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Carcinoma basocelular na pele negra: características clínicas e dermatoscópicas

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Priscila Jordana Costa Valadaresa,
Autor para correspondência
priscilacvaladares@gmail.com

Autor para correspondência.
, Maria Luisa Pires de Freitasa, Diego Guimarães Florêncio Pujonib, Flávia Vasques Bittencourtc
a Serviço de Dermatologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
b Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
c Departamento de Dermatologia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
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Tabelas (2)
Tabela 1. Aspectos clínicos dos carcinomas basocelulares
Tabelas
Tabela 2. Características dermatoscópicas dos carcinomas basocelulares
Tabelas
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Prezado Editor,

O carcinoma basocelular (CBC) é o câncer de pele mais comum em todo o mundo; no entanto, suas características clínicas e dermatoscópicas em fototipos mais escuros permanecem pouco exploradas. Pesquisas baseadas predominantemente em tons de pele mais claros podem dificultar o reconhecimento do CBC em indivíduos com skin of color, nos quais a pigmentação frequentemente mascara características diagnósticas clássicas, como a translucidez e as telangiectasias.1 Nesses pacientes, a dermatoscopia torna‐se ferramenta diagnóstica essencial, visto que estudos demonstraram que o CBC em skin of color frequentemente se apresenta como lesões pigmentadas que podem mimetizar outras condições benignas ou malignas.2,3 Além disso, a sub‐representação de fototipos mais escuros em estudos clínicos sobre CBC – menos da metade deles relata a cor da pele ou o fototipo dos participantes – limita a aplicabilidade dos critérios diagnósticos existentes.4

Este estudo teve como objetivo caracterizar os aspectos epidemiológicos, clínicos, dermatoscópicos e histopatológicos de CBCs em pacientes brasileiros com fototipos cutâneos IV e V de Fitzpatrick.

Foi realizada análise retrospectiva de 76 casos de CBC confirmados histopatologicamente, provenientes de 63 pacientes. As imagens foram obtidas utilizando dermatoscópios Canon Power Shot, Nikon 1, DermLite DL‐3/DL4 ou Fotofinder. Três dermatologistas avaliaram as imagens em conjunto e chegaram a um consenso sobre as características de cada lesão.

Entre os 63 pacientes, 30 eram do sexo feminino e 33 do masculino, com idade média de 70 anos (variação de 49 a 84 anos). As características clínicas dos tumores estão resumidas na tabela 1.

Tabela 1.

Aspectos clínicos dos carcinomas basocelulares

LocalizaçãoTamanhoPigmentação macroscópica
Total  76 (100%)  Total  76 (100%)  Total (da área da superfície)  76 (100%) 
Cabeça/pescoço  60 (79%)  > 10 mm  33 (43%)  Muito pigmentado (> 70%)  39 (51%) 
Tronco  11 (14%)  10‐5 m  23 (30%)  Pigmentado (30%‐70%)  11 (14%) 
Membros superiores  3 (4%)  <5 mm  20 (26%)  Levemente pigmentado (< 30%)  22 (29%) 
Membros inferiores  2 (3%)      Não pigmentado  4 (5%) 

Histopatologicamente, 37 (49%) dos CBCs foram classificados como nodulares, 19 (25%) como superficiais, dois (3%) como infiltrativos e 15 (20%) apresentaram histologia mista. O subtipo não pôde ser determinado em três (4%) casos.

Quanto à proporção da área tumoral que apresentava pigmentação à dermatoscopia, 34 (45%) lesões eram altamente pigmentadas (> 70% da área de superfície), 17 (22%) eram moderadamente pigmentadas (30% a 70% da área de superfície), 24 (31%) eram levemente pigmentadas (< 30% da área de superfície) e apenas uma (1%) não apresentava pigmentação. A tabela 2 resume a frequência das outras características dermatoscópicas em todos os tumores e compara sua distribuição entre os subtipos nodular e superficial.

Tabela 2.

Características dermatoscópicas dos carcinomas basocelulares

Tipo  Carcinoma basocelular  Carcinoma basocelular nodular  Carcinoma basocelular superficial 
Número de lesões  76 (100%)  37 (100%)  19 (100%) 
Pigmentação  75 (99%)  36 (97%)  19 (100%) 
Áreas semelhantes a folhas  44 (58%)  18 (49%)  17 (89%) 
Grandes ninhos ovoides azul‐acinzentados  23 (30%)  14 (38%)  0 (0%) 
Múltiplos glóbulos azul‐acinzentados  31 (41%)  11 (30%)  8 (42%) 
Vários pontos azul‐acinzentados em foco  16 (21%)  6 (16%)  3 (16%) 
Áreas em roda de carroça  9 (12%)  2 (5%)  5 (26%) 
Estruturas concêntricas  4 (5%)  2 (5%)  2 (11%) 
Áreas brancas/vermelhas sem estrutura  19 (25%)  3 (8%)  12 (63%) 
Ulceração  34 (45%)  14 (38%)  6 (32%) 
Múltiplas pequenas erosões  12 (16%)  2 (5%)  6 (32%) 
Vasos arboriformes  24 (32%)  16 (43%)  0 (0%) 
Telangiectasias curtas e finas  5 (7%)  2 (5%)  3 (16%) 
Outros vasos  9 (12%)  4 (11%)  1 (5%) 

Em comparação com relatos anteriores, a proporção de CBCs pigmentados nesta série foi acentuadamente maior, o que é consistente com achados em populações não caucasianas.5,6 Lesões altamente pigmentadas (> 70% da superfície pigmentada) representaram 45% dos casos, enquanto, entre os CBCs pigmentados em tons de pele mais claros, apenas 7% a 13% são altamente pigmentados.7 Esse contraste reforça a pigmentação como característica diagnóstica fundamental do CBC em fototipos mais escuros.

Áreas semelhantes a folhas foram a estrutura dermatoscópica mais frequente, observadas em 58% das lesões – frequência superior à descrita na maioria dos estudos anteriores, com achado comparável apenas em uma população indiana de fototipo semelhante.8,9 Esse achado sugere que áreas em formato de folha podem servir como importante pista diagnóstica para o CBC em peles mais escuras. A predominância de pigmentação pode mascarar características dermatoscópicas clássicas, como vasos arboriformes e telangiectasias curtas e finas, que foram detectadas com menor frequência neste estudo.

Os dados sobre estruturas pigmentadas também foram comparados com a revisão sistemática publicada em 2021 por Reiter et al., que quantificou a prevalência de estruturas dermatoscópicas presentes em CBCs.10 Apenas as áreas em formato de folha apresentaram prevalência significantemente maior no presente estudo em comparação com a revisão sistemática (p <0,05; fig. 1). Esse resultado pode parecer inesperado, dado o grau muito mais elevado de pigmentação observado na presente coorte. No entanto, essa aparente discrepância pode ser explicada pela presença de pigmentação difusa à dermatoscopia em 19 dos 76 tumores (25%), o que dificulta – ou até mesmo impossibilita – a identificação de estruturas pigmentadas específicas (fig. 2). Tal padrão de pigmentação densa representa desafio diagnóstico, uma vez que essas lesões podem mimetizar nevo azul, melanoma ou tumores vasculares. A pigmentação densa, frequentemente desprovida de arquitetura dermatoscópica reconhecível, também prejudica a visualização de estruturas não pigmentadas.

Figura 1.

Prevalência de estruturas dermatoscópicas pigmentadas no carcinoma basocelular: comparação com uma revisão sistemática.10

Figura 2.

Carcinomas basocelulares difusamente pigmentados – lesões com pigmentação extensa que mascara as características dermatoscópicas clássicas.

Foram identificadas diferenças entre as estruturas dermatoscópicas mais prevalentes nos CBCs nodulares e superficiais, corroborando estudos anteriores.10 Os CBCs nodulares apresentavam grandes ninhos ovoides azul‐acinzentados e telangiectasias arboriformes, enquanto os CBCs superficiais apresentavam com maior frequência múltiplas erosões pequenas, estruturas em formato de folha, estruturas em roda de carroça e fundo branco/avermelhado sem estruturas definidas. Esses achados são consistentes com os descritos por Reiter et al.,10 confirmando a capacidade da dermatoscopia de prever o subtipo de CBC mesmo em peles mais escuras.

As limitações do estudo incluem seu desenho retrospectivo, o potencial viés de seleção decorrente da inclusão de lesões clinicamente suspeitas e a subjetividade tanto na classificação do fototipo quanto na interpretação dermatoscópica. Para minimizar esses vieses, três dermatologistas avaliaram conjuntamente todas as imagens e chegaram a um consenso.

Em conclusão, a maioria dos CBCs em fototipos IV e V é pigmentada, frequentemente de maneira difusa, o que pode mascarar características diagnósticas clássicas. As áreas em formato de folha representam a estrutura dermatoscópica mais frequente, ao passo que os padrões vasculares são menos visíveis. O reconhecimento dessas características distintas é essencial para melhorar a precisão diagnóstica em skin of color. Expandir a pesquisa para incluir populações mais diversas ajudará a refinar os critérios dermatoscópicos e a promover maior equidade no atendimento dermatológico.

ORCID ID

Maria Luisa Pires de Freitas: 0000‐0001‐7164‐1962

Diego Guimarães Florêncio Pujoni: 0000‐0002‐3962‐7359

Flávia Vasques Bittencourt: 0000‐0003‐0087‐6806

Declaração de ética

Universidade Federal de Minas Gerais Universidade Federal de Minas Gerais, aprovação do CEP n° 5137559.

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Priscila Jordana Costa Valadares: Revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Maria Luisa Pires de Freitas: Obtenção, análise e interpretação dos dados.

Diego Guimarães Florêncio Pujoni: Análise estatística.

Flávia Vasques Bittencourt: Obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Nenhum.

Editor

Jane Tomimori

Referências
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Como citar este artigo: Valadares PJC, Freitas MLP, Pujoni DGF, Bittencourt FV. Basal cell carcinoma in dark skin: clinical and dermoscopy features. An Bras Dermatol. 2026;101. https://doi.org/10.1016/j.abd.2026.501433

Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

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