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Vol. 101. Issue 3.
(May - June 2026)
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(May - June 2026)
Cartas ‐ Investigação
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Desfechos diferenciais do melanoma em homens e mulheres: achados longitudinais de um estudo de dez anos

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Natália Martins Sampaioa,b, Flávio Wellington Martins Cruza,b, Sebastião Maurício de Oliveira Castroa, Ana Carolina Ribeiro de Oliveiraa, Patrícia Rocha Martinsa,b, Fabrizio dos Santos Cardosoa,c, Sérgio Gomes da Silvaa,d,e, João Pereira Duprat Netof, Alice Muglia Amancioa,
Corresponding author
alice.amancio@fcv.org.br

Autor para correspondência.
a Departamento de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, Hospital do Câncer de Muriaé, Fundação Cristiano Varella, Muriaé, MG, Brasil
b Curso de Medicina, Centro Universitário FAMINAS, Muriaé, MG, Brasil
c Centro de Estudos, Hospital São Vicente de Paulo, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, Brasil
d Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
e Curso de Medicina, Afya Centro Universitário Itaperuna, Itaperuna, RJ, Brasil
f Departamento de Câncer de Pele, A.C. Camargo Cancer Center, São Paulo, SP, Brasil
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Tabela 1. Características clínicas do melanoma cutâneo em homens e mulheres do Sudeste do Brasil
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Prezado Editor,

O melanoma cutâneo é neoplasia agressiva que se origina dos melanócitos e é responsável pela maioria das mortes relacionadas ao câncer de pele. Embora represente apenas 4% dos tumores de pele, é responsável por até 75% da mortalidade por câncer de pele em virtude de seu alto potencial metastático.1 A incidência global tem aumentado constantemente, com 331.647 novos casos estimados em 2022, refletindo 1,7% de todos os cânceres.2 Embora os melanomas em estágio inicial tenham prognóstico favorável, os casos avançados com maior espessura de Breslow e ulceração estão associados a resultados ruins.3

Vários fatores de risco influenciam o desenvolvimento do melanoma, incluindo exposição aos raios UV, pele clara e predisposição genética.4 Outro fator de risco bem estabelecido é o número de nevos melanocíticos, que está associado independentemente ao risco de melanoma.4 Diferenças de gênero nos resultados do melanoma foram observadas, com mulheres apresentando‐se em estágios mais precoces e tendo taxas de sobrevida melhores do que os homens.5,6 No entanto, essas disparidades permanecem pouco exploradas em populações latino‐americanas. Este estudo teve como objetivo investigar as diferenças relacionadas ao gênero na apresentação clínica e na sobrevida de pacientes com melanoma tratados em um centro de referência no Sudeste do Brasil durante um período de dez anos.

Neste estudo, foram coletados retrospectivamente dados epidemiológicos, clínicos e histopatológicos de pacientes diagnosticados com melanoma cutâneo (MC) em um hospital de referência em câncer no Sudeste do Brasil. A pesquisa teve início após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa local (CAAE n° 55961622.6.0000.5105).

A presente análise incluiu pacientes diagnosticados entre janeiro de 2010 e dezembro de 2020. Os dados clínicos, incluindo idade, sexo, nível socioeconômico, localização do tumor, estadiamento e subtipo histológico do tumor, foram extraídos dos prontuários eletrônicos. As informações sobre mortalidade dos pacientes foram obtidas por meio de busca ativa, que envolveu familiares e bancos de dados federais. Dos 317 casos diagnosticados, 46 foram excluídos por registros incompletos ou impossibilidade de contato com os pacientes ou familiares para seguimento.

Os dados foram analisados utilizando estatística descritiva, com os resultados apresentados como frequências absolutas e relativas (%). As variáveis quantitativas foram resumidas utilizando a mediana e o intervalo interquartil. As variáveis categóricas foram comparadas utilizando o teste qui‐quadrado ou o teste exato de Fisher, conforme apropriado, com nível de significância definido em 5% (p<0,05). A ANOVA avaliou as diferenças entre os grupos, seguida pelo teste post hoc de Tukey. O teste t avaliou as diferenças médias de idade entre os sexos. Todas as análises foram realizadas utilizando o software R versão 4.2.2 (R CORE TEAM, 2022).

Foram identificados 317 casos de melanoma cutâneo no Sudeste do Brasil entre 2010 e 2020, dos quais 46 foram excluídos da análise em virtude de prontuários médicos incompletos. A coorte era composta por 136 homens e 135 mulheres (n=271), com média de idade de 63 anos. As mulheres foram diagnosticadas significantemente mais jovens do que os homens (57,4 vs. 64,5 anos; p=0,0002; fig. 1).

Figura 1.

Idade ao diagnóstico de melanoma em homens e mulheres. A figura ilustra a distribuição da idade ao diagnóstico por sexo; as mulheres foram diagnosticadas em idade mais jovem (57,41 anos, EP=1,38) em comparação com os homens (64,47 anos, EP=1,23; p=0,0002).

Em relação ao estadiamento da doença, as mulheres foram diagnosticadas com mais frequência em estágios iniciais (0–II), enquanto os homens apresentaram maior prevalência de doença avançada (III–IV; p=0,044). O subtipo histológico não foi especificado na maioria dos casos (54,2%), seguido por melanoma de disseminação superficial (21,8%), sem diferenças significantes entre os sexos. Os locais anatômicos mais comuns foram os membros (39,1%), seguidos pelo tronco (29,5%) e pela face (19,2%), também sem diferenças entre os sexos (p=0,411).

Diferenças significantes foram observadas nos hábitos de vida: os homens relataram taxas mais altas de uso de tabaco (36,8% vs. 12,5%) e consumo de álcool (38,9% vs. 10,3%) em comparação com as mulheres (p <0,001 para ambos). Não houve diferenças significantes no histórico familiar de câncer entre os sexos (p=0,253). A maior espessura de Breslow observada nos homens nessa coorte reforça essa tendência, sugerindo que componentes biológicos e comportamentais influenciam esses resultados.

As mulheres foram diagnosticadas com mais frequência antes dos 50 anos e em estágios mais precoces, possivelmente pelo maior comportamento de busca por saúde e maior envolvimento em autoexames da pele, conforme descrito na literatura.7 Em contraste, os homens relataram taxas mais altas de uso de álcool e tabaco – fatores ligados à função imunológica prejudicada e pior progressão.8

Em termos de tratamento, a maioria dos pacientes foi submetida apenas à cirurgia (61,3%), enquanto 15,5% receberam modalidades combinadas, como cirurgia mais quimioterapia ou imunoterapia. Uma proporção menor recebeu apenas quimioterapia (4,4%), radioterapia (1,5%) ou apenas imunoterapia (1,5%). Nenhum tratamento – geralmente paliativo – foi registrado em 15,9% dos pacientes. Não houve diferenças significantes no tipo de tratamento entre homens e mulheres (p=0,238; tabela 1).

Tabela 1.

Características clínicas do melanoma cutâneo em homens e mulheres do Sudeste do Brasil

Variável  Homens (%)  Mulheres (%)  Total (%)  p‐valor 
Estágio        0,044* 
10 (7,4%)  18 (13,3%)  28 (10,3%)   
17 (12,5%)  35 (25,9%)  52 (19,2%)   
II  33 (24,3%)  26 (19,3%)  59 (21,8%)   
III  28 (20,6%)  25 (18,5%)  53 (19,6%)   
IV  30 (22,1%)  24 (17,8%)  54 (19,9%)   
Desconhecido*  18 (13,2%)  07 (5,2%)  25 (9,2%)   
Localização primária        0,411 
Membros  54 (39,7%)  52 (38,5%)  106 (39,1%)   
Tronco  35 (25,7%)  45 (33,3%)  80 (29,5%)   
Face  30 (22,0%)  22 (16,3%)  52 (19,2%)   
Pescoço e couro cabeludo  10 (7,3%)  13 (9,6%)  23 (8,4%)   
Outro  7 (5,1%)  3 (2,2%)  10 (3,6%)   
Etilismo        <0,001* 
Ex‐usuário  21 (15,4%)  6 (4,4%)  27 (10,0%)   
Usuário atual  32 (23,5%)  8 (5,9%)  40 (14,8%)   
Não  50 (36,8%)  76 (56,3%)  126 (46,5%)   
Desconhecido  33 (24,3%)  45 (33,3%)  78 (28,8%)   
Tabagismo        <0,001* 
Ex‐usuário  34 (25,0%)  6 (4,4%)  40 (14,8%)   
Usuário atual  16 (11,8%)  11 (8,1%)  27 (10,0%)   
Não  62 (45,6%)  76 (56,3%)  138 (50,9%)   
Desconhecido  24 (17,6%)  42 (31,1%)  66 (24,4%)   
História familiar        0,253 
Sim  46 (33,8%)  43 (31,9%)  89 (32,8%)   
Não  44 (32,4%)  27 (20,0%)  71 (26,2%)   
Desconhecido  46 (33,8%)  65 (48,1%)  111 (41,0%)   
Tratamento        0,238 
Somente cirurgia  77 (28,4%)  89 (32,8%)  166 (61,3%)   
Somente quimioterapia  06 (2,2%)  06 (2,2%)  12 (4,4%)   
Somente radioterapia  02 (0,7%)  02 (0,7%)  04 (1,5%)   
Imunoterapia  01 (0,4%)  03 (1,1%)  04 (1,5%)   
Tratamento combinado  28 (10,3%)  14 (5,2%)  42 (15,5%)   
Sem tratamento (paliativo)  22 (8,1%)  21 (7,8%)  43 (15,9%)   

Na análise de sobrevida (seguimento médio: 36 meses), piores resultados foram observados em pacientes com espessura de Breslow ≥ 2mm, nível de Clark >III e estágios avançados da doença (p <0,001). A sobrevida em cinco anos foi maior entre as mulheres (75%) em comparação com os homens (50%; p <0,001; fig. 2). Esse achado é consistente com relatos anteriores que mostram que os homens são diagnosticados mais tarde e têm pior prognóstico, mesmo controlando o estágio do tumor.5,6

Figura 2.

Análise de sobrevida de pacientes com melanoma no Sudeste do Brasil de acordo com (A) nível de Clark, (B) profundidade de Breslow, (C) estadiamento da doença e (D) sexo.

Apesar de não haver diferenças significantes entre os sexos na localização do tumor ou no tratamento, a sobrevida permaneceu menor entre os homens, indicando que fatores anatômicos ou terapêuticos isoladamente não explicam essa disparidade. Conforme corroborado por estudos anteriores, diferenças biológicas na resposta imune ou influência hormonal podem contribuir para o comportamento da doença específico ao sexo.5

O presente estudo também reforça a relevância do contexto regional. Muitos pacientes na presente coorte vieram de áreas rurais, onde o acesso a cuidados dermatológicos é limitado e a exposição solar é crônica, particularmente entre trabalhadores agrícolas.9 Essas condições podem contribuir para diagnósticos tardios e prognósticos piores, especialmente em homens. Campanhas de conscientização direcionadas à população masculina rural podem ajudar a reduzir essa lacuna.

Embora a maioria dos pacientes tenha sido submetida a tratamento cirúrgico, terapias avançadas, como imunoterapia, foram raramente utilizadas. Durante o período do estudo (2010–2020), o uso de imunoterapia ainda era incipiente no Brasil, o que explica sua rara aplicação nesta coorte. Além disso, a maioria dos pacientes foi tratada no Sistema Único de Saúde (SUS), em que o acesso a medicamentos de alto custo permanece restrito. Embora combinações como nivolumabe e ipilimumabe tenham demonstrado benefícios de sobrevida em doenças metastáticas,10 barreiras socioeconômicas provavelmente limitam o acesso em serviços públicos de saúde, ressaltando a importância da prevenção e da detecção precoce.

O presente estudo apresenta limitações. Seu desenho retrospectivo pode introduzir viés, e o período de seguimento relativamente curto (mediana de 36 meses) limita a avaliação da sobrevida em longo prazo. Registros médicos incompletos também levaram à exclusão de casos, o que também pode ter influenciado os resultados. O presente conjunto de dados não incluiu informações sobre comportamentos de autocuidado, como autoexame da pele ou padrões de busca por assistência médica, que poderiam ajudar a explicar as diferenças no diagnóstico de estágio entre os sexos.

Outra limitação deste estudo é a alta proporção de casos sem um subtipo histológico especificado, o que pode ter subestimado a prevalência de melanoma lentiginoso maligno. Além disso, o agrupamento de estágios iniciais (I–II) e avançados (III–IV) para análise pode ter mascarado comportamentos prognósticos distintos entre os estágios individuais.

Os presentes resultados demonstram disparidades significantes entre os sexos nos desfechos do melanoma, com homens apresentando a doença em idades mais avançadas, com tumores mais espessos e em estágios mais avançados, o que leva a menor sobrevida. Em conjunto, os presentes dados corroboram a compreensão multifatorial das disparidades entre os sexos no melanoma, moldadas por características biológicas, padrões comportamentais, acesso à saúde e contexto socioeconômico. As intervenções devem, portanto, combinar esforços de saúde pública, inovação clínica e acesso equitativo aos serviços de saúde para reduzir as disparidades nos desfechos e melhorar o prognóstico para todos os pacientes.

ORCID ID

Natália Martins Sampaio: 0000‐0002‐4224‐0286, Flávio Wellington Martins Cruz: 0009‐0009‐8416‐8401, Sebastião Maurício de Oliveira Castro: 0000‐0002‐2890‐8534, Ana Carolina Ribeiro de Oliveira: 0000‐0001‐8262‐8667, Patrícia Rocha Martins: 0000‐0001‐6222‐0293, Fabrizio dos Santos Cardoso: 0000‐0002‐7547‐8880, Sérgio Gomes da Silva: 0000‐0002‐9650‐809X, João Pereira Duprat Neto: 0000‐0001‐8968‐4506.

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Natália Martins Sampaio: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Flávio Wellington Martins Cruz: Aprovação da versão final do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; concepção e planejamento do estudo.

Sebastião Maurício de Oliveira Castro: Aprovação da versão final do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Ana Carolina Ribeiro de Oliveira: Aprovação da versão final do manuscrito; Análise estatística.

Patrícia Rocha Martins: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

Fabrizio dos Santos Cardoso: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

Sérgio Gomes da Silva: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

João Pereira Duprat Neto: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica do manuscrito.

Alice Muglia Amancio: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação de dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; elaboração e redação do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Nenhum.

Editor

Luciana P. Fernandes Abbade

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Como citar este artigo: Sampaio NM, Cruz FWM, Castro SMO, Oliveira ACR, Martins PR, Cardoso FS, Gomes da Silva S, Duprat Neto JPD, Muglia Amancio A. Differential melanoma outcomes in men and women: longitudinal findings from a ten‐year study. An Bras Dermatol. 2026;101:501347.

Trabalho realizado no Hospital do Câncer de Muriaé, Fundação Cristiano Varella, Muriaé, MG, Brasil.

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