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Cartas ‐ Terapia
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Inibidores da JAK na vasculopatia livedoide associada à trombofilia, e refratária à anticoagulação: relato de caso e revisão da literatura

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Giulia Jardim Criadoa, Paulo Ricardo Criadoa,b,
Autor para correspondência
prcriado@uol.com.br

Autor para correspondência.
, Daniel Lorenzinic, Hélio Amante Miotd
a Faculdade de Ciências Médicas de Santos, Centro Universitário Lusíada, Santos, SP, Brasil
b Faculdade de Medicina, Centro Universitário do ABC, Santo André, SP, Brasil
c Serviço de Dermatologia, Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
d Departamento de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia, Faculdade de Medicina, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil
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Tabela 1. Casos de vasculopatia livedoide em adultos e crianças com relato de sucesso com inibidores da JAK orais
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Prezado Editor,

Vasculopatia livedoide (VL) é afecção trombo‐oclusiva pauci‐inflamatória rara, crônica e recorrente, caracterizada por úlceras dolorosas e alterações livedoides dos membros inferiores, frequentemente exacerbadas pela exposição ao calor.1

Não há ensaios controlados sobre terapêutica em casos refratários à anticoagulação, constituindo um desafio ao dermatologista. Neste relato, apresentamos paciente com VL e trombofilia cuja anticoagulação não controlou a doença; entretanto, a terapia com inibidores da Janus Quinase (iJAK) induziu sua remissão prolongada.

Paciente do sexo masculino, caucasiano, de 35 anos, apresentou máculas violáceas nos pés e tornozelos que evoluíram para úlceras reticuladas dolorosas com padrão sazonal de piora, nos últimos dois anos. Após identificação de mutação heterozigótica do fator V (Leiden), iniciaram‐se medidas antiestase e ácido acetilsalicílico (100mg/dia), que controlaram a doença por 11 meses, porém com recidiva no verão seguinte, com grave intensidade. O ácido acetilsalicílico foi então substituído por rivaroxabana (20mg/dia), mantendo controle clínico por dois anos, com nova recidiva.

Iniciou‐se abrocitinibe (200mg/dia), levando à remissão clínica completa em dois meses (fig. 1A). Abrocitinibe foi substituído por baricitinibe (4mg/dia) em virtude de mudança no plano de saúde, e a rivaroxabana foi suspensa, sem perda de eficácia, mantendo resposta completa no seguimento de 10 meses (fig. 1B).

Figura 1.

Vasculopatia livedoide. (A) Lesões ulceradas e purpúricas típicas nos tornozelos e pés, com resolução progressiva da VL após um mês de uso de abrocitinibe. (B) Seguimento após seis meses, com remissão completa sob uso de baricitinibe.

A tabela 1 reúne 16 casos de VL recuperados na revisão bibliográfica até junho de 2025 (PubME/Medline e LILACS), que foram tratados com iJAK, nos quais 13 não houve trombofilias detectadas, e em outros três isso não foi referido pelos autores.

Tabela 1.

Casos de vasculopatia livedoide em adultos e crianças com relato de sucesso com inibidores da JAK orais

Relato  Sexo  Idade  Tratamentos prévios  Inibidor da JAK  Remissão/seguimento 
1a  Feminino  48 anos  Colchicina, metotrexato, dapsona, corticosteroides, heparina, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, imunoglobulina intravenosa  Baricitinibe 4 mg/d  3 anos 
2a  Feminino  43 anos  Dapsona, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, imunoglobulina intravenosa  Upadacitinibe 15 mg/d  6 meses 
3b  Feminino  32 anos  Ácido acetilsalicílico, hidroxicloroquina, pentoxifilina, prednisona  Tofacitinibe 10 mg/d  12 meses 
4c  Feminino  14 anos  Rivaroxabana  Baricitinibe 4 mg/d  9 meses 
5d  Masculino  17 anos  Colchicina, talidomida, dipiridamol, rivaroxabana, metilprednisolona, ácido acetilsalicílico  Tofacitinibe 10 mg/d  13 meses 
6e  Feminino  14 anos  Anticoagulantes (?), fitoterápicos  Baricitinibe 4 mg/d  9 meses 
7f  Masculino  8 anos  Prednisona, fitoterápicos  Baricitinibe 2 mg/d  18 meses 
8f  Masculino  26 anos  Talidomida, cetirizina, prednisona  Baricitinibe 2 mg/d  4 meses 
9f  Feminino  26 anos  Prednisona, rivaroxabana, talidomida, ácido acetilsalicílico  Baricitinibe 2 mg/d  4 meses 
8g  Feminino  26 anos  Prednisona, talidomida, diosmina, ácido acetilsalicílico  Baricitinibe 4 mg/d  12 meses 
9h  Feminino  43 anos  Prednisona, metotrexato, warfarina  Tofacitinibe 10 mg/d  12 meses 
10i  Feminino  31 anos  Não referidos (múltiplos)  Abrocitinibe 100 mg/d  3 meses 
11j  Feminino  48 anos  Pentoxifilina, nifedipina, ácido acetilsalicílico, corticosteroides, etanercepte  Baricitinibe 4 mg/d  4 meses 
12j  Feminino  36 anos  Corticosteroides, talidomida, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, enoxaparina  Baricitinibe 2 mg/d  16 semanas 
13j  Masculino  17 anos  Corticosteroides, talidomida, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, enoxaparina  Baricitinibe 2 mg/d  10 semanas 
14j  Feminino  26 anos  Corticosteroides, talidomida  Baricitinibe 2 mg/d  14 semanas 
15j  Feminino  18 anos  Prednisona, fitoterápicos  Baricitinibe 2 mg/d  16 semanas 
16j  Feminino  12 anos  Prednisona, fitoterápicos  Baricitinibe 2 mg/d  16 semanas 

*As referências dos relatos citados na tabela constam como Material Suplementar.

A remissão de longo prazo da VL refratária à anticoagulação reforça o potencial dos iJAK na modulação das vias inflamatórias e imunológicas em condições trombo‐inflamatórias como a VL, que está tipicamente associada a estados de hipercoagulabilidade.1,2 Trombose e inflamação são respostas que se retroalimentam na VL. A figura 2 ilustra os mecanismos propostos de envolvimento da via JAK/STAT na patogênese da VL; no canto superior esquerdo, demonstra‐se o diagrama de Venn indicando a multicausalidade da VL. As setas pretas indicam eventos fisiopatogênicos da vasculopatia trombosante com isquemia e dano tecidual, que contribuem na ativação da imunidade inata e inflamação local leve, as quais podem ser intermediadas pelo sistema JAK/STAT; as setas verdes indicam alterações da imunidade inata desencadeadas pela isquemia, com a oxidação da lipoproteína(a) [Lp(a)], que se relacionam com a produção do interferon e ativação também do sistema JAK/STAT; as setas vermelhas indicam as consequências da ativação do sistema JAK/STAT, com aumento da P‐selectina, atuando na redução da fibrinólise, aumento da trombose, além de geração de mediadores inflamatórios, como óxido nítrico sintase induzível (iNOS) e ciclooxigenase‐2 (COX‐2), ocasionando o eritema perilesional e dor local.

Figura 2.

Mecanismos propostos do envolvimento da via JAK/STAT na patogênese da vasculopatia livedoide, na promoção de um ambiente protrombótico e antifibrinolítico no ambiente cutâneo. COX2, ciclo‐oxigenase 2; DAMPs, padrões moleculares associados a dano; HMGB1, proteína 1 de alta mobilidade do grupo B; iNOS, óxido nítrico sintase induzível; IL, interleucina; IL‐1β, interleucina 1 beta; JAK‐STAT, Janus Kinase‐transdutor de sinal e ativação da transcrição; PAI 1, inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1; MHC, complexo principal de histocompatibilidade; PAR2, receptor ativado por protease tipo 2; ROS, espécies reativas de oxigênio; tPA, ativador tecidual do plasminogênio; TNF‐α, fator de necrose tumoral alfa; TPO‐R, receptor da trombopoietina.

IL‐2 e seu receptor solúvel são elevados no soro de pacientes com VL. Observou‐se aumento na expressão tecidual da P‐selectina plaquetária, sugerindo ativação de plaquetas e linfócitos em pacientes com VL.3 Ademais, Lp(a) e os anticorpos antifosfolípides (aFL) desempenham papel central na patogênese da VL. A Lp(a) compartilha homologia estrutural com o plasminogênio, interrompendo a fibrinólise e promovendo a deposição de fibrina em vasos de pequeno calibre.4 Adicionalmente, os aFL ativam o endotélio e o sistema complemento, exacerbando a trombose microvascular.5

Lp(a) também induz expressão de ICAM‐1 no endotélio e reduz a disponibilidade de TGF‐β. Promove, ainda, adesão e migração transendotelial de monócitos por meio da estimulação da expressão da proteína quimioatraente de monócitos‐1 e da quimiocina I‐309. Esse processo facilita a diferenciação de macrófagos pró‐inflamatórios do tipo M1, levando à ativação de células‐T auxiliares e NK. Lp(a) também estimula a secreção local de IL‐1β, TNFα, IL‐8, IL‐6, VCAM‐1 e E‐selectina nas células endoteliais.6

Na síndrome antifosfolípide primária, os anticorpos aFL podem desencadear a liberação de interferons tipo I (α/β) por meio da via das células dendríticas plasmocitoides, via ativação do TLR7 e TLR9. Os interferons tipo I podem induzir disfunção endotelial e aumentar a expressão de moléculas pró‐trombóticas, promovendo a deposição de fibrina e C5b‐9, o que contribui para a trombose característica da doença.7,8 Adicionalmente, interferons tipo I ativam STAT1, STAT2 e STAT4 por meio da sinalização JAK1 e TYK2.9

Durante a trombose, a ativação de receptores de citocinas em plaquetas, como o receptor da trombopoietina (TPO‐R), aciona a via JAK‐STAT, intensificando a interação entre plaquetas e promovendo a formação de trombos. A trombina ativa o receptor 2 ativado por protease (PAR2) em células endoteliais, modulando a via JAK‐STAT responsável por estimular ou inibir a formação ou lise de trombos, respectivamente, via ativador tecidual do plasminogênio (tPA) e inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1 (PAI‐1). Além disso, IL‐4 e IL‐6 polarizam os macrófagos dérmicos para o fenótipo M1 por meio da via JAK‐STAT, prolongando o dano tecidual e comprometendo o fenótipo M2, necessário para a remodelação tecidual.10

Assim, citocinas pró‐inflamatórias envolvidas na VL, impulsionadas por aFL, expressão de Lp(a) e ativação da via JAK‐STAT, sugerem uma justificativa para o uso de iJAK nesse contexto clínico com base em: (i) JAK1‐2 são vias de sinalização intracelular de cIFNα, IFNβ, IFNγ, IL‐2 e IL‐6; (ii) iJAK reduzem a ativação endotelial e a liberação de mediadores pró‐inflamatórios; (iii) a inibição de IL‐6 reduz a expressão do fator tecidual e modula os níveis de PAI, ajudando a restaurar o equilíbrio entre coagulação e fibrinólise; (iv) iJAK reduzem eficazmente moléculas de adesão vascular como ICAM‐1 e suprimem a produção de citocinas, especialmente TNFα e IL‐1β induzidos por LDL oxidada.10 Uma recente revisão sistemática indicou iJAK como alternativa segura e eficaz no tratamento de VL refratárias.11

Por fim, este relato reitera evidências de iJAK como opção terapêutica promissora em VL, especialmente quando refratários à anticoagulação, mesmo na presença de trombofilia.

ORCID ID

Paulo Ricardo Criado: 0000‐0001‐9785‐6099, Daniel Lorenzini: 0000‐0002‐6850‐5799, Hélio Amante Miot: 0000‐0002‐2596‐9294

Suporte financeiro

CNPq (306358/2022‐0 e 305330/2022‐5) – Hélio Miot e Paulo Criado são pesquisadores bolsista do CNPq.

Contribuição dos autores

Giulia Jardim Criado: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Daniel Lorenzini: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Paulo Ricardo Criado: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Hélio Amante Miot: Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Não se aplica.

Conflito de interesses

Giulia Criado: Nenhum.

Dr. Paulo Criado: Advisory board – Pfizer, Galderma, Takeda, Hypera, Novartis, Sanofi; Clinical Research – Pfizer, Novartis, Sanofi, Amgen and Lilly; Speaker: Pfizer, Abbvie, Sanofi‐Genzyme, Hypera, Takeda, Novartis.

Dr. Daniel Lorenzini: Advisory board – Pfizer, Galderma; Clinical Research – Pfizer, Novartis, Sanofi, Amgen e Lilly; Speaker.

Dr. Hélio Miot: Advisory Board – Johnson & Johnson, L’Oréal, Theraskin, Sanofi e Pfizer; Clinical Research – Abbvie, Galderma, Pierre‐Fabre e Merz.

Editor

Sílvio Alencar Marques.

Referências
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Janus kinase inhibitors and biologics for treatment of livedoid vasculopathy: A systematic review.
J Dermatolog Treat., 36 (2025),

Como citar este artigo: Criado GJ, Criado PR, Lorenzini D, Miot HA. JAK inhibitors in livedoid vasculopathy associated with thrombophilia and refractory to anticoagulation: case report and literature review. An Bras Dermatol. 2026;101:501324.

Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil.

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