Vasculopatia livedoide (VL) é afecção trombo‐oclusiva pauci‐inflamatória rara, crônica e recorrente, caracterizada por úlceras dolorosas e alterações livedoides dos membros inferiores, frequentemente exacerbadas pela exposição ao calor.1
Não há ensaios controlados sobre terapêutica em casos refratários à anticoagulação, constituindo um desafio ao dermatologista. Neste relato, apresentamos paciente com VL e trombofilia cuja anticoagulação não controlou a doença; entretanto, a terapia com inibidores da Janus Quinase (iJAK) induziu sua remissão prolongada.
Paciente do sexo masculino, caucasiano, de 35 anos, apresentou máculas violáceas nos pés e tornozelos que evoluíram para úlceras reticuladas dolorosas com padrão sazonal de piora, nos últimos dois anos. Após identificação de mutação heterozigótica do fator V (Leiden), iniciaram‐se medidas antiestase e ácido acetilsalicílico (100mg/dia), que controlaram a doença por 11 meses, porém com recidiva no verão seguinte, com grave intensidade. O ácido acetilsalicílico foi então substituído por rivaroxabana (20mg/dia), mantendo controle clínico por dois anos, com nova recidiva.
Iniciou‐se abrocitinibe (200mg/dia), levando à remissão clínica completa em dois meses (fig. 1A). Abrocitinibe foi substituído por baricitinibe (4mg/dia) em virtude de mudança no plano de saúde, e a rivaroxabana foi suspensa, sem perda de eficácia, mantendo resposta completa no seguimento de 10 meses (fig. 1B).
A tabela 1 reúne 16 casos de VL recuperados na revisão bibliográfica até junho de 2025 (PubME/Medline e LILACS), que foram tratados com iJAK, nos quais 13 não houve trombofilias detectadas, e em outros três isso não foi referido pelos autores.
Casos de vasculopatia livedoide em adultos e crianças com relato de sucesso com inibidores da JAK orais
| Relato | Sexo | Idade | Tratamentos prévios | Inibidor da JAK | Remissão/seguimento |
|---|---|---|---|---|---|
| 1a | Feminino | 48 anos | Colchicina, metotrexato, dapsona, corticosteroides, heparina, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, imunoglobulina intravenosa | Baricitinibe 4 mg/d | 3 anos |
| 2a | Feminino | 43 anos | Dapsona, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, imunoglobulina intravenosa | Upadacitinibe 15 mg/d | 6 meses |
| 3b | Feminino | 32 anos | Ácido acetilsalicílico, hidroxicloroquina, pentoxifilina, prednisona | Tofacitinibe 10 mg/d | 12 meses |
| 4c | Feminino | 14 anos | Rivaroxabana | Baricitinibe 4 mg/d | 9 meses |
| 5d | Masculino | 17 anos | Colchicina, talidomida, dipiridamol, rivaroxabana, metilprednisolona, ácido acetilsalicílico | Tofacitinibe 10 mg/d | 13 meses |
| 6e | Feminino | 14 anos | Anticoagulantes (?), fitoterápicos | Baricitinibe 4 mg/d | 9 meses |
| 7f | Masculino | 8 anos | Prednisona, fitoterápicos | Baricitinibe 2 mg/d | 18 meses |
| 8f | Masculino | 26 anos | Talidomida, cetirizina, prednisona | Baricitinibe 2 mg/d | 4 meses |
| 9f | Feminino | 26 anos | Prednisona, rivaroxabana, talidomida, ácido acetilsalicílico | Baricitinibe 2 mg/d | 4 meses |
| 8g | Feminino | 26 anos | Prednisona, talidomida, diosmina, ácido acetilsalicílico | Baricitinibe 4 mg/d | 12 meses |
| 9h | Feminino | 43 anos | Prednisona, metotrexato, warfarina | Tofacitinibe 10 mg/d | 12 meses |
| 10i | Feminino | 31 anos | Não referidos (múltiplos) | Abrocitinibe 100 mg/d | 3 meses |
| 11j | Feminino | 48 anos | Pentoxifilina, nifedipina, ácido acetilsalicílico, corticosteroides, etanercepte | Baricitinibe 4 mg/d | 4 meses |
| 12j | Feminino | 36 anos | Corticosteroides, talidomida, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, enoxaparina | Baricitinibe 2 mg/d | 16 semanas |
| 13j | Masculino | 17 anos | Corticosteroides, talidomida, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico, enoxaparina | Baricitinibe 2 mg/d | 10 semanas |
| 14j | Feminino | 26 anos | Corticosteroides, talidomida | Baricitinibe 2 mg/d | 14 semanas |
| 15j | Feminino | 18 anos | Prednisona, fitoterápicos | Baricitinibe 2 mg/d | 16 semanas |
| 16j | Feminino | 12 anos | Prednisona, fitoterápicos | Baricitinibe 2 mg/d | 16 semanas |
*As referências dos relatos citados na tabela constam como Material Suplementar.
A remissão de longo prazo da VL refratária à anticoagulação reforça o potencial dos iJAK na modulação das vias inflamatórias e imunológicas em condições trombo‐inflamatórias como a VL, que está tipicamente associada a estados de hipercoagulabilidade.1,2 Trombose e inflamação são respostas que se retroalimentam na VL. A figura 2 ilustra os mecanismos propostos de envolvimento da via JAK/STAT na patogênese da VL; no canto superior esquerdo, demonstra‐se o diagrama de Venn indicando a multicausalidade da VL. As setas pretas indicam eventos fisiopatogênicos da vasculopatia trombosante com isquemia e dano tecidual, que contribuem na ativação da imunidade inata e inflamação local leve, as quais podem ser intermediadas pelo sistema JAK/STAT; as setas verdes indicam alterações da imunidade inata desencadeadas pela isquemia, com a oxidação da lipoproteína(a) [Lp(a)], que se relacionam com a produção do interferon e ativação também do sistema JAK/STAT; as setas vermelhas indicam as consequências da ativação do sistema JAK/STAT, com aumento da P‐selectina, atuando na redução da fibrinólise, aumento da trombose, além de geração de mediadores inflamatórios, como óxido nítrico sintase induzível (iNOS) e ciclooxigenase‐2 (COX‐2), ocasionando o eritema perilesional e dor local.
Mecanismos propostos do envolvimento da via JAK/STAT na patogênese da vasculopatia livedoide, na promoção de um ambiente protrombótico e antifibrinolítico no ambiente cutâneo. COX2, ciclo‐oxigenase 2; DAMPs, padrões moleculares associados a dano; HMGB1, proteína 1 de alta mobilidade do grupo B; iNOS, óxido nítrico sintase induzível; IL, interleucina; IL‐1β, interleucina 1 beta; JAK‐STAT, Janus Kinase‐transdutor de sinal e ativação da transcrição; PAI 1, inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1; MHC, complexo principal de histocompatibilidade; PAR2, receptor ativado por protease tipo 2; ROS, espécies reativas de oxigênio; tPA, ativador tecidual do plasminogênio; TNF‐α, fator de necrose tumoral alfa; TPO‐R, receptor da trombopoietina.
IL‐2 e seu receptor solúvel são elevados no soro de pacientes com VL. Observou‐se aumento na expressão tecidual da P‐selectina plaquetária, sugerindo ativação de plaquetas e linfócitos em pacientes com VL.3 Ademais, Lp(a) e os anticorpos antifosfolípides (aFL) desempenham papel central na patogênese da VL. A Lp(a) compartilha homologia estrutural com o plasminogênio, interrompendo a fibrinólise e promovendo a deposição de fibrina em vasos de pequeno calibre.4 Adicionalmente, os aFL ativam o endotélio e o sistema complemento, exacerbando a trombose microvascular.5
Lp(a) também induz expressão de ICAM‐1 no endotélio e reduz a disponibilidade de TGF‐β. Promove, ainda, adesão e migração transendotelial de monócitos por meio da estimulação da expressão da proteína quimioatraente de monócitos‐1 e da quimiocina I‐309. Esse processo facilita a diferenciação de macrófagos pró‐inflamatórios do tipo M1, levando à ativação de células‐T auxiliares e NK. Lp(a) também estimula a secreção local de IL‐1β, TNFα, IL‐8, IL‐6, VCAM‐1 e E‐selectina nas células endoteliais.6
Na síndrome antifosfolípide primária, os anticorpos aFL podem desencadear a liberação de interferons tipo I (α/β) por meio da via das células dendríticas plasmocitoides, via ativação do TLR7 e TLR9. Os interferons tipo I podem induzir disfunção endotelial e aumentar a expressão de moléculas pró‐trombóticas, promovendo a deposição de fibrina e C5b‐9, o que contribui para a trombose característica da doença.7,8 Adicionalmente, interferons tipo I ativam STAT1, STAT2 e STAT4 por meio da sinalização JAK1 e TYK2.9
Durante a trombose, a ativação de receptores de citocinas em plaquetas, como o receptor da trombopoietina (TPO‐R), aciona a via JAK‐STAT, intensificando a interação entre plaquetas e promovendo a formação de trombos. A trombina ativa o receptor 2 ativado por protease (PAR2) em células endoteliais, modulando a via JAK‐STAT responsável por estimular ou inibir a formação ou lise de trombos, respectivamente, via ativador tecidual do plasminogênio (tPA) e inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1 (PAI‐1). Além disso, IL‐4 e IL‐6 polarizam os macrófagos dérmicos para o fenótipo M1 por meio da via JAK‐STAT, prolongando o dano tecidual e comprometendo o fenótipo M2, necessário para a remodelação tecidual.10
Assim, citocinas pró‐inflamatórias envolvidas na VL, impulsionadas por aFL, expressão de Lp(a) e ativação da via JAK‐STAT, sugerem uma justificativa para o uso de iJAK nesse contexto clínico com base em: (i) JAK1‐2 são vias de sinalização intracelular de cIFNα, IFNβ, IFNγ, IL‐2 e IL‐6; (ii) iJAK reduzem a ativação endotelial e a liberação de mediadores pró‐inflamatórios; (iii) a inibição de IL‐6 reduz a expressão do fator tecidual e modula os níveis de PAI, ajudando a restaurar o equilíbrio entre coagulação e fibrinólise; (iv) iJAK reduzem eficazmente moléculas de adesão vascular como ICAM‐1 e suprimem a produção de citocinas, especialmente TNFα e IL‐1β induzidos por LDL oxidada.10 Uma recente revisão sistemática indicou iJAK como alternativa segura e eficaz no tratamento de VL refratárias.11
Por fim, este relato reitera evidências de iJAK como opção terapêutica promissora em VL, especialmente quando refratários à anticoagulação, mesmo na presença de trombofilia.
ORCID IDPaulo Ricardo Criado: 0000‐0001‐9785‐6099, Daniel Lorenzini: 0000‐0002‐6850‐5799, Hélio Amante Miot: 0000‐0002‐2596‐9294
Suporte financeiroCNPq (306358/2022‐0 e 305330/2022‐5) – Hélio Miot e Paulo Criado são pesquisadores bolsista do CNPq.
Contribuição dos autoresGiulia Jardim Criado: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Daniel Lorenzini: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Paulo Ricardo Criado: Coleta de dados; Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Hélio Amante Miot: Concepção e planejamento do estudo; análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica de literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesGiulia Criado: Nenhum.
Dr. Paulo Criado: Advisory board – Pfizer, Galderma, Takeda, Hypera, Novartis, Sanofi; Clinical Research – Pfizer, Novartis, Sanofi, Amgen and Lilly; Speaker: Pfizer, Abbvie, Sanofi‐Genzyme, Hypera, Takeda, Novartis.
Dr. Daniel Lorenzini: Advisory board – Pfizer, Galderma; Clinical Research – Pfizer, Novartis, Sanofi, Amgen e Lilly; Speaker.
Dr. Hélio Miot: Advisory Board – Johnson & Johnson, L’Oréal, Theraskin, Sanofi e Pfizer; Clinical Research – Abbvie, Galderma, Pierre‐Fabre e Merz.
EditorSílvio Alencar Marques.
Como citar este artigo: Criado GJ, Criado PR, Lorenzini D, Miot HA. JAK inhibitors in livedoid vasculopathy associated with thrombophilia and refractory to anticoagulation: case report and literature review. An Bras Dermatol. 2026;101:501324.
Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil.



