A nanotecnologia tem revolucionado a ciência há pelo menos cinco décadas, com expansão contínua para diversas áreas médicas e a introdução de estratégias inovadoras para o tratamento de doenças cutâneas, particularmente na última década. Este artigo revisa as principais evidências científicas e os recentes avanços tecnológicos relativos à aplicação de nanopartículas no tratamento de doenças de pele, destacando sua relevância translacional e regulatória. A incorporação de nanocarreadores possibilitou a otimização e o controle da penetração cutânea, biodisponibilidade e liberação de fármacos e princípios ativos cosméticos, com maior segurança e tolerabilidade. Essas plataformas ampliaram as opções terapêuticas para dermatoses e aprimoraram os resultados cosméticos em rejuvenescimento, hidratação e fotoproteção. Os princípios ativos nanoparticulados demonstraram potencial para melhorar a eficácia e a tolerabilidade em contextos clínicos selecionados, com maior adesão do paciente. Paralelamente, o uso da nanotecnologia em dermocosméticos e produtos de uso diário tem crescido exponencialmente, exigindo maior padronização regulatória e supervisão mais rigorosa dos processos de qualidade de fabricação. Apesar desses avanços, ainda existem desafios relacionados à reprodutibilidade metodológica, à caracterização físico‐química e à rastreabilidade de nanomateriais. Além disso, esta revisão narrativa crítica reconhece limitações, incluindo a heterogeneidade nos desenhos dos estudos e a falta de dados de longo prazo, necessários para a compreensão abrangente do impacto total da nanotecnologia em dermatologia. A integração da inovação científica, da regulamentação e da prática clínica é essencial para consolidar o uso seguro e eficaz de nanopartículas na dermatologia moderna. Assim, a nanotecnologia representa transição para terapias cutâneas mais precisas, multifuncionais e personalizadas, com potencial para impactar a saúde pública dermatológica e o bem‐estar geral.
Desde as teorias de Richard Feynman sobre manipulação molecular na década de 1950, várias linhas de pesquisa surgiram para aplicar conceitos nanométricos.1 Na medicina, radiologia, oncologia e dermatologia se destacam como especialidades que se beneficiaram significantemente dos avanços em materiais nanométricos para aplicações diagnósticas e terapêuticas de precisão.2 A dermatologia é especialidade particularmente adequada à aplicação da nanotecnologia. Na última década, várias plataformas já foram empregadas para superar as limitações das formulações tópicas tradicionais para tratar doenças e aplicações cosméticas.3,4
O estrato córneo da pele atua como barreira seletiva que regula o fluxo ou permeação de substâncias exógenas por difusão passiva por três vias: intracelular (através das células), intercelular (entre as células) e transapendicular (através dos folículos pilosos e glândulas sudoríparas), representadas na figura 1. Peemeação refere‐se à entrada do ingrediente ativo nas camadas superficiais da pele, enquanto absorção implica sua passagem para a circulação sistêmica. A eficiência de permeação depende das propriedades físico‐químicas do composto ativo (peso ou tamanho molecular, lipofilicidade, polaridade), das características do veículo, da condição da pele e do método de aplicação.
Representação esquemática das vias de administração tópica através da pele humana: a via intercelular (através da matriz lipídica), a via transcelular (ou intracelular – através dos corneócitos) e a via transapendicular (glândulas sudoríparas foliculares e écrinas). Os folículos pilosos atuam tanto como pontos de entrada preferenciais quanto como reservatórios que facilitam a penetração inicial. Os principais determinantes da permeação incluem o tamanho molecular, a polaridade e a contribuição das vias de drenagem apendiculares.
Enquanto as formulações tópicas convencionais têm dificuldade em atingir as camadas mais profundas da pele, os nanocarreadores aumentam a permeação e a concentração local dos ativos, reduzindo a absorção sistêmica. Ao usar nanocarreadores para modificar as propriedades físico‐químicas das substâncias ativas, é possível aumentar sua afinidade pela pele e promover a liberação controlada e direcionada. Assim, a nanotecnologia, combinada com a engenharia de formulações, promete maior eficácia terapêutica, redução de efeitos adversos e melhora da estabilidade do produto, potencialmente estabelecendo um marco no desenvolvimento de terapias cutâneas seguras e personalizadas.5
Formalmente, a nanotecnologia em produtos tópicos utiliza estruturas em nanoescala (1–1.000nm) para otimizar a administração, a penetração e a liberação controlada de ingredientes ativos.6 Esses nanocarreadores, como lipossomas, nanopartículas lipídicas sólidas (SLNs, do inglês solid lipid nanoparticles), carreadores lipídicos nanoestruturados (NLCs, do inglês nanostructured lipid carriers), dendrímeros e nanogéis, encapsulam as moléculas ativas, isoladas ou em associações. A escolha de um nanocarreador específico é orientada por critérios de design, como tamanho da partícula, carga superficial e ligantes de superfície, que ditam sua interação com a pele.
A otimização de ingredientes ativos em formulações combinadas e multifuncionais pode aumentar a adesão do paciente e levar a resultados mais rápidos e duradouros, tornando‐se amplo campo para a nanotecnologia.7 Essa tendência está alinhada com o crescente conhecimento das doenças dermatológicas, que está mudando o tratamento para terapias direcionadas semelhantes às da oncologia clínica.8 Isso inclui o desenvolvimento de novas soluções diagnósticas e terapêuticas para uso tópico e sistêmico.9
Em virtude de sua heterogeneidade química e ampla aplicação, as nanopartículas têm impulsionado esforços de padronização internacional para garantir sua segurança, com a orientação de agências como a Food and Drug Administration (FDA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).10,11 No entanto, o termo “nano” é frequentemente usado de maneira inconsistente em produtos tópicos. É crucial entender que o conceito funcional da nanotecnologia vai além do mero tamanho da partícula para incluir métricas de desempenho – em essência, a biodisponibilidade.12 Além disso, o encapsulamento de agentes ativos em nanomateriais também pode tornar o próprio nanocarreador parte do processo terapêutico.13
A capacidade dos nanocarreadores de penetrar precisamente na pele e controlar a liberação de ingredientes ativos abriu novas possibilidades terapêuticas tanto em dermocosméticos quanto na medicina.14 Como ilustrado na figura 2, esse campo evoluiu significantemente. A progressão começou com lipossomas cosméticos para melhor administração, seguidos por nanopartículas lipídicas sólidas/carreadores lipídicos nanoestruturados (SLNs/NLCs) por volta de 2010, que melhoraram o FPS e a experiência do usuário em protetores solares. Em 2020, dendrímeros terapêuticos e nanopartículas lipídicas (LNPs, do inglês lipid nanoparticles) carregando mRNAs surgiram para tratamentos mais precisos. O desenvolvimento projetado de sistemas de nanogel‐lipossoma até 2025 exemplifica a tendência contínua em direção a carreadores multifuncionais mais sofisticados, com maior estabilidade e liberação direcionada.
O conhecimento atualizado da nanotecnologia é essencial para dermatologistas, pois a prática clínica exige avaliação crítica de evidências, monitoramento de toxicidade e conformidade regulatória. Esta revisão narrativa crítica sintetiza os avanços na nanotecnologia aplicada à pele na última década, discute tendências emergentes e contextualiza as descobertas dentro da literatura mais ampla. As seções a seguir conectam essas descobertas laboratoriais com aplicações clínicas emergentes, reconhecendo as limitações atuais das evidências.
Esta revisão narrativa baseou‐se em pesquisa estruturada nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science, entre 2015 e 2025, utilizando os termos ‘nanoparticles’, ‘dermatology’, ‘topical delivery’, e ‘nanocarriers’. Foi dada prioridade a estudos clínicos em humanos e pesquisa translacional, enquanto estudos pré‐clínicos relevantes foram incluídos quando clinicamente informativos.
Nanoplataformas para dermatologiaA pele funciona como barreira biológica dinâmica, apresentando desafios para a administração de agentes terapêuticos específicos em virtude de fatores como estabilidade, polaridade, solubilidade ou peso molecular. A nanotecnologia oferece soluções para superar essas barreiras de permeação, aumentar a biodisponibilidade de fármacos lipofílicos, reduzir a irritação e permitir a liberação localizada.15
Produtos compostos por nanopartículas com distribuições de tamanho heterogêneas podem resultar em comportamento imprevisível: partículas maiores permanecem na superfície, partículas de tamanho médio penetram na epiderme e partículas menores atingem a derme superficial, onde ocorre a absorção sistêmica.
Além do tamanho das partículas, a elevada relação superfície/volume dos nanocarreadores propicia a interação mais homogênea com o tecido. As figuras 3 e 4 ilustram como a subdivisão de determinado volume, mantendo as proporções, aumenta a área de superfície e a precisão da incorporação do ingrediente ativo durante a permeação cutânea. A figura 5 demonstra esse princípio por meio de um experimento com célula de difusão de Franz utilizando microscopia confocal de fluorescência. Após 2 e 8 horas, o veículo controle e o ativo não encapsulado apresentaram fluorescência mínima, enquanto três nanosoluções (NS01–NS03), palmitato de retinila em nanocarreadores poliméricos, ácido ascórbico em lipossomas e bakuchiol em exossomas, produziram sinais epidérmicos marcadamente mais intensos e profundos. Após 8 horas, NS01, NS02 e NS03 alcançaram permeação aproximadamente 2 vezes, 2,4 vezes e 2 vezes maior do que os ativos livres, respectivamente, com o sistema lipossomal (NS02) apresentando o aumento mais pronunciado na penetração e retenção cutânea (dados não publicados em arquivo; estudo realizado pela Bettech, RS, Brasil).
Ilustração comparando a área de cobertura, a precisão e a uniformidade de distribuição de um ativo tópico convencional versus um ativo com nanotecnologia. A nanoformulação proporciona melhor permeação através do estrato córneo e maior distribuição nos anexos cutâneos, particularmente através dos folículos pilosos e da unidade pilossebácea, resultando em maior deposição inicial e distribuição mais homogênea na pele.
Permeação cutânea de soluções nanoencapsuladas de palmitato de retinila, ácido ascórbico e bakuchiol (NS01–NS03) versus ativos não encapsulados em uma célula de difusão de Franz (microscopia confocal em 2 horas e 8 horas). A cor vermelha indica os ingredientes ativos. Dados não publicados em arquivo; estudo realizado pela Bettech, RS, Brasil. Os dados de difusão de Franz apresentados são derivados de estudos experimentais previamente publicados e são apresentados para fins ilustrativos.
As nanopartículas devem ser projetadas deliberadamente considerando parâmetros físico‐químicos e biológicos que determinam o desempenho e a segurança, incluindo biopersistência, biocompatibilidade e degradação controlada, que variam de acordo com o material e o uso pretendido.16,17 A diversidade de formatos (à base de lipídios, poliméricos, metálicos ou híbridos) amplia suas aplicações. No entanto, nenhum tipo de nanopartícula é universalmente reconhecido como o mais eficaz ou seguro para todas as indicações dermatológicas em virtude das complexas interações entre o nanomaterial e a barreira cutânea.18 Limiares críticos servem como metas práticas de formulação: potencial ζ de±30mV para estabilidade coloidal e índice de polidispersão (PDI) <0,2 para uniformidade do tamanho das partículas.18
O desenvolvimento eficaz de nanopartículas requer a otimização das propriedades estruturais (tamanho, morfologia, carga superficial e composição química) alinhadas ao uso pretendido. Em dermocosméticos, essa engenharia de precisão cria sistemas multifuncionais que atuam tanto como carreadores quanto como componentes nanoativos, aumentando a eficácia do ingrediente ativo, prolongando a liberação, melhorando a estabilidade e exercendo efeitos diretos na hidratação, na restauração da barreira epidérmica e na modulação cutânea.18 A tabela 1 resume as camadas cutâneas, suas barreiras fisiológicas e as implicações para o projeto racional de nanomateriais na administração tópica e transdérmica. A seleção de nanocarreadores com características estruturais específicas possibilita resultados direcionados, como a combinação de lipídios insaturados para melhorar a administração de vitaminas hidrofóbicas.
Visão geral das camadas da pele, principais barreiras fisiológicas e implicações para o design de nanomateriais na administração cutânea
| Camada/estrutura da pele | Principais características estruturais e fisiológicas | Características de barreira dominantes | Implicações para o design de nanomateriais |
|---|---|---|---|
| Estrato córneo | Envoltório córneo de queratinócitos mortos imersos em matriz lipídica altamente ordenada; baixo teor de água; pH ácido | Principal barreira à difusão; permeabilidade muito baixa, especialmente para compostos hidrofílicos e de alto peso molecular | Prioriza carreadores pequenos (< 100–200 nm), frequentemente à base de lipídios; desenvolve sistemas oclusivos ou formadores de filme, intensificadores de penetração e vesículas deformáveis para modular transitoriamente a resistência da barreira, evitando a ruptura da integridade |
| Epiderme viável (excluindo o estrato córneo) | Queratinócitos vivos, melanócitos, células de Langerhans; ambiente metabólico e imunológico ativo | Permeabilidade seletiva, metabolismo ativo e vigilância imunológica; risco de irritação ou sensibilização | Requer permeação controlada e retenção local; desenvolvimento de nanocarreadores com perfis de liberação e propriedades de superfície ajustados para minimizar a imunogenicidade, permitindo, ao mesmo tempo, o direcionamento a queratinócitos e melanócitos |
| Derme | Fibroblastos, rede de colágeno e elastina, vasos sanguíneos, vasos linfáticos, nervos, estruturas anexiais | Matriz extracelular densa e vascularização; potencial para distribuição sistêmica após a transposição da barreira | Apoia o desenvolvimento de nanocarreadores para administração localizada em fibroblastos e vasos sanguíneos (p. ex., agentes anti‐inflamatórios e pró‐regenerativos) ou, quando desejado, para administração transdérmica/sistêmica utilizando microagulhas ou outras tecnologias minimamente invasivas |
| Anexos cutâneos (folículos pilosos, glândulas sebáceas e sudoríparas) | Invaginações discretas que atravessam o estrato córneo; reservatórios de sebo e microbiota | Fornecer vias de drenagem preferenciais e depósitos de longo prazo para partículas aplicadas topicamente | Permitir o uso de nanocarreadores direcionados aos folículos (p. ex., 50–300 nm), otimizadas para acúmulo em unidades pilossebáceas em casos de acne, alopécia e sistemas de liberação baseados em reservatórios |
| Hipoderme (tecido subcutâneo) | Tecido adiposo com septos conjuntivos, vasos sanguíneos e nervos; amortecimento mecânico | Não constitui barreira primária à difusão; atua principalmente como reservatório para substâncias injetadas | Relevante principalmente para nanoplataformas injetáveis ou baseadas em suportes; desenvolvimento de depósitos de longa duração e sistemas de regeneração tecidual, em vez de formulações tópicas clássicas |
Nota: Esta tabela resume as características estruturais e funcionais de cada camada da pele relevantes para o desenvolvimento de nanomateriais. As implicações listadas representam as melhores práticas atuais em desenvolvimento de formulações e estão sujeitas a otimização contínua à medida que novas evidências surgem.
Os produtos baseados em nanotecnologia são geralmente mais eficazes do que misturas ativas equivalentes, porque a separação física dos ativos minimiza as interações químicas, aumenta a capacidade para múltiplos ingredientes sensíveis e melhora a estabilidade e o desempenho,19–21 como ilustrado na figura 6, onde cada nanocarreador (bicamada fosfolipídica com núcleo aquoso e potencial ζ) carrega um ativo distinto.
Os nanocarreadores dermatológicos incluem lipossomas tradicionais, SLNs, nanoemulsões (50 a 200nm),14,22 bem como nanopartículas poliméricas, dendrímeros, nanogéis, nanopartículas de ouro e sílica e hidrogéis nanoestruturados. A tabela 2 resume suas principais características e aplicações dermatológicas,23–32 enquanto a figura 7 apresenta suas representações arquitetônicas. A tabela 3 apresenta estudos clínicos humanos representativos que avaliaram formulações tópicas com nanocarreadores explicitamente descritos e indicações dermatológicas claramente definidas dos últimos 10 anos, identificados por busca narrativa direcionada na literatura biomédica.
Descrição de algumas nanoplataformas para tratamento dermatológico tópico
| Nanopartícula | Características principais | Uso tópico |
|---|---|---|
| Lipossomas23,24 | Vesículas fosfolipídicas (bicamada) que encapsulam fármacos hidrofílicos (no núcleo aquoso) e fármacos lipofílicos (na membrana) | Vitamina C, vitamina E, ácido hialurônico, coenzima Q10, corticosteroides; ingredientes ativos utilizados em formulações antienvelhecimento, clareadoras e anti‐inflamatórias |
| Niossomas25 | Vesículas compostas por surfactantes não iônicos (não fosfolipídicos) | Retinol, antioxidantes, minoxidil em formulações capilares e ativos antienvelhecimento |
| Nanopartículas poliméricas26 | Sistemas de matriz polimérica biodegradável/núcleo‐casca (PLA/PLGA) ou polímeros catiônicos (quitosana) | Vitamina C, filtros UV, antibióticos, peptídeos antimicrobianos; usados para aumentar a estabilidade e a penetração na pele |
| Nanopartículas metálicas27 | Núcleo inorgânico (Au, Ag, ZnO, TiO2) | ZnO e TiO2 em protetores solares; Ag em cremes antimicrobianos; Au em fototerapia dermatológica |
| Dendrímeros28 | Macromoléculas altamente ramificadas com múltiplos grupos terminais | Carreadores para peptídeos antimicrobianos, antioxidantes e outras moléculas bioativas em formulações tópicas |
| Nanopartículas lipídicas sólidas (SLN) e carreadores lipídicos nanoestruturados (NLC)29 | Núcleo lipídico sólido (SLN) versus núcleo lipídico combinado sólido+líquido (NLC) | Retinol, coenzima Q10, filtros UV, antifúngicos, agentes clareadores da pele; usados para melhorar a penetração cutânea |
| Nanocápsulas de proteína30,31 | Núcleo/complexo no qual proteínas (por exemplo, albumina) formam a matriz/carreador. | Formulações experimentais contendo antioxidantes e extratos vegetais para aplicações na pele |
| Nanopartículas lipídicas para RNA (LNPs)32 | Mistura de lipídios ionizáveis e auxiliares que encapsulam mRNA/siRNA | Formulações em desenvolvimento para ativos antioxidantes e peptídeos antienvelhecimento |
PLA, ácido polilático; PLGA, ácido poli(láctico‐co‐glicólico); Au, ouro; Ag, prata; ZnO, oxido de zinco; TiO2, dióxido de titânio.
Exemplos de sistemas tópicos baseados em nanotecnologia na área da dermatologia com estudos clínicos em humanos realizados nos últimos 10 anos
| Nanocarreador | Ingrediente ativo | Indicação | Desenho do estudo |
|---|---|---|---|
| Nanoemulsão de óleo de tea tree (TTO)36 | Adapaleno 0,1% | Acne vulgar | Ensaio clínico randomizado triplo‐cego (100 pacientes), com duração de 12 semanas |
| Nano lipossomas (gel)37 | Anfotericina B 0,4% | Leishmaniose cutânea | Estudo clínico piloto aberto |
| Nanoemulsão BF‐200 ALA (Ameluz®)38 | Ácido 5‐aminolevulínico (ALA)7,8% | Carcinoma basocelular superficial (e dados extensos em ceratose actínica) | Ensaio clínico randomizado de fase III de não inferioridade |
| Nanoformulação de azul de metileno baseada em oleossomas (MBSD)39 | Azul de metileno+ácido salicílico (terapia fotodinâmica) | Acne no tronco | Estudo clínico aberto (24 pacientes), cinco sessões semanais |
| Niossomas (solução tópica)40 | Fosfato de clindamicina 1% | Acne vulgar | Ensaio clínico randomizado, duplo‐cego (100 pacientes) |
| Carreadores lipídicos nanoestruturados (NLC‐TRE) em gel/creme41 | Tretinoína 0,05% | Acne vulgar leve a moderada | Estudo clínico randomizado, duplo‐cego e com aplicação em metade da face, comparando a tretinoína NLC com o creme de tretinoína convencional a 0,05% |
| Nanogel de tretinoína (gel de nanoemulsão de óleo em água)42 | Tretinoína 0,025% | Acne vulgar facial | Ensaio clínico de fase IV, multicêntrico, randomizado e controlado por ativo, comparando nanogel de tretinoína a 0,025% com gel de tretinoína convencional a 0,025% |
Os lipossomas são vesículas esféricas compostas por bicamadas fosfolipídicas e um núcleo aquoso, estruturalmente semelhantes às membranas celulares,33 com tamanhos e morfologias variáveis (vesículas unilamelares, multilamelares ou multivesiculares). Em decorrência dessa conformação, eles podem transportar ativos hidrofílicos e lipofílicos individualmente ou em combinação, protegendo substâncias sensíveis, reduzindo incompatibilidades entre ativos coformulados e aumentando a penetração e a estabilidade.34 Isso é alcançado porque as formulações lipossomais se concentram no estrato córneo e liberam ativos de maneira controlada, reduzindo assim a concentração cumulativa do fármaco e os efeitos adversos, mantendo a eficácia terapêutica.35–42
A capacidade total de carga de um lipossoma é variável e influenciada por suas características, como o tamanho da vesícula e a presença de bicamadas fosfolipídicas unilamelares ou multilamelares.43,44 Portanto, a concentração final de ativos em cada nanocápsula depende não apenas da quantidade de lipídios e do volume interno, mas também da tecnologia de encapsulação, que tende a ser proprietária de cada desenvolvedor. Essa tecnologia é crucial para garantir a permeação estável do carreador e a biodisponibilidade dos ativos, criando assim nanoplataformas verdadeiramente multifuncionais.
Manipulações recentes em nanotecnologia envolveram a combinação de carreadores, aproveitando características específicas que se complementam em um único sistema de liberação. Essa abordagem aumenta a permeação cutânea, pois diferentes tipos de nanopartículas atuam sinergicamente para modular a barreira do estrato córneo. Sistemas híbridos oferecem multifuncionalidade, propiciando que uma única formulação exerça múltiplas ações, como proteção, estabilização de ativos e liberação controlada em múltiplos níveis. Esses avanços expandem o potencial terapêutico e cosmético dos nanocarreadores, tornando‐os plataformas promissoras em dermatologia estética e no tratamento de doenças cutâneas e sistêmicas.21
Os lipossomas estão sendo otimizados à medida que surgem novas combinações de ativos e necessidades de tratamento individualizadas. Uma nova geração de nanovesículas deformáveis, os transferossomas, adquiriu adaptabilidade estrutural pela incorporação de ativadores de borda, como o desoxicolato de sódio, na bicamada fosfolipídica.45,46 Esses carreadores atingiram novo nível de desempenho na administração tópica em virtude de sua alta flexibilidade, que lhes possibilita deformar e permear o estrato córneo até a epiderme viável. Isso potencializa resultados como os observados com fatores de crescimento para cicatrização de feridas em modelos animais, nos quais os resultados foram 60% superiores ao ativo usual.22 Além disso, a associação de tecnologias de gel com lipossomas ganhou destaque na otimização de tratamentos dermatológicos, como no caso de nanogéis e microgéis.47–49
Nanotecnologia em cosméticosO Brasil é o quarto maior mercado de cosméticos do mundo, com valor estimado em US$ 22,9 bilhões em 2022.50 Atualmente, a demanda por cosméticos com melhor desempenho clínico e sensorial está diretamente relacionada à inovação e à pesquisa aplicadas às formulações, que se concentram cada vez mais em aprimorar a estabilidade e a eficácia dos ingredientes ativos.7 Os consumidores estão cada vez mais preocupados com a aparência e o bem‐estar, com crescente demanda por produtos focados na personalização e na saúde da pele, refletindo aumento de mercado de aproximadamente 6% em 2021.50
Os dermocosméticos representam importante fronteira da nanotecnologia aplicada à pele, combinando benefícios cosméticos com efeitos terapêuticos. Em formulações dermocosméticas nanoestruturadas, os ativos cosméticos (antioxidantes, filtros UV, hidratantes, vitaminas, metabólitos da vitamina A) são encapsulados em lipossomas, SLN e NLC para aumentar a estabilidade, garantir a aplicação uniforme, propiciar a liberação controlada, melhorar a penetração de compostos lipofílicos e reduzir a irritação local, o que é particularmente relevante em produtos destinados à pele sensível, pele propensa a discromias (como fototipos mais escuros), idosos ou pacientes com condições inflamatórias crônicas. Evidências clínicas reforçam a necessidade de equilibrar a melhora estética com a segurança em longo prazo e garantir a supervisão regulatória e a comunicação clara com os pacientes sobre expectativas e limitações.9,51,52
A nanotecnologia melhora significantemente os resultados da limpeza da pele. A limpeza eficaz da pele é essencial para manter a homeostase cutânea, uma vez que a barreira lipídica do estrato córneo acumula sebo, suor, poluentes e micróbios que podem desencadear inflamação. Os produtos de limpeza tradicionais à base de surfactantes muitas vezes comprometem a integridade da barreira, levando a ressecamento, irritação e desequilíbrio do microbioma. Sistemas de limpeza habilitados por nanotecnologia, incluindo nanoemulsões óleo‐em‐água, nanopartículas de sílica funcionalizadas, micelas poliméricas e hidróxidos duplos em camadas, aproveitam altas relações de área de superfície/volume para adsorver seletivamente detritos lipofílicos e poluentes, minimizando a ruptura da barreira. Nanomateriais responsivos a estímulos que respondem a sinais ambientais, como pH ou estresse oxidativo, podem fornecer liberação sob demanda de ingredientes ativos e esfoliação suave, oferecendo abordagem sofisticada para a limpeza de peles sensíveis ou propensas a doenças.51,52
A hidratação ideal da pele é essencial para a preservação da barreira em peles saudáveis e para o controle dos sintomas em situações crônicas, como dermatite atópica, psoríase e xerose em idosos. Os hidratantes nanoestruturados, incluindo nanoemulsões, lipossomas e carreadores à base de lipídios carregados com umectantes (p. ex., glicerol, ácido hialurônico), emolientes e lipídios reparadores da barreira cutânea, aumentam a retenção de água e melhoram a plasticidade do estrato córneo. Esses sistemas apresentam melhor penetração nas camadas superiores da epiderme e tempo de permanência prolongado, resultando em maior adesão e tolerância do paciente, além de benefícios clínicos mais duradouros.51,52
As formulações nanocosméticas tópicas oferecem vantagens como melhor hidratação da pele, maior proteção UV, efeitos oclusivos e maior estabilidade do produto. Os nanocarreadores à base de lipídios, incluindo SLNs e NLCs, formam filmes oclusivos que reduzem a perda transepidérmica de água e aumentam a hidratação, ao mesmo tempo que melhoram a dispersão e a estabilidade do ingrediente ativo.53 Nanoemulsões utilizadas em formulações hidratantes melhoram significantemente a hidratação da pele por meio de propriedades oclusivas e distribuições otimizadas do tamanho das gotículas.54,55 Na fotoproteção, filtros à base de nanopartículas inorgânicas, como dióxido de titânio e óxido de zinco em nanoescala, proporcionam proteção UV de amplo espectro e fotoestável, com melhor aceitabilidade cosmética em comparação com partículas maiores.56–58 Nanocarreadores conferem maior estabilidade física e química a ativos cosméticos instáveis, melhor penetração na pele e liberação sustentada, resultando em desempenho superior do produto.58 No entanto, a nanoformulação em dermocosméticos levanta questões essenciais sobre a qualidade de fabricação, rotulagem e transparência para o consumidor. As abordagens regulatórias diferem entre os países, envolvendo critérios relacionados à segurança, estabilidade e compatibilidade com os ingredientes ativos. A tabela suplementar 1 apresenta exemplos de produtos dermocosméticos com uso declarado de nanotecnologia nos últimos cinco anos.
Nanotecnologia para o tratamento do envelhecimento, fotoenvelhecimento e condições específicasO envelhecimento da pele resulta de alterações intrínsecas e do fotoenvelhecimento induzido por raios UV, levando a estresse oxidativo, degradação do colágeno, danos ao DNA, inflamação crônica e alterações pigmentares. Formulações antienvelhecimento baseadas em nanotecnologia oferecem uma plataforma para neutralizar essas vias, aprimorando a aplicação direcionada de retinoides, peptídeos, antioxidantes e fatores de crescimento a camadas específicas da pele, ao mesmo tempo que melhoram a estabilidade e possibilitam a liberação controlada. Ao coencapsular agentes clareadores, lipídios reparadores da barreira cutânea e componentes hidratantes, os nanossistemas multifuncionais podem modular simultaneamente o estresse oxidativo, apoiar a remodelação da matriz extracelular e melhorar o tom e a textura da pele, oferecendo abordagem holística para o rejuvenescimento facial.9,51,59
Para o melasma, SLNs/NLCs aumentam a penetração cutânea de agentes despigmentantes (ácido azelaico e hidroquinona), proporcionando liberação sustentada e reduzindo os efeitos adversos.60 Antioxidantes encapsulados em sistemas nanoestruturados modulam a melanogênese e protegem contra danos induzidos por UV, contribuindo para o controle da hiperpigmentação.61
O ácido tranexâmico (TXA) é agente despigmentante promissor para melasma e hiperpigmentação pós‐inflamatória, mas a baixa permeação cutânea limita a eficácia das formulações convencionais. Sistemas lipídicos vesiculares (lipossomas e etossomas) propiciam o encapsulamento do TXA, promovendo liberação controlada, estabilidade e penetração cutânea prolongada. As vesículas lipídicas aumentam significantemente a deposição do fármaco na epiderme e melhoram a resposta clínica em comparação com as formulações tradicionais.62 Guo et al. relataram melhora acentuada do melasma em fototipos III–IV com etossomas de TXA a 0,5%, sem eventos adversos.63 A combinação da inibição da tirosinase, do efeito antiangiogênico do TXA e do desempenho do nanocarreador representa avanço significante na segurança e eficácia do tratamento da hiperpigmentação, especialmente em tipos de pele pigmentada.64
Nanopartículas lipídicas, carreadores poliméricos e lipossomas são amplamente utilizados para encapsular ativos como vitamina C, retinol e ácido hialurônico, protegendo‐os da oxidação e degradação, ao mesmo tempo que aumentam a penetração cutânea e a biodisponibilidade. Nanocarreadores lipídicos carregados com retinol e nanocarreadores lipídicos estruturados apresentam estabilidade química acentuadamente melhorada e deposição cutânea aproximadamente duas vezes maior em comparação com o retinol não encapsulado.65,66 Sistemas lipossomais elásticos e catiônicos aumentam a penetração do ácido ascórbico através do estrato córneo em camadas epidérmicas mais profundas, mantendo a atividade antioxidante.67,68 Nanopartículas e nanogéis à base de ácido hialurônico promovem a retenção sustentada de água e melhoram a função de barreira.69 Estudos clínicos e translacionais mostram hidratação cutânea aprimorada, pigmentação homogênea e redução de linhas finas e rugas, particularmente com vitamina C ou retinoides nanoencapsulados combinados com sistemas hidratantes de suporte. Métodos de aprimoramento físico, como microagulhamento e iontoforese, combinados com nanopartículas, otimizam a administração direcionada a compartimentos cutâneos específicos, maximizando a eficácia e limitando a exposição sistêmica.70
É importante notar que uma proporção substancial de produtos tópicos atualmente comercializados como formulações de “exossomos” são, na prática, sistemas lipossomais convencionais contendo ativos derivados de plantas ou sintéticos, em vez de verdadeiros exossomos biológicos.71 Por definição, os exossomos são vesículas extracelulares em nanoescala de origem endossomal que transportam carga biológica complexa, incluindo proteínas, lipídios, RNA mensageiro, microRNA e fatores de crescimento, liberados por células vivas e capazes de mediar a comunicação intercelular.72,73 Em contraste, muitos dos chamados cremes e séruns de exossomos disponíveis no mercado cosmético são essencialmente ingredientes fitocosméticos ou peptídeos encapsulados em lipossomos, sem estrutura de vesícula extracelular demonstrável ou marcadores exossomais validados. Essa discrepância entre o conceito biológico de exossomos e a composição real da maioria dos produtos comerciais de “exossomos” ressalta a necessidade de terminologia precisa, rotulagem transparente e avaliação crítica das alegações de marketing ao interpretar os supostos efeitos regenerativos ou rejuvenescedores dessas formulações tópicas.
Nanotecnologia em doenças dermatológicasNo tratamento tópico, nanocarreadores como nanoemulsões, lipossomas, nanopartículas poliméricas, nanogéis e nanocristais são usadas para ultrapassar a barreira epidérmica, aumentando assim a biodisponibilidade de agentes ativos nas camadas mais profundas da pele. Isso é particularmente relevante em condições como dermatite atópica, psoríase, acne, vitiligo, alopécia, envelhecimento da pele e câncer de pele, em que a eficácia terapêutica depende da administração precisa e sustentada de agentes.13 Exemplos de ingredientes ativos formulados em nanopartículas para doenças dermatológicas são apresentados na tabela 4.
Aplicação da nanotecnologia em doenças dermatológicas
| Doença dermatológica | Tipo de nanotecnologia | Agente ativo | Objetivo |
|---|---|---|---|
| Acne | Lipossomas | Ácido azelaico | Tolerabilidade melhorada |
| Rosácea | Lipossomas | Ácido azelaico | Tolerabilidade melhorada |
| Hiperpigmentação | – | Peróxido de benzoíla | Permeação melhorada |
| Vitiligo | Lipossomas | – | – |
| Vitiligo | Nanopartículas poliméricas | Tacrolimo | Reduzir a exposição sistêmica |
| Vitiligo | Nanopartículas poliméricas | Tofacitinibe | Reduzir a exposição sistêmica |
| Vitiligo | – | Polypodium leucotomos | Reduzir a exposição sistêmica |
| Dermatite atópica | Nanopartículas de caprolactona | Hidrocortisona | Eficácia, permeação e segurança aprimoradas |
| Dermatite atópica | Nanopartículas lipídicas sólidas | Valerato de betametasona | Eficácia, permeação e segurança aprimoradas |
| Dermatite atópica | Nanoemulsão | Propionato de clobetasol | Eficácia, permeação e segurança aprimoradas |
| Esclerose tuberosa (angiofibromas) | – | Sirolimo | Efeitos adversos leves; sem atividade sistêmica |
| Dermatofitoses | Nanoesponjas | Ciclopirox olamina | Maior eficácia; liberação prolongada mais eficaz |
| Psoríase – placas | Lipossomas e nanopartículas poliméricas | Calcipotriol | Penetração em camadas espessadas da pele e liberação sustentada |
| Psoríase – placas | Lipossomas modificados com DSPE‐PEG | Calcipotriol | Melhor penetração com vesículas pequenas |
| Psoríase – placas | Lipossomas catiônicos | Ciclosporina | Redução de citocinas pró‐inflamatórias (TNF‐α, IL‐17, IL‐22) e sintomas |
| Psoríase – placas | Lipossomas | Glabridina; ibrutinibe/curcumina | Redução da gravidade da psoríase e das citocinas inflamatórias |
| Psoríase – em gotas | Nanogéis e dendrímeros | – | Liberação prolongada e propriedades anti‐inflamatórias |
| Psoríase – pustulosa | Nanopartículas lipídicas sólidas (SLN) e carreadores lipídicos nanoestruturados (NLC) | Metotrexato; leflunomida | Comportamento anfifílico (hidro‐/lipofílico) e efeito hidratante |
| Psoríase – inversa | Nanoemulsões | – | Favorece a penetração nas dobras da pele |
DSPE‐PEG (1,2‐Distearoil‐sn‐glicero‐3‐fosfoetanolamina‐N‐polietilenoglicol). NLC, carreadores lipídicos nanoestruturados; SLN, nanopartículas lipídicas sólidas.
Distúrbios inflamatórios como acne e rosácea são alvos importantes para o tratamento tópico baseado em nanotecnologia. O ácido azelaico, por exemplo, tem longo histórico de uso e amplo espectro de efeitos benéficos nessas condições, incluindo ações antibacterianas e anti‐inflamatórias, redução da hiperqueratinização e melhora da discromia, com perfil de tolerabilidade relativamente suave. Mais recentemente, uma formulação de espuma lipossomal de ácido azelaico demonstrou resultados favoráveis, com distribuição biodisponível em todas as camadas da pele35 e eficácia clinicamente comprovada em comparação com placebo e peróxido de benzoíla no tratamento da hiperpigmentação.
Um gel etossomal contendo clindamicina e ácido salicílico reduziu as lesões de acne mais rapidamente do que as formulações convencionais e foi mais bem tolerado pelos pacientes, provavelmente porque o sistema liberou os ativos gradualmente dentro da unidade pilossebácea, evitando assim o pico de irritação epidérmica.74 Além disso, vários nanossistemas (lipossomas, nanoemulsões) já foram testados para administrar peróxido de benzoíla, adapaleno, tazaroteno e outros agentes antiacne, demonstrando menos ressecamento e descamação da pele em comparação com as formulações tradicionais.75,76
No contexto do vitiligo, a nanotecnologia tem sido explorada por meio de sistemas de administração de nanopartículas lipossomais e poliméricas, que demonstraram eficácia na promoção da repigmentação e na modulação da resposta imune local. Recentemente, um estudo in vitro demonstrou maior retenção na membrana do tacrolimo nanoencapsulado, potencialmente ajudando a otimizar a dose do fármaco in vivo, minimizando a exposição sistêmica.77 Estratégias semelhantes foram investigadas para a administração cutânea de tofacitinibe, inibidor da Janus quinase com diversas indicações sistêmicas, cujos efeitos adversos hematológicos e outros podem limitar seu uso em perfis específicos de pacientes.78,79
Além disso, sistemas nanoestruturados contendo antioxidantes, como extratos de Polypodium leucotomos e outros compostos derivados de plantas, mostraram potencial para proteger melanócitos e promover a repigmentação, atuando como adjuvantes da fototerapia.80 Nanopartículas com atividade semelhante à catalase (PAPLAL) foram usadas para combater o estresse oxidativo implicado na destruição de melanócitos. Resultados preliminares em humanos indicaram repigmentação em casos refratários.81 Outra estratégia promissora é o uso de nanovesículas ultradeformáveis carregadas com psoraleno e antioxidantes (resveratrol) para otimizar a fototerapia PUVA: estudos in vitro e em animais demonstraram aumento da melanogênese e maior proteção antioxidante na pele com esses nanocarreadores.82
Para a dermatite atópica, além dos novos medicamentos sistêmicos já aprovados e em desenvolvimento para doença moderada a grave, permanece uma clara necessidade de tratamento tópico para exacerbações e casos mais leves. Nesse contexto, o uso de corticosteroides tópicos e imunomoduladores continua sendo excelente opção.83 Formulações de pomada de hidrocortisona em nanopartículas de caprolactona, valerato de betametasona homogeneizado em SLNs e propionato de clobetasol em nanoemulsões demonstraram resultados de eficácia comparáveis e perfil de efeitos adversos aceitável quando comparados às apresentações convencionais.84–86 Além disso, a nanotecnologia já foi adaptada à pomada de tacrolimo, proporcionando melhor permeação em doses menores e potencialmente otimizando os custos do tratamento, seja por meio de sua combinação com quitosana e nicotinamida87 ou pelo uso de microemulsões,88 que alcançaram penetração in vivo pelo menos três vezes maior. Além disso, nanopartículas poliméricas associadas ao ácido hialurônico também demonstraram liberação controlada superior quando comparadas às formulações tradicionais.
Embora não sejam considerados agentes de primeira linha para o tratamento tópico do eczema, os anti‐histamínicos também estão começando a aparecer em apresentações baseadas em nanocarreadores, como a levocetirizina em gel à base de quitosana, que demonstrou efeitos benéficos sobre o eritema e o prurido.89 O desenvolvimento de nanoformulações tópicas de metotrexato, que exerce potente efeito inibitório sobre as citocinas pró‐inflamatórias, também contribuiu para melhor controle da resposta imune.90
Pacientes com doenças raras e desafiadoras também se beneficiaram da pesquisa e desenvolvimento de ativos baseados em nanocarreadores em centros independentes. Autores espanhóis relataram os resultados de um estudo observacional prospectivo que incluiu 11 pacientes com angiofibromas faciais associados à esclerose tuberosa, tratados com sirolimo lipossomal a 0,4% por 24 semanas.91 Sabe‐se que essas lesões têm impacto significante na autoestima e são frequentemente tratadas em paralelo com outras complicações relacionadas à doença. A nova formulação foi bem tolerada, com apenas efeitos adversos leves e sem evidências de absorção sistêmica, e foi associada à redução na carga de lesões e alta satisfação do paciente.
A atividade dos antifúngicos tópicos tradicionais pode ser comprometida pelo tamanho das partículas e pela baixa solubilidade, características que a nanotecnologia aborda de modo eficaz, como na incorporação recentemente descrita de ciclopirox olamina em nanoesponjas. Os autores demonstraram atividade antifúngica superior em comparação com o fármaco isolado e cremes tópicos disponíveis comercialmente, bem como liberação sustentada in vitro.92
Um vasto campo de pesquisa sobre o uso de nanocarreadores envolve o tratamento da psoríase. As nanopartículas representam estratégias promissoras para o tratamento dessa doença, pois liberam medicamentos diretamente nas lesões, aumentando assim a eficácia e reduzindo os efeitos adversos.93 Além disso, dependendo do subtipo clínico de psoríase, certas tecnologias podem ser mais apropriadas do que outras, como pode ser visto na tabela 4.
O uso de lipossomas no tratamento tópico da psoríase também se mostrou promissor, melhorando a estabilidade da formulação e otimizando a penetração cutânea do medicamento, como ilustrado por vários exemplos. A modificação de formulações estabelecidas de calcipotriol com DSPE‐PEG (1,2‐Distearoil‐sn‐glicero‐3‐fosfoetanolamina‐N‐polietilenoglicol), por exemplo, aumentou a estabilidade coloidal e a deposição do medicamento no estrato córneo, particularmente com vesículas unilamelares pequenas (SUVs).94 Diversas avaliações experimentais e clínicas adicionais foram conduzidas com sistemas lipossomais:
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Lipossomas catiônicos contendo ciclosporina reduziram citocinas pró‐inflamatórias (TNF‐α, IL‐17 e IL‐22) e melhoraram os sintomas clínicos.93
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Sistemas que incorporam ginsenosídeo Rg3 em microagulhas prolongaram a retenção cutânea e reduziram a inflamação e o espessamento epidérmico.70
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Formulações contendo omiganan demonstraram liberação controlada e melhor permeação, enquanto lipossomas manosilados contendo celastrol aumentaram a captação celular e exerceram efeito antimaturação em células dendríticas.93
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Lipossomas com glabridina e, separadamente, com a combinação de ibrutinibe‐curcumina reduziram a gravidade da psoríase e as citocinas inflamatórias de maneira dose‐dependente e exibiram perfil de segurança favorável.93
SLNs consistem em uma matriz lipídica sólida e biocompatível que pode incorporar fármacos, aumentando assim sua solubilidade, estabilidade, penetração cutânea e tempo de circulação, além de reduzir a degradação enzimática. Diversas formulações que utilizam esse nanocarreador demonstraram benefícios no tratamento tópico da psoríase. Por exemplo, SLNs contendo metotrexato demonstraram liberação controlada, maior permeação cutânea (≈ 80%), maior deposição dérmica e supressão da proliferação de queratinócitos, com eficácia superior em comparação com formulações convencionais. Quando aplicadas à ciclosporina, as SLNs promoveram liberação localizada e controlada na pele, aumentaram a biodisponibilidade e reduziram a citotoxicidade. Formulações de hidrogel contendo leflunomida melhoraram a fotoestabilidade e reduziram a irritação cutânea, enquanto SLNs carregadas com apremilaste proporcionaram liberação prolongada, maior retenção dérmica e alta internalização celular.95 Em conjunto, esse grupo de evidências sugere que as SLNs representam plataforma promissora para a administração tópica direcionada de agentes terapêuticos na psoríase, aumentando a eficácia e minimizando os efeitos adversos sistêmicos.
Os carreadores lipídicos nanoestruturados (NLCs)93 também foram investigados experimentalmente:
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Os NLCs contendo luteolina mostraram permeação aprimorada, liberação prolongada (36 horas) e reduções nos níveis de TNF‐α, IL‐6, IL‐17 e IL‐23 na pele e no sangue.
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Um nanogel combinando tacrolimo e timoquinona exibiu potencial terapêutico sinérgico e toxicidade reduzida.
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Os NLCs carregados com riluzol proporcionaram liberação prolongada, atividade não angiogênica e inibição da proliferação de queratinócitos.
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encapsulamento de canabidiol em NLCs aumentou a estabilidade química, reduziu a citotoxicidade e intensificou os efeitos anti‐inflamatórios.
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NLCs contendo tazaroteno e calcipotriol demonstraram liberação sustentada, absorção sistêmica mínima e eficácia antipsoriásica aprimorada.
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A coformulação de acetonido de fluocinolona e acitretina em NLCs reduziu os efeitos adversos e aumentou a deposição na pele em comparação com o gel convencional.
Assim, espera‐se que uma ampla gama de nanopartículas facilite a penetração de substâncias como corticosteroides, tacrolimo, fármacos de pequenas moléculas e vários outros agentes com potencial estabelecido no tratamento de dermatoses, possivelmente aumentando sua eficácia e reduzindo os efeitos adversos, particularmente a potencial toxicidade sistêmica, bem como os custos gerais para os sistemas de saúde e para os pacientes.
Outra área emergente e promissora é o uso da nanotecnologia no tratamento do câncer de pele. Nanopartículas de ouro funcionalizadas foram testadas em estudos clínicos para terapia fototérmica de carcinomas basocelulares e espinocelulares, aquecendo e destruindo seletivamente as células tumorais após ativação por laser infravermelho.96 Terapias genéticas usando nanocarreadores tópicos também estão surgindo; por exemplo, nanopartículas lipídicas carregadas com siRNAs anti‐IL‐17 e anti‐TNF‐α estão sendo avaliadas em pacientes com psoríase para modular a resposta imune local em lesões psoriásicas. Do mesmo modo, um complexo nanoparticulado carregando dois siRNAs mostrou resultados encorajadores em um ensaio de fase II para carcinoma basocelular cutâneo.97
Por fim, a cicatrização de feridas é um processo altamente orquestrado que engloba hemostasia, inflamação, proliferação e remodelação. A interrupção dessas fases, como observado em feridas crônicas, queimaduras ou cicatrizes pós‐cirúrgicas, leva a inflamação persistente, atividade excessiva de fibroblastos e deposição desorganizada de matriz extracelular, culminando em cicatrizes hipertróficas e queloides. Estratégias baseadas em nanotecnologia fornecem um conjunto de ferramentas promissor para modular esse microambiente, propiciando a administração localizada e sustentada de antimicrobianos, antioxidantes, fatores de crescimento e agentes antifibróticos. Curativos nanoestruturados, hidrogéis carregados com nanopartículas metálicas, estruturas biomiméticas e adesivos de microagulhas dissolúveis podem promover a reepitelização, controlar infecções e orientar a remodelação do colágeno, melhorando assim tanto a recuperação funcional quanto os resultados estéticos.14,69
Aspectos de segurança da nanotecnologia em princípios ativos tópicosDo ponto de vista translacional, a adoção clínica de produtos dermatológicos com nanotecnologia deve ir além da comprovação de eficácia do conceito, abordando a reprodutibilidade entre lotes, a robustez da fabricação e a efetividade. A classificação regulatória como cosmético, medicamento ou produto limítrofe influencia criticamente a profundidade dos dados de segurança e eficácia necessários, bem como as obrigações de rotulagem e vigilância pós‐comercialização. Estruturas harmonizadas que integrem a caracterização físico‐química, testes in vitro e in vivo, dados clínicos em humanos e registros do mundo real serão essenciais para garantir que os nano cosmecêuticos passem de protótipos promissores a ferramentas terapêuticas confiáveis e centradas no paciente.
Como a nanotecnologia possibilita maior permeação de ingredientes ativos, é imprescindível garantir sua segurança durante a absorção e avaliar sua toxicidade. A segurança da nanotecnologia em dermatologia depende de um dossiê de caracterização abrangente e de testes toxicológicos especificamente adaptados para nanomateriais. Os descritores essenciais incluem morfologia, estado de agregação, área de superfície, carga, solubilidade e revestimentos. Esses fatores determinam como as nanopartículas se comportam em formulações, interagem com a pele e afetam a biodisponibilidade. A caracterização físico‐química consistente e precisa é crucial para reduzir a variabilidade em estudos de segurança, conforme enfatizado por diretrizes recentes.98
Com relação à exposição cutânea, as evidências regulatórias são robustas para filtros inorgânicos de tamanho nanométrico usados em fotoproteção. Para o dióxido de titânio (TiO2, nano), o Comitê Científico de Segurança do Consumidor avaliou que seu uso como filtro UV em concentrações de até 25% na pele intacta é seguro. No entanto, recomenda‐se cautela na inalação em virtude dos potenciais riscos respiratórios. O óxido de zinco (ZnO, nano) é considerado semelhante; seu uso em protetores solares é considerado seguro, pois as partículas permanecem principalmente nas camadas superiores da pele e a absorção sistêmica é baixa. Revestimentos de superfície são recomendados para prevenir o estresse oxidativo. A estrutura regulatória europeia distingue entre segurança dérmica e por inalação e mantém requisitos rigorosos para revestimentos.99
Em relação aos nanocarreadores, como lipossomas, SLNs e sistemas poliméricos, a segurança depende principalmente dos excipientes e surfactantes, da carga superficial e do comportamento de liberação, e não da designação nano. Formulações bem elaboradas podem reduzir a irritação, fornecendo doses menores de ativos de maneira mais eficaz à epiderme. No entanto, existem riscos potenciais de retenção cutânea ou impurezas se a qualidade de fabricação for inadequada. A literatura sobre LNPs e sistemas lipídicos enfatiza a importância de testar a fototoxicidade, a sensibilização e a inflamação subclínica. Em última análise, o design e o controle de qualidade adequados podem mitigar ou amplificar os riscos potenciais.52
Por fim, as avaliações de risco devem unir a eficácia com cenários de exposição realistas. Filtros tópicos de tamanho nanométrico, por exemplo, não demonstraram evidências consistentes de absorção sistêmica clinicamente relevante em condições padrão ou carcinogenicidade quando formulados adequadamente. Seus benefícios cosméticos e de proteção são claros, desde que a integridade do produto seja mantida. Além dos filtros UV, as aplicações antienvelhecimento e cosmecêuticas exigem programas de segurança que considerem populações de pele vulneráveis, avaliem partículas livres e ligadas à matriz e incluam ensaios clínicos com foco em marcadores de irritação, sensibilização e inflamação.100,101
Avaliação crítica das tecnologiasO uso de nanocápsulas é agora uma realidade para dermatologistas, que, como prescritores e pesquisadores, desempenham papel central na avaliação crítica dessas formulações. Eles devem compreender os parâmetros físico‐químicos, os métodos de caracterização e as limitações de segurança antes de incorporar tais produtos à prática clínica. Diversas opções estão sendo desenvolvidas e demonstram potencial experimental substancial para uso clínico em dermatoses; no entanto, lacunas significantes ainda precisam ser abordadas.
Descrevemos aqui recomendações importantes para a avaliação de produtos que utilizam nanopartículas, incluindo:
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Metodologia e reprodutibilidade dos estudos: recomenda‐se que os relatórios incluam tamanho de partícula, índice de polidispersão, potencial zeta (medida do grau de repulsão eletrostática entre partículas carregadas em suspensão), eficiência de encapsulação, perfil de liberação, estabilidade acelerada e métodos para quantificar a deposição cutânea (p. ex., remoção de fita adesiva, microdiálise).
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Ensaios clínicos: devem‐se priorizar comparadores ativos, desfechos clinicamente relevantes além da tolerabilidade e qualidade de vida, análises de custo‐efetividade e segurança em longo prazo, com registro prévio do ensaio e transparência em relação a dados negativos para mitigar vieses.
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Regulamentação e rotulagem: é necessária a harmonização dos critérios para a rotulagem de produtos “nano”, com informações claras para consumidores e profissionais; as diretrizes da FDA e as iniciativas da Anvisa para avaliação de risco e biopersistência devem ser consideradas.
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Bancos de dados e rastreabilidade: a criação de registros nacionais e internacionais para monitorar eventos adversos e a eficácia clínica de produtos nanoestruturados é recomendável para fortalecer a farmacovigilância.
Os autores reconhecem a importância de avaliar criticamente a qualidade de cada estudo individualmente. No entanto, a vasta e heterogênea literatura, que abrange desde experimentos pré‐clínicos até ensaios clínicos, apresenta desafios significantes para a avaliação padronizada em um único manuscrito. Uma avaliação formal estudo por estudo exigiria uma revisão sistemática, o que não era o objetivo deste artigo. Em vez disso, esta abordagem narrativa identifica padrões abrangentes e lacunas translacionais, servindo como base para futuras avaliações sistemáticas de questões específicas em nanodermatologia.
A última década consolidou a nanodermatologia clínica, com estudos de prova de conceito bem‐sucedidos demonstrando maior eficácia terapêutica e redução de efeitos adversos. Áreas promissoras incluem a combinação de nanocarreadores com terapias já estabelecidas e o desenvolvimento de nanotecnologias biofuncionais capazes de responder a estímulos do microambiente cutâneo para a liberação controlada de fármacos. Apesar dos avanços, desafios persistem, como a segurança em longo prazo das nanopartículas, a escalabilidade industrial e a necessidade de ensaios multicêntricos de maior porte. Não obstante, a nanomedicina cutânea apresenta perspectiva promissora para o avanço do tratamento dermatológico, particularmente para doenças crônicas e refratárias. O desenvolvimento de sistemas responsivos a estímulos, projetados para modular a liberação de medicamentos com base em sinais fisiológicos, representa um avanço em direção a terapias cutâneas mais personalizadas e precisas.
Apenas um número limitado de formulações com nanotecnologia foi submetido à avaliação sistemática em ensaios clínicos em humanos; a maioria dos estudos permanece pequena, de centro único e exploratória. Os produtos mais bem caracterizados incluem sistemas lipossomais e vesiculares para dermatoses inflamatórias, filtros UV inorgânicos, hidratantes nanoestruturados e formulações de nanoemulsão para distúrbios pigmentares, demonstrando eficácia e tolerabilidade favoráveis. No entanto, a heterogeneidade no desenho dos ensaios, os curtos períodos de seguimento e a ausência de comparadores ativos limitam a força das conclusões e impedem comparações robustas com os padrões atuais de tratamento, conforme discutido acima. Pesquisas futuras devem priorizar ensaios randomizados multicêntricos com poder estatístico adequado e desfechos padronizados, incluindo escores de gravidade da doença, medidas baseadas em imagens e índices de qualidade de vida, juntamente com monitoramento de segurança em longo prazo. Essa base de evidências é essencial para apoiar a incorporação racional de nanoformulações na prática rotineira e distinguir as vantagens terapêuticas das alegações motivadas pelo marketing.
O desenvolvimento contínuo de nanopartículas com propriedades físico‐químicas aprimoradas e maior capacidade de carga está expandindo as possibilidades terapêuticas e cosméticas, contribuindo para a prática dermatológica mais racional, eficaz e economicamente sustentável. Essas plataformas propiciam a administração precisa e multifuncional de medicamentos, terapias potencialmente mais seguras, eficazes e personalizadas, adequadas para tipos de pele sensíveis. No entanto, a compreensão mais profunda das interações entre nanomateriais e pele, bem como dos efeitos dos metabólitos e resíduos na saúde humana e no meio ambiente, continua sendo essencial. O papel da nanotecnologia na dermatologia moderna está bem estabelecido, desde que seja acompanhado por rigor metodológico, vigilância contínua da segurança e regulamentação transparente. Espera‐se que os avanços em inteligência artificial e dermatologia digital acelerem o design racional e a otimização clínica de terapias com nanotecnologia, integrando imagens da pele, dados ômicos e resultados relatados pelos pacientes para adaptar as formulações às necessidades individuais.
ORCID IDClarissa Prati Bernardi Cogo: 0000‐0002‐7279‐1126
Mayra Ianhez: 0000‐0003‐3604‐3128
Renata Bertino: 0009‐0008‐6887‐7956
Anderson Alves Costa: 0000‐0003‐0504‐2472
Adilson Costa: 0000‐0003‐0873‐6840
Declaração sobre IA generativa na escrita científicaDurante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram o ChatGPT 5.2 para auxiliar na edição do texto em inglês. Após a utilização dessa ferramenta, os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem total responsabilidade pelo conteúdo do artigo publicado.
Suporte financeiroOs autores receberam apoio financeiro da Lecieza Dermocosméticos para a elaboração deste manuscrito. A Lecieza Dermocosméticos não teve qualquer participação no desenho do estudo, na coleta de dados, na análise ou na preparação do manuscrito. CNPq (306358/2022‐0) – Hélio Amante Miot é bolsista de pesquisa do CNPq.
Contribuição dos autoresClarissa Prati: Elaboração e redação do manuscrito; preparação de figuras ilustrativas; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Mayra Ianhez: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Renata Bertino: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Anderson Costa: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Adilson Costa: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Hélio Amante Miot: Elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaTodo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Conflito de interessesClarissa Prati: Conselho Consultivo – Johnson & Johnson, Sanofi, UCB‐Biopharma, AbbVie, Megalabs, Novartis, Lecieza; Palestrante – Johnson & Johnson, Sanofi, UCB‐Biopharma, AbbVie, Megalabs, Novartis, Pierre‐Fabre, Boehringer‐Ingelheim, Libbs, Cristália, Mantecorp, Leo Pharma, Lilly, Lecieza; Pesquisa Clínica – Sanofi, Pierre‐Fabre, Lilly, Celldex.
Mayra Ianhez: Conselho Consultivo – Galderma, Sanofi, Pfizer, Novartis, AbbVie, Johnson & Johnson, UCB‐Biopharma, Boehringer‐Ingelheim; Palestrante – Galderma, Sanofi, Pfizer, Theraskin, Novartis, AbbVie, Janssen, Leo Pharma, FQM.
Renata Bertino: Nenhum conflito de interesses foi declarado.
Anderson Alves Costa: Conselho Consultivo – Lilly, Johnson & Johnson, Novartis, Pfizer; Palestrante – AbbVie, Eli Lilly, Janssen, Novartis, Pfizer, Sanofi e UCB Pharma.
Adilson Costa: Nenhum conflito de interesses foi declarado.
Hélio Miot: Conselho Consultivo – Johnson & Johnson, L’Oréal, Theraskin, Sanofi, Pfizer; Pesquisa clínica – AbbVie, Pierre‐Fabre, Galderma, Eucerin, Theraskin, Merz.
EditorJane Tomimori
Como citar este artigo: Cogo CPB, Ianhez M, Bertino R, Costa AA, Costa A, Miot HA. Nanotechnology in dermatologic therapy: clinical advances and emerging translational perspectives over the past decade. An Bras Dermatol. 2026;101. https://doi.org/10.1016/j.abd.2026.501427
Trabalho realizado no Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil; Hospital São Lucas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil; Hospital Ipiranga, São Paulo, SP, Brasil; Instituto de Educação Médica (Città), Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, RJ, Brasil; Hospital de Doenças Tropicais de Goiás, Goiânia, GO, Brasil; Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual, São Paulo, SP, Brasil.











