibe pode ser eficaz para mucinoses cutâneas, com eficácia relatada tanto no mixedema pré‐tibial quanto na mucinose papulonodular refratária.2,3 Aqui, relata‐se o caso de uma paciente com MF refratária tratada com sucesso com tofacitinibe.
Paciente do sexo feminino, de 55 anos, compareceu à clínica de dermatologia com histórico de quatro meses de placa facial esquerda. A paciente negou qualquer aplicação tópica, ingestão de medicamentos ou fotossensibilidade. Seu histórico sistêmico e familiar não apresentava particularidades. O exame físico demonstrou uma placa edematosa, eritematosa e mal delimitada na região bucinadora esquerda (fig. 1A). Não foram observadas outras manifestações cutâneas. De acordo com as características clínicas e histopatológicas, a paciente foi diagnosticada com mucinose folicular primária (MFP). O tratamento inicial com hidroxicloroquina (200mg, duas vezes/dia) e corticosteroides tópicos de alta potência (pomada de propionato de clobetasol 0,05%) não resultou em melhora clínica após oito semanas de terapia. Iniciou‐se então a monoterapia com tofacitinibe 5mg, duas vezes/dia. Após três meses de tratamento, observou‐se melhora clínica significante, manifestada pela resolução completa das lesões cutâneas (fig. 1B). Não houve recidiva durante o período de seguimento de três meses após a suspensão do tratamento. O exame histopatológico revelou o acúmulo de mucina nos folículos pilossebáceos e glândulas sebáceas, com infiltrados perifoliculares de linfócitos e eosinófilos observados (fig. 2A). A coloração com azul de Alcian confirmou a deposição de mucina no epitélio folicular (fig. 2B). A análise imuno‐histoquímica demonstrou que os linfócitos eram positivos para antígeno comum leucocitário (LCA), Ki‐67 (taxa de positividade de 20%), CD8, CD20, CD7, CD79a, CD4 e CD3, com proporção CD4+/CD8+equilibrada (fig. 2C–D). O resultado do rearranjo do gene do receptor de células T (TCR) foi negativo.
(A) Deposição maciça de mucina no epitélio folicular (Hematoxilina & eosina, 40×). (B) Deposição de mucina confirmada pela coloração com azul de Alcian (200×). A análise imuno‐histoquímica demonstrou que os linfócitos eram positivos para CD4 (C) e CD8 (D), com proporção CD4+/CD8+equilibrada (100×).
A MF é caracterizada pela extensa deposição de mucina na bainha radicular externa e nas glândulas sebáceas. A MF pode ser categorizada como MFP e mucinose folicular secundária (MFS). O sintoma clínico mais comum da MFP é lesão solitária na região da cabeça ou pescoço em pacientes jovens. Quanto aos achados histopatológicos, a presença de extensa deposição de mucina nos espaços císticos, infiltração policlonal mínima perivascular e perianexial de linfócitos não atípicos, ausência de epidermotropismo e proporção equivalente de células CD4+/CD8+apontam para o diagnóstico de MFP. A MFS pode estar associada a certos medicamentos, condições benignas e malignidades (mais comumente linfomas). A MF associada a linfoma tipicamente se apresenta com múltiplas lesões extracranianas em pacientes idosos. O exame histopatológico revela infiltrado denso em faixa com linfócitos atípicos, epidermotropismo, um imunofenótipo CD4+proeminente e rearranjo gênico monoclonal do infiltrado.1
A patogênese da MF permanece incompletamente compreendida. Evidências atuais sugerem que os queratinócitos foliculares podem ser a fonte de deposição de mucina, processo ativado por mecanismos imunológicos mediados por células T e citocinas. Os linfócitos T secretam IL‐4, IL‐2 e IL‐26, induzindo a fosforilação do transdutor de sinal e ativador de transcrição (STAT), afetando assim a função dos queratinócitos.4 O tofacitinibe, como um inibidor pan‐JAK1/JAK3, pode interromper a sinalização patológica bloqueando a fosforilação de STAT.5 Estudos também demonstraram correlação significante entre a quantidade de mucina dentro dos folículos pilosos e a gravidade da infiltração inflamatória perifolicular. Mediadores liberados por linfócitos T, incluindo IFN‐γ, IL‐5, TGF‐β e IL‐4, desencadeiam e amplificam cascatas inflamatórias.4 A via JAK‐STAT desempenha papel vital na regulação imunológica, diferenciação, apoptose e proliferação celular.5 Ao inibir JAK1/JAK3, o tofacitinibe reduz efetivamente a produção de citocinas pró‐inflamatórias em linfócitos T. O tofacitinibe, no presente caso, foi selecionado principalmente em virtude de seu custo comparativamente menor em relação a outros inibidores de JAK altamente seletivos. Além disso, a literatura publicada indicou sua eficácia promissora no tratamento de dermatoses mucinosas.2,3
Atualmente, não existem diretrizes de tratamento estabelecidas para MF, e o manejo permanece individualizado. As opções terapêuticas disponíveis demonstraram eficácia limitada na prática clínica. Este caso pioneiro demonstra a primeira aplicação terapêutica bem‐sucedida de inibidores de JAK em MF. Embora esses resultados sejam promissores, as limitações inerentes a este estudo de caso único ressaltam a necessidade de validação por meio de ensaios clínicos randomizados e controlados em larga escala. Além disso, investigações mecanísticas adicionais são essenciais para elucidar as vias terapêuticas precisas do tofacitinibe na MF.
Aprovação éticaEste é um estudo de caso retrospectivo. O Comitê de Ética do First Affiliated Hospital of Chongqing Medical University confirmou que nenhuma aprovação ética é necessária.
ORCID IDYu‐Lian Li: 0009‐0004‐4608‐6548
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresYu‐Lian Li: Curadoria de dados; metodologia; análise formal; visualização; validação; redação – rascunho original.
Sheng Fang: Conceitualização; metodologia; recursos; supervisão; redação – revisão e edição.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorLuciana P. Fernandes Abbade
AgradecimentoA paciente mencionada neste manuscrito deu seu consentimento livre e esclarecido por escrito para a publicação dos detalhes do seu caso.


