Hidradenite supurativa (HS) é doença inflamatória crônica caracterizada por nódulos dolorosos, abscessos e túneis de drenagem que afetam regiões com glândulas apócrinas, frequentemente resultando em cicatrizes e comprometimento substancial da qualidade de vida.1,2 Embora a estratificação com base no genótipo possa, teoricamente, informar um prognóstico individualizado, a falta de biomarcadores validados e as correlações inconsistentes entre genótipo e fenótipo limitam sua aplicabilidade na prática diária. A avaliação com base no fenótipo clinicamente definido, portanto, permanece a estratégia mais pragmática para avaliar a gravidade e orientar o tratamento.3 Diversos modelos fenotípicos foram propostos, incluindo agrupamento anatômico e subtipos com base em lesões ou impulsionados por comorbidades; entretanto, não há consenso, e padrões topográficos pouco reconhecidos podem fornecer informações clinicamente significantes.3–5
Entre eles, a lesão da fenda interglútea (LFI), fissura ou ulceração na linha média com fibrose, cicatrizes e drenagem (fig. 1), é um desses padrões, raramente descrito na literatura e frequentemente classificado erroneamente como doença do seio pilonidal (DSP). Dada a associação estabelecida entre hidradenite supurativa e doença inflamatória intestinal (DII), particularmente doença de Crohn (DC),6 buscou‐se explorar se a presença de LFI tem relevância clínica nesse contexto.
(A) Ulceração linear com inflamação circundante em paciente com hidradenite supurativa estágio III de Hurley e envolvimento glúteo extenso. (B) Lesões nodulares e abscessos na prega interglútea, compatíveis com atividade inflamatória grave. (C) Cicatrizes fibróticas e fissuras ao longo da linha média, sugestivas de doença crônica e remodelação estrutural. (D) Ulceração superficial e pápulas confinadas à prega interglútea, em paciente sem outras doenças de oclusão folicular.
Foi realizado estudo observacional transversal para avaliar se a LFI representa padrão clínico distinto associado a HS mais grave ou envolvimento sistêmico. Foram avaliados 119 pacientes consecutivos com HS confirmada em um centro terciário de dermatologia no Brasil. A avaliação padronizada incluiu dados demográficos e clínicos, comorbidades, duração da doença, número de regiões afetadas, histórico de hospitalizações e cirurgias relacionadas à HS e terapias sistêmicas. A atividade da doença foi avaliada usando o sistema Hurley e o International HS Severity Score System (IHS4). Em dez casos de LFI, biópsias por punch foram realizadas para caracterização histopatológica. Análises comparativas foram conduzidas entre pacientes com e sem LFI, e a regressão logística identificou preditores independentes de LFI e de desfechos desfavoráveis, definidos como a presença de ≥ 2 dos seguintes: Hurley III, IHS4 ≥ 11, hospitalização decorrente de HS ou necessidade de múltiplas terapias sistêmicas.
LFI foi observada em 18 de 119 pacientes (15,1%). Os pacientes com LFI eram mais frequentemente do sexo masculino (72,2% vs. 30,7%; p=0,002) e apresentavam prevalência acentuadamente maior de DC (16,7% vs. 2,0%; p=0,024; tabela 1). A duração da doença e o IMC não diferiram significantemente entre os grupos. No entanto, a LFI foi associada a carga de doença substancialmente maior: os escores médios do IHS4 foram mais que o dobro dos pacientes sem LFI (16,0 vs. 7,03; p<0,001), os túneis de drenagem foram mais comuns (88,9% vs. 50,5%; p=0,006) e o número de regiões anatômicas afetadas foi maior (3,39 vs. 2,34; p <0,001; tabela 2). Pacientes com LFI também necessitaram de terapia biológica com mais frequência e apresentaram número significantemente maior de hospitalizações relacionadas à HS nos cinco anos anteriores (55,6% vs. 12,0%; p <0,001). Embora o estágio III de Hurley tenha sido numericamente mais prevalente, a falta de significância estatística sugere que a LFI identifica dimensões de gravidade não totalmente capturadas pelo estadiamento tradicional.
Características clínicas e demográficas de pacientes com e sem lesão de fenda interglútea
| Variável | Lesão de fenda interglútea | p‐valor | Total (n) | |
| Não (n=101) | Sim (n=18) | |||
| Idade, anos, média (DP) | 32.8 (13.7) | 34.5 (14.3) | 0.650 | 119 |
| IMC, kg/m2, média (DP) | 32.1 (6.6) | 30.4 (8.4) | 0.191 | 119 |
| Sexo, n (%): | 0.002 | 119 | ||
| Feminino | 70 (69.3%) | 5 (27.8%) | ||
| Masculino | 31 (30.7%) | 13 (72.2%) | ||
| Tabagismo, n (%): | 0.150 | 119 | ||
| Ex‐fumante | 14 (13.9%) | 2 (11.1%) | ||
| Fumante passivo | 16 (15.8%) | 1 (5.56%) | ||
| Fumante atual | 19 (18.8%) | 8 (44.4%) | ||
| Não fumante | 52 (51.5%) | 7 (38.9%) | ||
| Oclusão folicular, n (%): | 0.493 | 119 | ||
| Ausente | 67 (66.3%) | 14 (77.8%) | ||
| Presente | 34 (33.7%) | 4 (22.2%) | ||
| Doença de Crohn, n (%): | 0.024 | 119 | ||
| Ausente | 99 (98.0%) | 15 (83.3%) | ||
| Presente | 2 (1.98%) | 3 (16.7%) | ||
Todas as variáveis clínicas binárias são expressas como “Presente” ou “Ausente”. As porcentagens são calculadas com base no número total de pacientes em cada grupo. Os dados são apresentados como média (desvio‐padrão), mediana [intervalo] ou número (porcentagem), como apropriado. As comparações foram realizadas utilizando o teste U de Mann‐Whitney para variáveis contínuas e o teste de Qui‐quadrado para variáveis categóricas.
IMC, índice de massa corporal.
Marcadores de gravidade da doença em pacientes com e sem lesão de fenda interglútea
| Variável | Lesão da fenda interglútea | p‐valor | Total (n) | |
| Não (n=101) | Sim (n=18) | |||
| Duração da doença, anos, média (DP) | 10.3 (8.58) | 9.11 (5.99) | 0.470 | 119 |
| Número de terapias biológicas recebidas, média (DP) | 0.63 (0.60) | 1.06 (0.73) | 0.030 | 119 |
| Número de locais anatômicos afetados, média (DP) | 2.34 (0.89) | 3.39 (0.98) | <0.001 | 119 |
| Escore IHS4a, média (DP) | 7.03 (6.55) | 16.0 (7.32) | <0.001 | 97 |
| Estágio de Hurley, n (%): | 0.071 | 119 | ||
| 1 | 8 (7.92%) | 0 (0.00%) | ||
| 2 | 24 (23.8%) | 1 (5.56%) | ||
| 3 | 69 (68.3%) | 17 (94.4%) | ||
| Nódulos inflamatórios, n (%): | 0.054 | 119 | ||
| Ausente | 38 (37.6%) | 2 (11.1%) | ||
| Presente | 63 (62.4%) | 16 (88.9%) | ||
| Abscessos, n (%): | <0.001 | 119 | ||
| Ausente | 93 (92.1%) | 10 (55.6%) | ||
| Presente | 8 (7.92%) | 8 (44.4%) | ||
| Túneis drenantes, n (%): | 0.006 | 119 | ||
| Ausente | 50 (49.5%) | 2 (11.1%) | ||
| Presente | 51 (50.5%) | 16 (88.9%) | ||
| Gravidade no IHS4, n (%): | <0.001 | 119 | ||
| 0‐3 (leve) | 48 (47.5%) | 2 (11.1%) | ||
| 4‐10 (moderado) | 36 (35.6%) | 2 (11.1%) | ||
| ≥ 11 (grave) | 17 (16.8%) | 14 (77.8%) | ||
| Terapia biológica atual, n (%): | 0.064 | 119 | ||
| Adalimumabe | 48 (47.5%) | 11 (61.1%) | ||
| Infliximabe | 1 (0.99%) | 1 (5.56%) | ||
| Secuquinumabe | 4 (3.96%) | 2 (11.1%) | ||
| Nenhuma | 48 (47.5%) | 4 (22.2%) | ||
| Hospitalização (últimos 5 anos), n (%): | <0.001 | 118 | ||
| Ausente | 88 (88.0%) | 8 (44.4%) | ||
| Presente | 12 (12.0%) | 10 (55.6%) | ||
| Cirurgias relacionadas à HS, n (%): | 0.150 | 119 | ||
| Ausente | 31 (30.7%) | 2 (11.1%) | ||
| Presente | 70 (69.3%) | 16 (88.9%) | ||
O IHS4 foi calculado usando a fórmula: (número de nódulos)×1+(número de abscessos)×2+(número de túneis drenantes)×4. Todas as variáveis clínicas binárias são expressas como “Presente” ou “Ausente”. Os dados são apresentados como média (desvio‐padrão) ou número (percentagem), salvo indicação em contrário. As comparações foram realizadas utilizando o teste U de Mann‐Whitney para variáveis contínuas e o teste do Qui‐quadrado para variáveis categóricas.
IHS4, International Hidradenitis Suppurativa Severity Score System.
O exame histopatológico demonstrou inflamação crônica, tecido de granulação e fibrose, sem trajetos epitelizados ou pelos encravados típicos da DSP, e sem inflamação granulomatosa sugestiva de DC. Ocasionalmente, observou‐se crescimento anaeróbico ou fúngico, provavelmente refletindo colonização secundária. Clinicamente, a maioria das LFIs era refratária: 66,7% apresentaram apenas melhora parcial e 27,8% nenhuma melhora, apesar da terapia sistêmica, predominantemente com adalimumabe.
A análise multivariada identificou sexo masculino (OR=11,09; p <0,001), DC (OR=66,41; p=0,004), idade mais avançada (OR=1,04 por ano; p=0,032) e cirurgia relacionada à HS (OR=14,52; p=0,031) como preditores independentes de LFI. Por outro lado, a presença de síndromes de oclusão folicular foi associada a menores chances (OR=0,23; p=0,041), sugerindo divergência parcial dos fenótipos dominantes de oclusão folicular (tabela 3). É importante ressaltar que a LFI conferiu probabilidade oito vezes maior de desfechos clínicos desfavoráveis (OR=8,37; p=0,043), mesmo após ajuste para variáveis demográficas e clínicas.
Regressão logística multivariada: preditores independentes de lesão da fenda interglútea
| Variável | Análise univariada | Análise multivariada | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| OR | IC95% (inferior) | IC95% (superior) | p‐valor | OR | IC95% (inferior) | IC95% (superior) | p‐valor | |
| Idade, anos | 1,01 | 0,97 | 1,05 | 0,654 | 1,04 | 1,00 | 1,08 | 0,032 |
| Sexo: | ||||||||
| Masculino | 6,07 | 2,09 | 20,32 | 0,002 | 11,09 | 3,18 | 47,40 | <0,001 |
| Doença de Crohn: | ||||||||
| Presente | 9,80 | 1,51 | 79,23 | 0,017 | 66,41 | 4,51 | 1975 | 0,004 |
| Oclusão folicular: | ||||||||
| Presente | 0,58 | 0,16 | 1,77 | 0,368 | 0,23 | 0,05 | 0,86 | 0,041 |
| Cirurgias relacionadas à HS: | ||||||||
| Presente | 3,43 | 0,90 | 22,54 | 0,115 | 14,52 | 2,02 | 370,61 | 0,031 |
Os dados são apresentados como razões de chances (OR) com intervalos de confiança (IC) de 95%, com base em modelos de regressão logística univariada e multivariada. Variáveis com p <0,10 na análise univariada foram incluídas no modelo multivariado.
HS, hidradenite supurativa; OR, razão de chances; IC, intervalo de confiança.
Esses achados identificam a LFI como potencial marcador clínico de gravidade da doença na HS, associada a maior carga inflamatória, desfechos adversos e envolvimento sistêmico. A HS é doença heterogênea com diversos endótipos clínicos, e a estratificação com base em fenótipos clinicamente definidos tem ganhado destaque como ferramenta para identificar pacientes com risco de doença refratária ou complicações.4,5 Os presentes resultados estão alinhados com os fenótipos clínicos existentes focados na região glútea descritos na literatura, como o subtipo “LC3” descrito por Canoui‐Poitrine et al.7 e a variante “fistulosa” descrita por Riera‐Martí,8 ambos caracterizados por túneis drenantes e comportamento agressivo. A associação entre LFI e a ausência de síndromes de oclusão folicular sugere padrão mais inflamatório e menos responsivo a terapias direcionadas à queratinização.
Os marcadores de gravidade consistentemente mais elevados observados na LFI – IHS4 elevado, predominância de túneis, maior utilização de serviços de saúde – apoiam seu papel como marcador visível de HS avançada e resistente ao tratamento. A tunelização, característica frequente da LFI, já foi associada à cronicidade e refratariedade, reforçando a necessidade de reconhecimento precoce antes do desenvolvimento de fibrose irreversível.9
Uma observação marcante neste estudo foi a forte associação independente entre LFI e DC. Dada a coexistência bem estabelecida de HS e DII,6 este estudo teve como objetivo avaliar se a presença de LFI está clinicamente associada à DC. A prevalência desproporcional de DC entre pacientes com LFI sugere que essa lesão pode funcionar como marcador clínico associado à carga inflamatória sistêmica na HS. Dadas as dificuldades clínicas em distinguir a DC perianal da HS glútea,10 o reconhecimento da LFI pode apoiar a avaliação gastrintestinal mais precoce.
A refratariedade terapêutica reforça ainda mais a necessidade de intervenções direcionadas e oportunas, potencialmente além das estratégias anti‐TNF atuais, conforme sugerido por relatos isolados de eficácia da via IL‐17 na doença glútea.11
Este estudo apresenta limitações, incluindo pequeno tamanho amostral, recrutamento em um único centro e desenho transversal que impede determinar se a LFI precede ou resulta de HS grave. No entanto, a magnitude e a coerência das associações observadas apoiam a relevância clínica dessa lesão pouco estudada.
Em conclusão, a LFI parece ser marcador clínico de fácil identificação e alto rendimento associado à forma grave e potencialmente sistêmica de HS. Seu reconhecimento pode levar à escalada terapêutica mais precoce, manejo multidisciplinar e rastreamento direcionado para DII. À medida que a dermatologia de precisão avança na HS, a incorporação de pistas clínicas pouco reconhecidas, como a LFI, pode melhorar o prognóstico e otimizar o cuidado ao paciente.
ORCID IDAriany Tomaz de Aquino Saran Denofre: 0000‐0001‐6476‐5107
Juliana Yumi Massuda Serrano: 0000‐0002‐5221‐2385
Renata Ferreira Magalhães: 0000‐0001‐9170‐932X
Declaração de éticaOs pacientes deste manuscrito deram consentimento livre e esclarecido por escrito para a publicação dos detalhes de seus casos. Este estudo foi revisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 26 de março de 2024, sob o número de aprovação 77223323.1.0000.5404.
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresLuciana Vilela Gomide: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Ariany Tomaz de Aquino Saran Denofre: Revisão crítica do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Juliana Yumi Massuda Serrano: Revisão crítica do manuscrito; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Renata Ferreira Magalhães: Concepção e planejamento do estudo; revisão crítica do manuscrito; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaTodo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Conflito de interessesNenhum.
EditorHiram Larangeira de Almeida Jr.
Como citar este artigo: Gomide LV, Denofre ATAS, Serrano JYM, Magalhães RF. The intergluteal cleft lesion in hidradenitis suppurativa: clinical characteristics and potential clinical implications. An Bras Dermatol. 2026;101:501402.
Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.




