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Atualização sobre novos tratamentos para acne: revisão narrativa com foco na modulação do microbioma e abordagens não farmacológicas

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Valentina Burckhardt‐Bravoa,
Autor para correspondência
vburckhardtb@gmail.com

Autor para correspondência.
, Rodrigo Funes‐Ferradaa, Fernando Valenzuelaa,b
a Departamento de Dermatologia, Faculty of Medicine, Universidad de Los Andes, Santiago, Las Condes, Chile
b Departamento de Dermatologia, Faculty of Medicine, Universidad de Chile, Santiago, Independencia, Chile
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Tabela 1. Visão geral comparativa dos principais estudos incluídos nesta revisão narrativa6–28
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Resumo

A acne vulgar é condição inflamatória crônica com patogênese multifatorial. Apesar da disponibilidade de inúmeras opções de tratamento, ainda existe a necessidade de terapias seguras, bem toleradas e que preservem o microbioma. Esta revisão narrativa explora os avanços recentes em tratamentos não farmacológicos para acne, com foco em diversas estratégias de modulação do microbioma, destacando as modalidades terapêuticas emergentes e seu potencial impacto na prática clínica. Os principais achados de estudos recentes são resumidos, fornecendo perspectivas para pesquisas futuras e aplicações práticas em Dermatologia.

Palavras‐chave:
Acne vulgar
Fotoquimioterapia
Microbioma da pele
Terapêutica
Texto Completo
Introdução

A acne vulgar é condição inflamatória crônica da pele com patogênese multifatorial, envolvendo queratinização anormal, superprodução de sebo, inflamação da unidade pilossebácea, colonização microbiana por Cutibacterium acnes e influências dietéticas1,2. Embora existam inúmeros tratamentos eficazes disponíveis atualmente, como retinoides, antibióticos e agentes hormonais, eles são frequentemente limitados por efeitos adversos, resistência antimicrobiana e disrupção do microbioma da pele. Essas limitações intensificaram a busca por terapias alternativas que possam restaurar o equilíbrio microbiano, modular as interações hospedeiro‐microbiota e aumentar a segurança e a tolerabilidade3.

O microbioma cutâneo desempenha papel fundamental na manutenção da integridade da barreira cutânea e na regulação das respostas imunes locais. Sua desregulação pode exacerbar a inflamação, prejudicar a tolerância imunológica e promover o crescimento excessivo de microrganismos patogênicos, mecanismos que estão cada vez mais associados à acne persistente ou resistente ao tratamento4.

Consequentemente, as abordagens direcionadas ao microbioma surgiram como campo promissor e inovador no tratamento da acne. Os avanços na compreensão do papel do microbioma na imunidade e inflamação cutâneas abriram novas vias para o desenvolvimento de terapias mais seguras e personalizadas que abordam a disbiose, preservando a diversidade microbiana5.

Esta revisão narrativa fornece visão geral das estratégias não farmacológicas emergentes, incluindo probióticos tópicos, pós‐bióticos, produtos bioterapêuticos vivos, fitocomplexos biotecnológicos, bacteriófagos, vacinas, intervenções no eixo intestino‐pele e modalidades baseadas em energia, como a terapia fotodinâmica. Essas estratégias visam alcançar eficácia clínica, preservando ou restaurando o equilíbrio do microbioma, representando mudança de paradigma no tratamento contemporâneo da acne vulgar.

Métodos

Foi realizada revisão abrangente da literatura para identificar estudos recentes sobre tratamentos não farmacológicos para acne, com foco em estratégias de modulação do microbioma. A revisão incluiu artigos publicados entre 2022 e 2024, excluindo aqueles focados exclusivamente em tratamentos de cicatrizes, e considerando estudos que abordam todos os graus de gravidade da acne vulgar inflamatória. A estratégia de busca priorizou ensaios clínicos, ensaios clínicos randomizados (ECRs), metanálises e revisões sistemáticas. Para garantir a relevância, foram aplicados filtros para incluir apenas estudos publicados entre 2022 e 2024. As buscas foram realizadas em 29 de dezembro de 2024, em diversas bases de dados, incluindo PubMed, Google Scholar, MEDLINE, Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) e ClinicalTrials.gov. Além disso, a técnica de bola de neve foi utilizada para identificar estudos relevantes citados na literatura revisada. Esta revisão baseia‐se exclusivamente em pesquisas previamente publicadas e exclui quaisquer estudos originais conduzidos pelos autores. A tabela 1 resume os principais estudos incluídos nesta revisão narrativa6–28.

Tabela 1.

Visão geral comparativa dos principais estudos incluídos nesta revisão narrativa6–28

Autores,ano  Terapia  Desenho do estudo  Pacientes  Objetivo  Intervenção  Achados principais  Segurança  Conclusão 
Lebeer et al., 20226  Probióticos tópicos  Ensaio clínico duplo‐cego, controlado por placebo  79 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a eficácia e a segurança de creme com lactobacilos na modulação do microbioma da pele e na melhora da acne  Creme tópico contendo L. rhamnosus GG, L. plantarum WCFS1, L. pentosus KCA aplicado duas vezes ao dia durante oito semanas  Redução da colonização por C. acnes e Staphylococcus spp.; aumento da abundância de Lactobacillus spp. Clinicamente, houve diminuição das lesões inflamatórias (DM=5,6 lesões; IC 95%8,2 a2,9; p <0,001) e melhora da hidratação da pele  Bem tolerado, eritema leve em poucos pacientes  A aplicação tópica de lactobacilos melhorou significantemente a acne e modulou a composição do microbioma. Os resultados sugerem potencial, mas necessitam de replicação em ECRs de maior porte 
Sathikulpakdee et al., 20227  Probióticos tópicos  ECR simples‐cego.  104 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a eficácia e a segurança de loção derivada de probióticos em comparação com 2,5% de peróxido de benzoíla  Loção com sobrenadante livre de células de L. paracasei MSMC 39‐1 vs. peróxido de benzoíla a 2,5%, aplicada duas vezes ao dia durante quatro semanas  Ambos os grupos apresentaram reduções intragrupo nas lesões inflamatórias (–35,1% [IC 95%41,2 a28,9] com probiótico vs.32,0% [IC 95%38,1 a25,9] com peróxido de benzoíla; p >0,05). O probiótico reduziu o eritema em relação ao valor basa  Bem tolerado; menos efeitos colaterais (eritema, prurido, descamação) no grupo probiótico  A loção derivada de probióticos mostrou‐se segura, com eficácia comparável à do peróxido de benzoíla. As evidências ainda são preliminares e requerem estudos clínicos de maior porte 
Casari et al., 20228  Probióticos tópicos  Estudo clínico piloto aberto  29 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a eficácia e a segurança de sérum à base de probióticos e ácido hialurônico  Aplicação noturna de sérum com L. paracasei LiveSkin88+ácido hialurônico durante 28 dias  No 14° dia, as pápulas e pústulas diminuíram (DM=6,2 lesões; IC 95%8,1 a4,2; p <0,0001). O eritema diminuiu (IC 95%2,3 a1,1), a hidratação aumentou (DM=+12,7 UA; IC 95% 9,5 a 15,9) e a área afetada reduziu em 14,5% (IC 95%21,4 a7,6; p <0,05)  Sem eventos adversos; alta satisfação do paciente  O soro probiótico melhorou as lesões inflamatórias e a hidratação. Evidências preliminares, que necessitam de replicação em ECRs controlados 
Karoglan et al., 20199  PBVs  Estudo piloto aberto  14 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a segurança e a eficácia da aplicação de cepas não patogênicas de C. acnes  Formulações de hidrogel com cepas específicas não patogênicas de C. acnes, aplicadas por cinco semanas  Redução significante nas lesões não inflamatórias (DM não relatada; p=0,029 e 0,036); nenhum efeito nas lesões inflamatórias  Não foram relatados efeitos adversos graves  A modulação do microbioma por meio de cepas não patogênicas de C. acnes mostra‐se promissora como potencial tratamento para a acne 
Knödlseder et al., 202410  PBVs  Pré‐clínico (modelo murino+in vitroCinco camundongos (grupo C. acnes geneticamente modificado), nove camundongos (grupo controle)  Avaliar a viabilidade de cepas de C. acnes geneticamente modificadas para expressar NGAL na modulação da produção de sebo  C. acnes geneticamente modificada para expressar NGAL, aplicada à pele de camundongos e culturas de sebócitos  A produção de sebo foi significantemente reduzida em culturas de sebócitos tratadas com NGAL. Não houve aumento nas citocinas pró‐inflamatórias (IL‐1β, IL‐6, TNF‐α)  Não foram observados efeitos adversos  C. acnes geneticamente modificada mostra‐se promissora para a modulação direcionada à produção de sebo; as evidências ainda se limitam a modelos in vitro e murinos 
AOBiome, 201711  PBVs  ECR de fase IIb, duplo‐cego, controlado por placebo  358 pacientes adultos com acne leve a moderada  Avaliar a eficácia e a segurança do uso tópico de Nitrosomonas eutropha B244  Spray tópico de N. eutropha B244 aplicado diariamente durante 12 semanas  Redução significante de 2 pontos nos escores AGI em comparação com o placebo (OR=2,45; IC 95% 1,08 a 5,56; p=0,03) na semana 12. A contagem de lesões inflamatórias melhorou significantemente apenas no grupo por‐protocolo (–12,3 vs. placebo; IC 95%23,3 a1,3, p=0,028)  Bem tolerado, sem relatos de eventos adversos emergentes do tratamento  A aplicação tópica de Nitrosomonas eutropha melhorou significantemente a acne, apresentando‐se como alternativa segura e eficaz para o tratamento da acne leve a moderada 
Han et al., 202212  Pós‐biótico tópico  Estudo randomizado, controlado por placebo e com aplicação em metade da face  20 pacientes com acne leve a moderada (AGI 2–3)  Avaliar a eficácia e a segurança de loção contendo extrato de Enterococcus faecalis CBT SL‐5  Loção com E. faecalis CBT SL‐5 aplicada em um lado do rosto e o veículo no outro, duas vezes ao dia, durante quatro semanas  Escores de melhora global foram maiores no lado tratado na semana 2 (DM=0,6; IC 95% 0,15 a 1,05), na semana 4 (DM=0,65; IC 95% 0,21 a 1,09) e na semana 6 (DM=1,10; IC 95% 0,64 a 1,56). A densidade de C. acnes diminuiu significantemente no lado tratado  Não foram relatados efeitos adversos graves  O uso tópico de pós‐bióticos com extrato de E. faecalis CBT SL‐5 melhorou a acne e reduziu a densidade de C. acnes. Resultados promissores, mas são necessários ECRs de maior porte 
Ho et al., 202213  Pós‐biótico tópico  ECR  20 pacientes com acne vulgar  Avaliar a eficácia de um pós‐biótico co‐fermentado com colágeno na melhora da acne, redução da inflamação e promoção da cicatrização da pele  Gel tópico co‐fermentado (TYCA06/AP‐32/CP‐9 com colágeno), aplicado duas vezes ao dia durante quatro semanas  Melhora na hidratação (DM=+2,0%; IC 95% 0,1 a 3,9), redução do eritema (DM=2,3%; IC 95%4,0 a0,6), diminuição das manchas escuras (DM=5,7%; IC 95%9,1 a2,3). Tendência à redução do sebo (DM=4,6%; IC 95%9,8 a 0,6). In vitro: redução de TSLP e IL‐33  Bem tolerado, sem relatos de efeitos adversos  A formulação pós‐biótica mostrou‐se segura e apresentou melhorias na hidratação, eritema e pigmentação. São necessários estudos adicionais de maior porte para validação 
Guerra‐Tapia et al., 202414  Fitocomplexos biotecnológicos  Estudo prospectivo aberto  43 pacientes com acne leve a moderada no tronco  Avaliar o efeito de loção contendo fitocomplexo biotecnológico na diversidade bacteriana e nos resultados clínicos da acne no tronco  Loção contendo fitocomplexos à base de plantas (lisados de calos de C. sinensis e M. citrifolia), niacinamida 4%, ácido succínico 2%, aplicada duas vezes ao dia durante oito semanas  As lesões inflamatórias reduziram em 52,1% (p=0,006); a AGI diminuiu em 27,6% (p <0,001), com 60,5% dos pacientes apresentando melhora de ≥ 1 ponto; a abundância relativa de C. acnes diminuiu de 66,4% para 58,1% (p=0,009); o eritema reduziu em 18,3% (p=0,007); a descamação reduziu em 63,8% (p=0,02). Não foi relatado intervalo de confiança de 95%  O tratamento foi bem tolerado, com apenas dois casos relatados de prurido leve  Evidências preliminares de eficácia em lesões inflamatórias e na microbiota, mas o desenho aberto do estudo e a ausência de intervalo de confiança limitam a interpretação; ECRs são necessários 
De Lucas et al., 202415  Fitocomplexos biotecnológicos  Estudo prospectivo aberto  44 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar o efeito de creme‐gel facial contendo fitocomplexo biotecnológico no equilíbrio da microbiota cutânea e na gravidade clínica da acne  Aplicação tópica de creme‐gel facial contendo lisados de calos de C. sinensis e M. citrifolia, niacinamida 4% e ácido succínico 2%, aplicado diariamente durante oito semanas  Lesões inflamatórias reduzidas em 47,3% (p <0,001); lesões não inflamatórias reduzidas em 31,1% (p=0,05); melhora significante e na AGI (p <0,001). Não foi relatado intervalo de confiança de 95%  Bem tolerado, sem efeitos adversos graves  O fitocomplexo melhorou tanto as lesões inflamatórias quanto as não inflamatórias, mas o pequeno tamanho do estudo aberto e a falta de IC limitam as conclusões; são necessários ECRs 
Kim et al., 201916  Terapia com bacteriófagos  Modelo murino pré‐clínico experimental  Nove camundongos HR‐1  Avaliar o efeito da terapia com bacteriófagos na inflamação induzida por C. acnes em modelo de acne em camundongos  Camundongos HR‐1 foram injetados intradermicamente com C. acnes (109 UFC/μL) e, no grupo de tratamento, receberam terapia com bacteriófagos  Redução do tamanho dos nódulos inflamatórios, diminuição da espessura da epiderme e dos microcomedões; tendência à redução de células T CD8+, neutrófilos, IL‐1β e MMP‐3 (sem significância estatística, sem IC 95% relatado)  Não foram observados efeitos adversos  Evidências pré‐clínicas iniciais sugerem que os fagos podem reduzir a inflamação induzida por C. acnes, mas as descobertas são limitadas pela falta de efeitos imuno‐histoquímicos significantes 
Lam et al., 202117  Terapia com bacteriófagos  Modelo murino pré‐clínico experimental  24 camundongos machos BALB/c com infecção por C. acnes multirresistente  Avaliar o efeito terapêutico de bacteriófago lítico recém‐isolado (TCUCAP1) contra C. acnes  Injeção intraperitoneal de C. acnes, seguida da aplicação do bacteriófago TCUCAP1 em creme de hidroxietilcelulose  Redução significante das lesões inflamatórias; redução de IL‐1β (p <0,05) e caspase‐3 (p <0,01). Não foi relatado IC 95%  Não foram relatados efeitos adversos graves  TCUCAP1 reduziu com eficácia a inflamação induzida por C. acnes multirresistente, sugerindo seu potencial como alternativa para acne resistente a antibióticos 
Golembo et al., 202218  Terapia com bacteriófagos  Ensaio clínico de fase 1, randomizado, duplo‐cego e controlado por veículo  75 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a segurança, tolerabilidade e capacidade de um gel tópico de bacteriófago (BX001) em reduzir a carga de C. acnes na pele facial  BX001 (três bacteriófagos específicos para C. acnes) formulado em gel de hidroxietilcelulose, aplicado uma vez ao dia durante quatro semanas  A administração de altas doses de BX001 reduziu significantemente a carga de C. acnes em comparação com o veículo (do dia 14 ao 35, p=0,036). Não foram relatados dados sobre contagem de lesões, AGI ou recidivas; nenhum IC 95% foi fornecido  Bem tolerado; sem eventos adversos graves; diversidade do microbioma preservada  O BX001 demonstrou efeito antibacteriano direcionado, mas sua eficácia clínica permanece não comprovada; são necessários ECRs com endpoints clínicos padronizados 
Eguren et al., 202419  Probióticos orais  Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo  82 pacientes com acne leve a moderada (40 com probiótico, 42 com placebo)  Avaliar a eficácia e a segurança de formulação probiótica oral na melhora da gravidade da acne  Cápsula diária com Lacticaseibacillus rhamnosus (CECT 30031)+Arthrospira platensis (BEA_IDA_0074B), 1×109 UFC/dia durante 12 semanas  O grupo que recebeu probióticos apresentou melhora maior na gravidade da acne em comparação com o grupo placebo, com redução significante nas lesões não inflamatórias  Bem tolerado, apenas com relatos de leve desconforto digestivo  O tratamento probiótico oral mostrou‐se seguro e eficaz, melhorando significantemente a gravidade da acne e reduzindo as lesões 
Rinaldi et al., 202220  Probióticos orais  Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo  114 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar a eficácia e a segurança de probiótico multicepas+extratos botânicos no tratamento da acne e no equilíbrio do microbioma  Suplemento dietético contendo probióticos (Bifidobacterium breve BR03, Lacticaseibacillus casei LC03, Ligilactobacillus salivarius LS03) e extratos botânicos (lupeol de Solanum melongena e extrato de Equinácea)  Redução das lesões inflamatórias, juntamente com melhora do eritema, descamação e secreção sebácea no grupo suplementado em comparação com o placebo. Os níveis de C. acnes e S. aureus diminuíram, enquanto os de S. epidermidis, uma bactéria benéfica, aumentaram na pele  Tratamento bem tolerado, sem relatos de eventos adversos graves  A combinação de probióticos e extratos botânicos reduziu a gravidade da acne e melhorou o microbioma da pele, reforçando seu potencial como terapia adjuvante para acne inflamatória 
Da Rocha et al., 202221  Probióticos orais  Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo  212 pacientes com acne leve a moderada (107 no grupo de tratamento e 105 no grupo placebo)  Avaliar a eficácia de um probiótico oral combinado com tratamento tópico em dose fixa (peróxido de benzoíla+adapaleno) versus o mesmo tratamento tópico com placebo  Probiótico oral (Lactobacillus acidophilus, Bifidobacterium lactis)+adapaleno tópico 0,1%+peróxido de benzoíla 2,5% durante 90 dias, seguido de 90 dias de probiótico ou placebo isoladamente  Maior proporção atingiu AGI 0‐1 no grupo probiótico em comparação com o tratamento tópico isolado (p <0,05). Houve melhora significante na gravidade global da acne. IC 95% não relatados  Bem tolerado, com eventos gastrintestinais leves no grupo probiótico  A combinação de probióticos orais com terapia tópica melhorou os resultados e deve ser considerada adjuvante no tratamento da acne 
Huang et al., 202422  Ácidos graxos ômega‐3  Ensaio clínico randomizado e controlado+estudo em modelo animal  40 pacientes com acne moderada a grave+20 indivíduos saudáveis como grupo de controle  Avaliar o papel dos ácidos graxos ômega‐3 no tratamento da acne e na modulação da microbiota intestinal  Isotretinoína isolada versus isotretinoína+ácidos graxos ômega‐3 (2.400 mg/dia) durante 12 semanas  Os escores GAGS melhoraram (15,1±4,5 vs. 18,7±4,9; DM=‐3,6; p=0,02). As lesões inflamatórias diminuíram em 31% e as não inflamatórias, em 23%. IC 95% não relatado  Bem tolerado; desconforto gastrintestinal leve em alguns pacientes  Os ácidos graxos ômega‐3 podem servir como adjuvante eficaz à isotretinoína, potencialmente modulando a microbiota intestinal e reduzindo a inflamação 
Jung et al., 201423  Ácidos graxos ômega‐3  Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego e controlado  45 pacientes com acne leve a moderada  Avaliar os efeitos da suplementação com ômega‐3 e GLA na quantidade e gravidade das lesões de acne  Suplementação diária com ácidos graxos ω‐3 (2.000 mg/dia de EPA+DHA) ou ácido γ‐linoleico (GLA, 400 mg/dia) versus grupo controle durante dez semanas  Grupo ω‐3: as lesões inflamatórias reduziram 43% (de 10,1±3,2 para 5,8±3,4), as lesões não inflamatórias reduziram 20% (de 23,5±9,2 para 18,9±8,3). A classificação de Cunliffe melhorou de 2,4 para 1,7. O grupo GLA apresentou melhoras semelhantes. IC 95% não relatado  Bem tolerado; algum desconforto gastrintestinal leve  A suplementação com ômega‐3 e GLA parece segura e eficaz como terapia adjuvante para acne leve a moderada, embora as evidências sejam limitadas a pequenos estudos de fase inicial 
Yang et al., 202124  ALA‐TFD  Estudo clínico prospectivo  15 pacientes com acne vulgar moderada a grave  Examinar os efeitos ALA‐TFD no microbioma da pele (impacto na C. acnes e na diversidade microbiana)  Foram realizadas quatro sessões de ALA‐TFD a 5%, com intervalos de duas semanas. Amostras do microbioma da pele foram coletadas antes do tratamento e antes da sessão final  Redução na abundância de C. acnes; aumento de Bacillus e Lactococcus; melhora na diversidade microbiana geral. Transição para perfil eubiótico. IC 95% não relatado  Bem tolerado, observou‐se apenas eritema leve  ALA‐TFD reduz as lesões de acne diminuindo a presença de C. acnes e aumentando a diversidade de bactérias benéficas, destacando seu papel na modulação do microbioma 
Guo et al., 202325  ALA‐TFD  Estudo observacional prospectivo  18 pacientes com acne grave+8 controles saudáveis  Avaliar os efeitos da ALA‐TFD na composição do microbioma  ALA‐TFD uma vez por semana, durante três semanas. O microbioma da pele foi analisado antes e depois do tratamento usando sequenciamento de RNA ribossômico 16S  Aumento da diversidade microbiana; restauração de Pseudomonas, Gordonia, Leptotrichia e Mycobacterium (gêneros frequentemente reduzidos na acne). Os níveis de C. acnes permaneceram inalterados. Não foi relatado IC 95%  Não foram relatados efeitos adversos graves  ALA‐TFD modula a composição da microbiota da pele em pacientes com acne grave, contribuindo potencialmente para seu efeito terapêutico 
Zhang et al., 202326  M‐TFD  ECR multicêntrico  152 pacientes com acne moderada a grave (77 M‐TFD vs. 75 ISO)  Comparar a eficácia e o tempo de ação da M‐TFD vs. ISO em baixa dose em pacientes com acne moderada a grave  Até cinco sessões semanais de M‐TFD após extração manual de comedões vs. isotretinoína em baixa dose (0,5 mg/kg/dia) durante seis meses  M‐TFD atingiu melhora clínica de 50% após uma semana, em comparação com oito semanas para a isotretinoína. Eficácia comparável em 2, 4 e 6 meses. Não foi relatado IC 95%  M‐TFD causou apenas irritação cutânea local, enquanto a ISO foi associada a efeitos colaterais sistêmicos em 70,6% dos pacientes  M‐TFD oferece início de ação mais rápido, menos efeitos adversos sistêmicos e eficácia comparável, tornando‐se alternativa promissora 
Kim et al., 202327  SJW‐TFD vs. IAA‐TFD  Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego, com aplicação em metade da face e controlado por veículo  31 pacientes com acne leve a moderada  Comparar a eficácia da SJW‐TFD vs. IAA‐TFD no tratamento da acne e avaliar seus efeitos de rejuvenescimento da pele  Design de face dividida: um lado tratado com SJW‐TFD e o outro com IAA‐TFD  SJW‐TFD reduziu as lesões de acne em 56,5% em 1 semana e 65,9% em 4 semanas; a produção de sebo diminuiu em 27,9%. IAA‐TFD também foi eficaz, porém com menor intensidade. Não foi relatado IC 95%  Não foram relatados efeitos adversos em nenhum dos grupos  Ambos os protocolos foram eficazes; SJW‐TFD proporcionou efeitos clínicos e sebossupressores mais fortes 
Zheng et al., 202428  Curcumina‐ TFD  Estudo experimental in vitro  Testado em culturas bacterianas e biofilmes de C. acnes  Avaliar o efeito da TFD baseada em curcumina em biofilmes de C. acnes  Vinte e cinco cepas clínicas de C. acnes foram testadas quanto à resistência a antibióticos e à capacidade de formação de biofilme. Os biofilmes foram tratados com curcumina‐TFD  Curcumina‐TFD reduziu significantemente a sobrevivência de C. acnes resistente a antibióticos. A estrutura do biofilme foi rompida, com aumento da permeabilidade e morte celular bacteriana. Não foi relatado IC 95%  Não avaliado in vivo  Ambos os protocolos foram eficazes; a SJW‐TFD proporcionou efeitos clínicos e sebossupressores mais fortes 

C. Acnes, Cutibacterium Acnes; ECR, ensaio clínico randomizado; PBVs, produtos bioterapêuticos vivos; S. Aureus, Staphylococcus aureus; S. epidermidis, Staphylococcus epidermidis; AGI, Avaliação Global do Investigador; TFD, Terapia Fotodinâmica; MDR, Multirresistente a Medicamentos; IAA, ácido indol‐3‐acético; ALA, ácido 5‐aminolevulínico; SJW, erva de são joão; ISO, isotretinoína; M‐TFD, terapia fotodinâmica com ácido 5‐aminolevulínico modificada com luz vermelha; GLA, ácido gama‐linolênico.

Patogênese da acne vulgar

A acne vulgar é condição inflamatória crônica da pele que afeta as unidades pilossebáceas, impulsionada por múltiplos fatores, como hiperseborreia, hiperqueratinização folicular, inflamação imunomediada localizada e disbiose do microbioma cutâneo, particularmente envolvendo Cutibacterium acnes4. O papel crítico da disbiose do microbioma cutâneo no início e na progressão da acne remodelou as estratégias terapêuticas. À medida que nossa compreensão da interação entre o microbioma cutâneo e a imunidade do hospedeiro se aprofunda, o foco está mudando dos tratamentos antibióticos tradicionais para terapias inovadoras direcionadas ao microbioma29.

Microbioma cutâneo e desenvolvimento da acne

O microbioma cutâneo é ecossistema dinâmico de microrganismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e seu ambiente circundante, que desempenha papel essencial na manutenção da saúde da pele29. Entre esses microrganismos, C. acnes, bactéria anaeróbica Gram‐positiva, predomina em áreas ricas em glândulas sebáceas30. Tipicamente um organismo comensal, C. acnes contribui para a homeostase da pele, reduzindo o pH por meio da liberação de ácidos graxos livres e inibindo o crescimento de patógenos como Staphylococcus aureus e Streptococcus spp31. No entanto, em condições de disbiose, C. acnes pode assumir papel patogênico, promovendo a inflamação da pele por meio da hidrólise do sebo mediada por lipase e da liberação de ácidos graxos livres4.

O filotipo IA1 de C. acnes foi identificado como particularmente virulento em virtude de sua capacidade de formar biofilmes e ativar vias inflamatórias por meio de respostas imunes mediadas por Th17, incluindo a interleucina‐17 (IL‐17), citocina chave na patogênese da acne30,32. Além disso, Staphylococcus spp. tem surgido como importante contribuinte para a patogênese da acne, atuando como patobionte ou modulador da doença33. A disbiose é ainda mais exacerbada pelo aumento da seborreia, perpetuando um ciclo de inflamação crônica e desregulação imunológica3.

Impacto dos tratamentos convencionais para acne no microbioma

Os tratamentos convencionais para acne, como retinoides tópicos, peróxido de benzoíla e antibióticos orais, têm C. acnes como alvo principal e modulam suas vias inflamatórias associadas. Entretanto, essas abordagens frequentemente perturbam o microbioma da pele, levando a desequilíbrios microbianos que favorecem patógenos oportunistas e comprometem a homeostase cutânea34,35. O uso excessivo de antibióticos tem sido associado a efeitos adversos, como o desenvolvimento de resistência e maior disrupção microbiana34. Esse crescente reconhecimento mudou as estratégias de tratamento, passando da mera erradicação de C. acnes para a restauração do equilíbrio e da diversidade do microbioma, destacando a necessidade de alternativas terapêuticas inovadoras4,30. Consequentemente, as terapias focadas no microbioma, resumidas na figura 1, surgiram como estratégias promissoras. Essas abordagens visam tratar a disbiose e modular o microbioma da pele sem as consequências negativas frequentemente associadas aos tratamentos tradicionais36. Elas enfatizam a restauração do equilíbrio microbiano e a redução da inflamação, representando mudança significante em direção ao tratamento sustentável e direcionado da acne.

Figura 1.

Diferentes tratamentos para acne direcionados ao microbioma.

Abordagens não farmacológicas direcionadas ao microbioma no tratamento da acneProbióticos tópicos

Probióticos e pós‐bióticos tópicos surgiram como alternativas promissoras aos antibióticos, modulando a microbiota da pele4. Até o momento, apenas um ensaio duplo‐cego controlado por placebo foi publicado. Neste estudo, Lebeer et al.6 avaliaram creme tópico contendo Lactobacillus rhamnosus GG, Lactiplantibacillus plantarum WCFS1 e Lacticaseibacillus pentosus KCA em 79 pacientes com acne leve a moderada. Os participantes aplicaram o creme duas vezes ao dia durante oito semanas. A intervenção reduziu significantemente a colonização por C. acnes e Staphylococcus spp., ao mesmo tempo que aumentou a abundância de Lactobacillus spp., por meio da diminuição da atividade da lipase e da produção de ácido lático. Clinicamente, a contagem de lesões inflamatórias diminuiu significantemente em comparação com o placebo nas semanas 4, 8 e 12, com uma diferença média (DM) de5,6 lesões (IC 95%8,2 a2,9; p <0,001), e a hidratação da pele também melhorou.

Sathikulpakdee et al. (2022) realizaram um ECR simples‐cego com 104 pacientes, comparando loção derivada de probióticos contendo sobrenadante livre de células de L. paracasei MSMC 39‐1 com 2,5% de peróxido de benzoíla. Após quatro semanas, ambos os grupos demonstraram reduções significantes intragrupo na contagem de lesões inflamatórias (–35,1% [IC 95%41,2 a28,9] com a loção probiótica vs.32,0% [IC 95%38,1 a25,9] com o peróxido de benzoíla; p >0,05). A loção probiótica também reduziu significantemente o índice de eritema em relação ao valor basal (p <0,05), com perfil de tolerabilidade favorável e menos eventos adversos em comparação com o peróxido de benzoíla7.

Em um estudo piloto aberto menor, Casari et al. testaram soro contendo L. paracasei LiveSkin88 em combinação com ácido hialurônico em 29 pacientes com acne leve a moderada, aplicado todas as noites durante 28 dias. No 14° dia, as pápulas e pústulas foram significantemente reduzidas (redução média de6,2 lesões; IC 95%8,1 a4,2; p <0,0001), com as melhoras mantidas até o 28° dia. O eritema também diminuiu (IC 95%2,3 a1,1; p <0,0001), a hidratação aumentou significantemente (variação média de+12,7 unidades arbitrárias; IC 95% 9,5 a 15,9; p <0,0001) e a área facial afetada foi reduzida em 14,5% (IC 95%21,4 a7,6; p <0,05). Não foram relatados efeitos adversos, e a satisfação dos pacientes foi alta8.

Em conjunto, esses estudos destacam os benefícios específicos de cepas de probióticos tópicos no tratamento da acne, que variam desde a redução de lesões inflamatórias até a melhora do eritema e da hidratação. No entanto, as evidências atuais ainda são preliminares. As limitações incluem o pequeno tamanho das amostras, os curtos períodos de seguimento, as formulações heterogêneas e o fato de que apenas um estudo até o momento foi duplo‐cego e controlado por placebo. A replicação em ECRs maiores e de alta qualidade, com desfechos clínicos padronizados, incluindo contagem de lesões, escores da Avaliação Global do Investigador (AGI) e taxas de recidiva ou recorrência, é essencial para estabelecer a eficácia, a segurança e a generalização dos probióticos tópicos no tratamento da acne.

Produtos bioterapêuticos vivos

A literatura emergente também destaca o potencial benefício dos produtos bioterapêuticos vivos (PBVs), uma nova classe de terapêuticas que incorpora bactérias vivas em formulações tópicas projetadas para modular a microbiota da pele e tratar a disbiose localizada37. Várias formulações de PBVs usando cepas de C. acnes foram investigadas.

Karoglan et al. (2019) conduziram um estudo piloto aberto com 14 pacientes com acne leve a moderada para avaliar se cepas não patogênicas de C. acnes poderiam modular o microbioma da pele. Os participantes receberam uma de duas formulações de hidrogel durante cinco semanas. A contagem de lesões não inflamatórias diminuiu significantemente em ambos os grupos: de 62 para 37 (redução média de 25 lesões; p=0,029) e de 54 para 35 (redução média de 19 lesões; p=0,036). A contagem de lesões inflamatórias não apresentou alterações significantes (p >0,26). A análise do microbioma revelou colonização pelas cepas aplicadas, sem relatos de irritação ou exacerbações, o que corrobora a segurança e a viabilidade dessa abordagem de modulação do microbioma9.

Knödlseder et al. (2024) desenvolveram uma cepa de C. acnes geneticamente modificada que expressa a lipocalina associada à gelatinase de neutrófilos (NGAL, do inglês neutrophil gelatinase‐associated lipocalin), proteína envolvida na regulação lipídica. Em culturas de sebócitos, a NGAL reduziu a produção de sebo em aproximadamente duas vezes em 48 horas, efeito comparável ao da isotretinoína 10μM (p <0,0001). A NGAL produzida por E. coli recombinante reduziu o sebo em 1,7 vezes, mas foi menos eficaz do que C. acnes geneticamente modificada. É importante ressaltar que não foram observadas citotoxicidade ou apoptose. Em modelos murinos, a cepa geneticamente modificada colonizou a pele e manteve a expressão de NGAL sem aumentar citocinas pró‐inflamatórias como IL‐1β, IL‐6 ou TNF‐α, ressaltando seu potencial como abordagem segura para a modulação direcionada do sebo10.

O estudo de fase IIb da AOBiome (NCT02832063) investigou a aplicação tópica de Nitrosomonas eutropha B244, bactéria oxidante de amônia, em 358 pacientes com acne leve a moderada. O estudo randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo testou o tratamento por 12 semanas. Comparado ao placebo, o tratamento com B244 apresentou probabilidade significantemente maior de alcançar redução ≥ 2 pontos no escore da AGI (odds ratio=2,45; IC 95% 1,08 a 5,56; p=0,03). Embora a contagem de lesões inflamatórias não tenha apresentado melhora significante na análise por intenção de tratar, a análise por protocolo mostrou redução média de12,3 lesões em comparação com o placebo (IC 95%23,3 a1,3; p=0,028). A formulação foi bem tolerada, sem relatos de eventos adversos emergentes do tratamento11.

Esses achados ressaltam o potencial dos PBVs para introduzir mudança de paradigma na terapia da acne, com foco na composição microbiana e nas interações hospedeiro‐microbiota. No entanto, as evidências atuais ainda são preliminares. Karoglan et al. forneceram apenas dados piloto abertos, sem grupo controle (n=14). Knödlseder et al. demonstraram efeitos promissores, mas apenas in vitro e em modelos murinos. O ensaio de fase IIb da AOBiome representa a evidência clínica mais robusta até o momento, embora seu desfecho primário não tenha sido alcançado na análise por intenção de tratar. Ensaios maiores, padronizados e controlados são necessários para confirmar a eficácia clínica, a durabilidade e a segurança dos PBVs no tratamento da acne.

Pós‐bióticos tópicos

Os pós‐bióticos, definidos como preparações de microrganismos inanimados e/ou seus componentes que proporcionam benefícios à saúde do hospedeiro, demonstraram múltiplos benefícios para o microbioma da pele, incluindo o fortalecimento da função de barreira cutânea e a promoção do crescimento de bactérias endógenas benéficas38. Para o tratamento da acne, vários pós‐bióticos têm demonstrado potencial na restauração do equilíbrio microbiano e na redução da gravidade da acne por meio de seus efeitos anti‐inflamatórios e antimicrobianos39.

Evidências emergentes destacam a eficácia de produtos derivados da fermentação, como o extrato de Enterococcus faecalis CBT SL‐5, como opção tópica segura e bem tolerada para reduzir a gravidade da acne e tratar a disbiose do microbioma da pele12. Han et al. (2022) conduziram estudo comparativo randomizado, controlado por placebo e com aplicação em metade da face em 20 pacientes com acne leve a moderada. Os participantes aplicaram loção contendo extrato de E. faecalis CBT SL‐5 duas vezes ao dia durante quatro semanas. O lado tratado apresentou escores de melhora global significantemente maiores do que o lado controle na semana 2 (DM=0,6; IC 95% 0,15 a 1,05), semana 4 (DM=0,65; IC 95% 0,21 a 1,09) e semana 6 (DM=1,10; IC 95% 0,64–1,56). Além disso, a densidade de C. acnes diminuiu significantemente no lado tratado, enquanto nenhuma alteração significante ocorreu no lado controle. Não foram relatados efeitos adversos relevantes12.

De modo semelhante, Ho et al. (2022) realizaram ECR avaliando formulação pós‐biótica cofermentada contendo as cepas probióticas TYCA06, AP‐32 e CP‐9 combinadas com colágeno em 20 pacientes com acne vulgar. Aplicada duas vezes ao dia durante quatro semanas, a formulação melhorou significantemente a hidratação da pele em comparação com os controles (DM+2,0%; IC 95% 0,1 a 3,9) e reduziu a intensidade do eritema (DM=2,3%; IC 95%4,0 a0,6). Também diminuiu o número de manchas escuras (DM=5,7%; IC 95%9,1 a2,3). A produção de sebo apresentou tendência não significante de redução (DM=4,6%; IC 95%9,8 a 0,6). Ensaios in vitro demonstraram ainda diminuição da expressão de linfopoietina estromal tímica (TSLP, do inglês thymic stromal lymphopoietin) e IL‐33 em culturas de queratinócitos, corroborando o efeito anti‐inflamatório. O tratamento foi bem tolerado, sem eventos adversos13.

Embora esses ensaios de fase inicial sugiram benefícios potenciais, as evidências clínicas que apoiam o uso de pós‐bióticos tópicos na acne ainda são exploratórias. Tanto Han et al. quanto Ho et al. utilizaram amostras pequenas e curtos períodos de seguimento, não padronizaram os endpoints da acne e avaliaram formulações heterogêneas. O delineamento de divisão da face usado por Han introduz viés do observador, enquanto Ho et al. avaliaram principalmente desfechos substitutos e cosméticos. Para estabelecer a aplicabilidade translacional de pós‐bióticos tópicos, estudos futuros devem empregar ECRs e controlados com poder estatístico adequado, com desfechos clínicos padronizados e informados pelo microbioma.

Fitocomplexos biotecnológicos

Estudos recentes avaliaram fitocomplexos biotecnológicos no tratamento da acne, destacando suas propriedades antibiofilme e moduladoras da microbiota. Essas formulações combinam metabolomas derivados de culturas de células‐tronco vegetais de Camellia sinensis e Morinda citrifolia. Camellia sinensis exibe efeitos anti‐inflamatórios, reduzindo os níveis de IL‐6, IL‐8, TNF‐α e CXCL, juntamente com propriedades antisseborreicas e antibiofilme. Enquanto isso, M. citrifolia inibe a formação de biofilme e bloqueia a comunicação bacteriana, contribuindo para o reequilíbrio da microbiota14,15.

Uma nova loção de fitocomplexo contendo Canonia allysis©, niacinamida 4,00% e ácido succínico 2,00% foi avaliada em dois ensaios abertos em pacientes com acne leve a moderada na face e no tronco14,15. Guerra‐Tapia et al. (2024) conduziram estudo prospectivo aberto em 43 indivíduos com acne leve a moderada no tronco, tratados por oito semanas consecutivas (56 dias). A aplicação desse fitocomplexo reduziu as lesões inflamatórias em 52,1% (p=0,006) e a gravidade da acne em 27,6% na escala AGI, com 60,5% dos pacientes atingindo melhora de ≥ 1 ponto (p <0,001). Os autores não forneceram IC de 95% para esses efeitos. A análise do microbioma mostrou diminuição significante na abundância relativa de C. acnes (66,4% para 58,1%, p=0,009), indicando reequilíbrio microbiano parcial. O eritema diminuiu em 18,3% (p=0,007) e a descamação em 63,8% (p=0,02). Não foram relatados eventos adversos graves, o que indica tolerabilidade favorável14.

De maneira semelhante, De Lucas et al. (2024) conduziram estudo aberto com 44 pacientes com acne facial leve a moderada, tratados durante oito semanas. As lesões inflamatórias diminuíram 47,3% (p <0,001), enquanto as lesões não inflamatórias diminuíram 31,1%, com significância limítrofe (p=0,05). Os escores AGI também melhoraram significantemente no 56° dia (p <0,001). Não ocorreram eventos adversos graves15.

Apesar desses resultados encorajadores, as evidências clínicas que apoiam os fitocomplexos biotecnológicos ainda são preliminares. Ambos os estudos foram abertos, não randomizados, com tamanhos amostrais modestos (n=43 e n=44), não incluíram grupos de controle e não relataram intervalos de confiança de 95%, o que limita a interpretação dos tamanhos do efeito. Além disso, ambos avaliaram a mesma formulação proprietária e foram patrocinados pela indústria, o que levanta preocupações quanto a potenciais conflitos de interesse e viés de publicação. Embora os resultados relatados incluam reduções estatisticamente significantes na gravidade da acne e no desequilíbrio microbiano, a falta de ECRs e controlados independentes, com poder estatístico adequado e com endpoints clínicos padronizados e baseados no microbioma, limita a validade externa e ressalta a necessidade de mais pesquisas para estabelecer seu papel terapêutico no tratamento da acne.

Bacteriófagos

Controlar a resposta inflamatória é objetivo primordial no tratamento da acne, especialmente pelo aumento da resistência antimicrobiana. A terapia com bacteriófagos surgiu como alternativa potencial em virtude de sua capacidade de atingir especificamente C. acnes, preservando os microrganismos benéficos. Essa estratégia pode ajudar a restaurar o equilíbrio microbiano e manter a homeostase da microbiota da pele40,41.

Estudos pré‐clínicos fornecem as evidências iniciais para essa abordagem. Kim et al. testaram fagos específicos para C. acnes em modelo murino de acne, mostrando redução no tamanho do nódulo inflamatório em comparação com os controles. As análises histológicas revelaram diminuição da espessura epidérmica e menos cistos semelhantes a microcomedões, enquanto os resultados imuno‐histoquímicos sugeriram redução da infiltração de células T CD8+e neutrófilos, bem como menor expressão de IL‐1β e MMP‐3. No entanto, a maioria dessas alterações não foi estatisticamente significante e nenhum intervalo de confiança de 95% foi relatado, limitando a interpretação dos tamanhos do efeito16. Da mesma maneira, Lam et al.17 avaliaram o fago terapêutico TCUCAP1 em camundongos, observando reduções significantes no tamanho do nódulo e na hiperplasia epidérmica, juntamente com diminuição de IL‐1β (p <0,05) e caspase‐3 (p <0,01). Novamente, apenas os valores de p foram relatados sem intervalos de confiança.

A única evidência em humanos até o momento vem de Golembo et al. (2022), em ECR, duplo‐cego e controlado por veículo de fase 1, que testou gel tópico contendo o coquetel de bacteriófagos BX001 em pacientes com acne leve a moderada. A formulação de alta dose reduziu significantemente a carga de C. acnes em comparação com o nível basal e o veículo (p=0,036), com efeitos observados do dia 14 ao dia 35. A formulação de baixa dose não apresentou efeitos significantes. É importante ressaltar que o estudo não relatou contagens de lesões, escores da AGI ou resultados de recidiva, e nenhum intervalo de confiança de 95% foi fornecido. O BX001 foi bem tolerado, sem eventos adversos graves, e não alterou a diversidade geral do microbioma18.

A terapia com bacteriófagos para acne permanece em fase inicial, com resultados pré‐clínicos e de fase 1 encorajadores, mas limitados. As evidências atuais se restringem a resultados microbiológicos e histológicos, sem endpoints clínicos robustos. Para estabelecer seu potencial terapêutico, durabilidade do efeito e relevância para o tratamento da acne, são necessários ECRs e controlados conduzidos independentemente, com desfechos clínicos padronizados e informados pelo microbioma, incluindo contagens de lesões, escores AGI e taxas de recidiva ou recorrência.

Vacinas

As vacinas representam outra estratégia inovadora direcionada à patogênese da acne. Ao se concentrarem em fatores de virulência, como o fator CAMP e a sialidase, essas abordagens visam neutralizar a patogenicidade de C. acnes e reduzir a resposta inflamatória, preservando a microbiota comensal e minimizando os efeitos colaterais41–43. A Sanofi está atualmente conduzindo um ECR, duplo‐cego e controlado por placebo de fase I/II (NCT06316297) avaliando a segurança, a imunogenicidade e a eficácia de vacina de mRNA contra acne direcionada aos fatores de virulência de C. acnes. Esse ensaio em andamento inclui participantes saudáveis com idades entre 18 e 45 anos com acne moderada a grave e está avaliando diferentes níveis de dose administrados por via intramuscular44.

Além disso, um ensaio de fase I concluído (NCT05131373) investigou a segurança, a tolerabilidade e a imunogenicidade da ORI‐A‐ce001, vacina contra acne para o tratamento da acne vulgar facial moderada em adultos. Esse ensaio multicêntrico, randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo avaliou vários níveis de dose em adultos com 18 anos ou mais. Além de avaliar a segurança e as respostas imunológicas, o estudo coletou dados preliminares sobre a eficácia da vacina, incluindo seu impacto em lesões inflamatórias e não inflamatórias, gravidade da acne e composição do microbioma da pele45. Esses achados fornecem informações valiosas sobre o papel potencial das vacinas como nova abordagem terapêutica para o tratamento da acne.

Apesar de seu apelo conceitual, as vacinas contra acne permanecem nos estágios iniciais de desenvolvimento clínico. Ambos os ensaios mencionados são estudos de fase I focados principalmente na segurança e imunogenicidade, sem resultados de eficácia revisados por pares disponíveis até o momento. Ensaios clínicos maiores e bem planejados são necessários para demonstrar melhoras significantes na gravidade da acne, caracterizar a durabilidade imunológica e avaliar a aplicabilidade no mundo real.

Intervenções no eixo intestino‐pele

O eixo intestino‐pele destaca a relação bidirecional entre o sistema gastrintestinal e a saúde da pele, mediada pela regulação imunológica, pela microbiota e pelas vias neuroendócrinas. A microbiota intestinal desempenha papel fundamental no desenvolvimento da acne e na saúde geral da pele, modulando as respostas imunes e a inflamação sistêmica. Distúrbios como a disbiose ou a função de barreira intestinal comprometida podem exacerbar condições de pele, incluindo a acne. Embora a contribuição da microbiota intestinal para a patogênese da acne ainda seja pouco explorada, o direcionamento da saúde intestinal por meio de abordagens integrativas apresenta potencial promissor para melhorar os resultados na pele46.

  • a)

    Probióticos orais:

Eguren et al. (2024) conduziram ECR, duplo‐cego e controlado por placebo, com duração de 12 semanas, avaliando suplemento probiótico oral contendo Lacticaseibacillus rhamnosus (CECT 30031) e Arthrospira platensis (BEA_IDA_0074B) a 1×109 UFC por dose diária em indivíduos com acne vulgar leve a moderada. As lesões não inflamatórias diminuíram significantemente em comparação com o grupo placebo (DM de5,6 lesões; IC 95%10,5 a0,7). Em termos de gravidade da acne, 50% dos pacientes tratados com probióticos apresentaram melhora de pelo menos uma categoria na Acne Global Severity Scale (AGSS) em comparação com 29,4% no grupo placebo (diferença absoluta de 20,6%; IC 95% 2,0 a 39,2), e 42,5% alcançaram redução ≥ 30% nos escores do Global Acne Grading System (GAGS), em comparação com 20,6% (diferença absoluta de 21,9%; IC 95% 3,4 a 40,3). A contagem de lesões inflamatórias e totais não apresentou diferenças significantes. O tratamento foi bem tolerado, com apenas eventos digestivos leves relatados19.

Rinaldi et al. (2022) conduziram ensaio randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo com duração de oito semanas, avaliando suplemento dietético contendo Bifidobacterium breve BR03 (DSM 16604), Lacticaseibacillus casei LC03 e Ligilactobacillus salivarius LS03 combinados com extratos botânicos (lupeol e equinácea) em pacientes com acne leve a moderada. A intervenção reduziu significantemente as lesões inflamatórias (–56,7% vs.18,9% no placebo; p <0,05), diminuiu a secreção de sebo e a descamação e modulou favoravelmente a microbiota da pele, reduzindo C. acnes e S. aureus e aumentando S. epidermidis. No entanto, os intervalos de confiança de 95% não foram relatados, limitando a interpretação da magnitude desses efeitos20.

Da Rocha et al. (2022) conduziram ECR, duplo‐cego e controlado por placebo, com duração de 180 dias, em 212 pacientes com acne leve a moderada, avaliando suplemento probiótico oral (Lactobacillus acidophilus e B. lactis) combinado com regime tópico de dose fixa de adapaleno 0,1% e peróxido de benzoíla 2,5%. A abordagem combinada melhorou significantemente os resultados, com proporção maior de pacientes atingindo escore AGI de 0 ou 1 em comparação com a terapia tópica isolada (p <0,05). O regime probiótico foi bem tolerado, mas, assim como no ensaio de Rinaldi, não foram fornecidos intervalos de confiança de 95%21.

Embora a avaliação clínica de probióticos orais na acne tenha progredido, a variabilidade substancial na composição das cepas, nas medidas de desfecho e na duração do tratamento limita a validade externa e a reprodutibilidade. Os endpoints mecanísticos e os resultados informados pelo microbioma foram avaliados de maneira inconsistente entre os estudos. Apesar dessas limitações, o perfil de segurança consistente e os delineamentos randomizados e controlados por placebo ressaltam seu potencial. Protocolos padronizados que incorporem endpoints clínicos e do microbioma, com relatos claros dos tamanhos do efeito e intervalos de confiança de 95%, são necessários para definir o papel terapêutico dos probióticos orais no tratamento da acne.

  • b)

    Ácidos graxos ômega‐3:

Acredita‐se que os ácidos graxos ω‐3 e ω‐6 tenham potencial utilidade na acne por meio de efeitos anti‐inflamatórios47. Huang et al. (2024) conduziram ensaio randomizado de 12 semanas em 40 pacientes com acne moderada a grave tratados com isotretinoína com ou sem ácidos graxos ω‐3 (2.400mg/dia). O grupo de combinação alcançou maiores reduções nos escores do GAGS (média de 15,1±4,5) em comparação com a isotretinoína isoladamente (18,7±4,9), com DM de3,6 pontos (p=0,02). A contagem de lesões inflamatórias e não inflamatórias diminuiu em 31% e 23%, respectivamente, embora os intervalos de confiança não tenham sido relatados22. Esses achados estão de acordo com os resultados relatados anteriormente por Jung et al. (2014), que avaliaram 45 pacientes randomizados para ácidos graxos ω‐3 (2.000mg/dia de EPA+DHA), ácido γ‐linoleico (GLA, 400mg/dia) ou controle por dez semanas. O grupo ω‐3 apresentou redução de 43% nas lesões inflamatórias (de 10,1±3,2 para 5,8±3,4) e redução de 20% nas lesões não inflamatórias (de 23,5±9,2 para 18,9±8,3), ambas com p <0,05. Melhoras semelhantes foram observadas no grupo GLA, enquanto nenhuma alteração significante ocorreu no grupo controle. A gravidade da acne (escala de Cunliffe) melhorou de 2,4 para 1,7 no grupo ω‐3 e de 2,3 para 1,8 no grupo GLA (p <0,05)23.

Em conjunto, esses achados sugerem que a suplementação com ácidos graxos pode reduzir a quantidade e a gravidade das lesões de acne; entretanto, a ausência de intervalos de confiança relatados, o tamanho reduzido das amostras e a curta duração do tratamento limitam a interpretação dos tamanhos do efeito e a generalização dos resultados. No estudo de Huang et al., o uso concomitante de isotretinoína impede a atribuição definitiva dos efeitos aos ácidos graxos ômega‐3, e a modulação do microbioma foi inferida em vez de avaliada diretamente. Da mesma maneira, Jung et al. não apresentaram relatos detalhados sobre os procedimentos de cegamento e não avaliaram os endpoints relacionados à microbiota intestinal. Em geral, embora o papel anti‐inflamatório dos ácidos graxos na fisiopatologia da acne permaneça biologicamente plausível, são necessários ensaios clínicos maiores, replicados independentemente, com endpoints padronizados e apresentação de intervalos de confiança de 95% para confirmar sua eficácia clínica e esclarecer os mecanismos subjacentes.

Terapia fotodinâmica

A terapia fotodinâmica (TFD) é modalidade não invasiva e direcionada para o tratamento da acne inflamatória. Envolve a aplicação tópica de um fotossensibilizador, mais comumente o ácido aminolevulínico (ALA), seguida de irradiação com fonte de luz específica48. O comprimento de onda mais frequentemente utilizado é a luz vermelha (630nm), que penetra mais profundamente na pele e ativa a protoporfirina IX (PpIX), o metabólito do ALA. Após a ativação, a PpIX gera espécies reativas de oxigênio (EROs), induzindo citotoxicidade seletiva nas glândulas sebáceas e reduzindo a produção de sebo49. Além da supressão da produção de sebo, a ALA‐TFD demonstrou efeitos anti‐inflamatórios e moduladores do microbioma, incluindo a ruptura de biofilmes de Cutibacterium acnes e a restauração da diversidade microbiana50,51. Também foi demonstrado que TFD regula negativamente os receptores Toll‐like (TLR‐2 e TLR‐4) e diminui a produção de citocinas pró‐inflamatórias nas glândulas sebáceas e na epiderme52.

  • a)

    ALA‐TFD e modulação do microbioma:

Yang et al. (2021) conduziram um estudo prospectivo avaliando as alterações do microbioma em pacientes com acne antes e depois da ALA‐TFD. O tratamento reduziu a abundância de C. acnes (p=0,037), aumentou Bacillus (p=0,012) e Lactococcus (p=0,022) e melhorou a diversidade microbiana geral (p=0,003), sugerindo mudança para ambiente eubiótico semelhante à pele saudável24.

Guo et al. (2023) investigaram TFD com ALA combinada com LED de 630nm em pacientes com acne grave. A intervenção aumentou a abundância relativa de gêneros como Pseudomonas, Gordonia, Leptotrichia e Mycobacterium – micróbios frequentemente reduzidos na acne – e melhorou a diversidade microbiana sem alterar significantemente os níveis de C. acnes. Essas descobertas sugerem que os efeitos de TFD vão além da supressão bacteriana, incluindo a restauração do microbioma25. Ambos os estudos não forneceram intervalos de confiança de 95%, limitando a interpretação dos tamanhos do efeito.

  • b)

    Protocolos de TFD modificados em comparação com a terapia padrão:

Zhang et al. (2023) realizaram ensaio multicêntrico randomizado comparando a terapia fotodinâmica com ácido aminolevulínico modificado (ALA‐TFD‐M) com isotretinoína em baixa dose em pacientes com acne moderada a grave. A TFD‐M alcançou 50% de melhora clínica após apenas uma semana, em comparação com oito semanas para a isotretinoína (p <0,001). Os efeitos adversos foram limitados à irritação cutânea local no grupo TFD‐M, enquanto 70,6% dos pacientes que receberam isotretinoína apresentaram efeitos colaterais sistêmicos. Os intervalos de confiança não foram relatados26.

  • c)

    Novos fotossensibilizadores:

Estudos recentes têm explorado fotossensibilizadores naturais como alternativas ao ALA para o tratamento da acne. Kim et al. (2023) conduziram ensaio randomizado com aplicação em metade da face comparando a terapia fotodinâmica com erva‐de‐são‐joão (SJW‐TFD) com a terapia fotodinâmica com ácido indol‐3‐acético (IAA‐TFD). A SJW‐TFD reduziu as lesões de acne em 56,5% em uma semana e 65,9% em quatro semanas (ambos p <0,001), com a produção de sebo diminuindo em 27,9% (p=0,012) e nenhum evento adverso relatado; no entanto, os intervalos de confiança não foram fornecidos27. Zheng et al. (2024) avaliaram a TFD baseada em curcumina in vitro contra biofilmes de C. acnes. O tratamento demonstrou supressão dose‐dependente da viabilidade bacteriana e potente atividade antibiofilme, destacando o potencial da curcumina como fotossensibilizador natural para acne vulgar, particularmente em casos envolvendo resistência a antibióticos28.

Embora a TFD mostre efeitos antimicrobianos, anti‐inflamatórios e moduladores do microbioma promissores na acne, os estudos disponíveis são limitados por tamanhos de amostra pequenos, heterogeneidade em fotossensibilizadores, protocolos e endpoints, e pela ausência de intervalos de confiança relatados. Embora os resultados iniciais sugiram eficácia e segurança, são necessários ECR e controlados multicêntricos robustos, com desfechos clínicos padronizados e baseados no microbioma, incluindo contagem de lesões, AGI e taxas de recidiva, para estabelecer o papel terapêutico da TFD no tratamento da acne.

Conclusão

O tratamento da acne está passando por avanços significantes com o surgimento de terapias inovadoras que visam a modulação do microbioma por meio de abordagens não farmacológicas. Essa estratégia oferece via promissora para restaurar a homeostase microbiana, mitigar a inflamação e reduzir a dependência em agentes farmacológicos convencionais. A transição de tratamentos tradicionais para intervenções focadas no microbioma reflete mudança de paradigma no tratamento da acne. Esses desenvolvimentos destacam a crescente relevância de terapias personalizadas e direcionadas por mecanismos, projetadas para aumentar a eficácia e melhorar os resultados para os pacientes.

Embora os dados preliminares sejam promissores, a base de evidências permanece limitada por amostras pequenas, fragilidades metodológicas e dependência de modelos pré‐clínicos. ECRs e controlados, multicêntricos e bem delineados, com endpoints clínicos padronizados e baseados no microbioma, são necessários para estabelecer o valor terapêutico, a segurança em longo prazo e a relevância translacional dessas intervenções. Avançar nessa próxima fase de pesquisa é essencial para que as terapias moduladoras do microbioma deixem de ser inovações experimentais e se tornem opções padrão no tratamento da acne.

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Valentina Burckhardt‐Bravo: Concepção e planejamento do estudo; obtenção dos dados, ou análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.

Rodrigo Funes‐Ferrada: Elaboração e redação do manuscrito ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.

Fernando Valenzuela: Concepção e planejamento do estudo; obtenção dos dados, ou análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito ou revisão crítica de conteúdo intelectual relevante; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.

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Sílvio Alencar Marques

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Como citar este artigo: Burckhardt‐Bravo V, Funes‐Ferrada R, Valenzuela F. Update on novel acne treatments: a narrative review focused on microbiome modulation and non‐pharmacological approaches. An Bras Dermatol. 2026;101:501249.

Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia, Faculdade de Medicina, Universidad de Los Andes, Santiago, Las Condes, Chile.

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