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Vol. 101. Issue 3.
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Vol. 101. Issue 3.
(May - June 2026)
Cartas ‐ Terapia
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Eficácia do tofacitinibe no tratamento da psoríase palmoplantar (não pustulosa) refratária: relato de caso e revisão da literatura

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Paula Hitomi Sakiyamaa, Luciane Donida Bartoli Miotb, Hélio Amante Miotb,
Corresponding author
heliomiot@gmail.com

Autor para correspondência.
a Serviço de Dermatologia, Hospital Universitário do Oeste do Paraná, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel, PR, Brasil
b Departamento de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia, Faculdade de Medicina, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil
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Tabela 1. Casos de psoríase palmoplantar tratados com inibidores da Janus Kinase orais
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Prezado Editor,

Psoríase palmoplantar é condição crônica das palmas e/ou plantas, com prevalência de 2% a 40% entre pacientes com psoríase; no entanto, dados epidemiológicos específicos são escassos. Embora possa manifestar‐se de modo localizado, cursa com maior impacto na qualidade de vida em comparação com outras áreas. Sua morfologia varia de lesões pustulosas a placas eritemato‐descamativas e hiperceratósicas, ou com sobreposição, e é classificada com base nesses fenótipos.1

Psoríase palmoplantar não pustulosa (PPNP), ou hiperceratósica, representa um dos fenótipos da psoríase mais desafiadores na prática clínica.1 Apresenta caráter recalcitrante, mesmo diante dos avanços terapêuticos disponíveis. Ademais, a falta de paralelismo da resposta clínica da psoríase vulgar (PV) em relação à PPNP sugere patogênese distinta, havendo relatos de sucesso com inibidores da JAK (iJAKs) no tratamento das PPNP refratárias.

Neste estudo, relatamos um caso de PPNP refratária a terapias convencionais e imunobiológicas com resposta completa ao tofacitinibe oral. Além disso, revisamos casos análogos publicados e discutimos aspectos fisiopatológicos relevantes.

Paciente do sexo feminino, de 48 anos, com diagnóstico de PPNP (mãos e pés), além de placas discretas no couro cabeludo há 14 anos. Referia tratamentos prévios com corticoides tópicos, metotrexato (oito meses), acitretina (oito meses), adalimumabe (cinco anos) e secuquinumabe (três anos), sem resposta satisfatória. Ao exame, apresentava placas hiperceratósicas e fissuras em ambas as plantas (fig. 1). Referia não conseguir praticar atividades físicas ou caminhadas leves.

Figura 1.

Psoríase palmoplantar não pustulosa tratada com tofacitinibe oral. (A) Pré‐tratamento: Physician's Global Assessment of Hands and/or Feet (hf‐PGA) 4; Modified Palmoplantar Psoriasis Area and Severity Index (m‐PPPASI) 30; Palmoplantar Quality‐of‐Life Instrument (PPQLI) 38; e Dermatology Life Quality Index (DLQI) 7. (B) Após 120 dias de tratamento: hf‐PGA 2; m‐PPPASI 3; PPQLI 23; e DLQI 0.

O exame histopatológico das regiões palmar e plantar revelou dermatite crônica psoriasiforme, caracterizada por acantose com hipogranulose e neutrófilos na epiderme, alongamento das cristas interpapilares com fusão focal, discreta espongiose, hiperparaceratose compacta com neutrófilos, capilares alongados e infiltração linfocitária na derme papilar (fig. 2). A pesquisa de fungos pela coloração do ácido periódico de Schiff foi negativa.

Figura 2.

Exame histopatológico da região plantar. A: Acantose, hiperceratose (h), alongamento (a) das cristas epiteliais (Hematoxilina & eosina, 100×). B: Proliferação de capilares (c) papilares, infiltrado inflamatório (i), paraceratose (p), hipogranulose, microabscesso intraepidérmico (m), espongiose (e) discreta (Hematoxilina & eosina, 200×). C: Hipogranulose (g), com presença de neutrófilos (n) intraepidérmicos e subcórneos (Hematoxilina & eosina, 400×).

Considerando‐se a refratariedade e o comprometimento da qualidade de vida, optou‐se pela prescrição de tofacitinibe 5mg oral, duas vezes ao dia, após triagem clínica e exames complementares. Clobetasol 0,05% pomada foi mantida no primeiro mês de tratamento.

Após 30 dias, observou‐se melhora do eritema, da descamação e da dor nos pés, com remissão completa das lesões das mãos. As fissuras plantares cicatrizaram em 45 dias, possibilitando o retorno pleno às atividades físicas.

Com 60 dias de tratamento, a paciente apresentou infecção de vias aéreas superiores, motivando a suspensão temporária do medicamento por sete dias. Ao reintroduzi‐lo, a paciente relatou cefaleia leve, que regrediu com a redução da dose para 7,5mg/dia, em tomada única.

Aos 120 dias de tratamento, a paciente apresentava melhora expressiva das lesões plantares, total funcionalidade, com resolução da dificuldade e da dor ao caminhar, correr, subir escadas e permanecer em pé, descalça, assim como redução dos escores de gravidade (fig. 1). A paciente encontra‐se em seguimento há 12 meses, com atual redução da dose para 5mg/dia. Não foram observadas alterações nos exames laboratoriais durante o seguimento.

Medicamentos tópicos e fototerapia constituem a primeira linha terapêutica na PPNP. Entretanto, a maioria dos pacientes demanda tratamento sistêmico, como acitretina, metotrexato e imunobiológicos. Os imunobiológicos atuam sobre citocinas específicas da fisiopatologia da psoríase, incluindo anti‐TNFα, anti‐IL‐12/23, anti‐IL‐23 e anti‐IL‐17.2 A eficácia desses agentes na PPNP, contudo, tende a ser menor do que em outras formas de psoríase.

Psoríase é doença de base imunológica, com circuitos inflamatórios distintos entre seus fenótipos. Há predomínio da inflamação Th1/IFN‐γ na PPNP em relação à PV e à psoríase palmoplantar pustulosa (PPP), que apresenta atividade inflamatória mais associada a neutrófilos.3

Tofacitinibe é um iJAK, especialmente da JAK 1 e 3, e em menor grau JAK 2, que suprime vias Th1, Th17, e a sinalização de células imunes inatas, reduzindo a expressão de citocinas como IFN‐γ, IL‐17A/F, IL‐22, IL‐23 e IL‐36.4 Essa ação ampla pode justificar sua eficácia em casos refratários de PPNP.

A tabela 1 revisa diversos relatos de iJAKs para tratamento da PPNP.5–9 Há ainda descrições de sucesso terapêutico na PPP, consideradas parte do espectro da psoríase.7,10

Tabela 1.

Casos de psoríase palmoplantar tratados com inibidores da Janus Kinase orais

Relato  Diagnóstico  Desenho do estudo  Sexo/ Idade  Falha terapêutica prévia  Tratamento  Resposta  Eventos adversos  Tempo de seguimento 
Valor‐Méndez et al., 20215  PPNP (palmoplantar), PV e Apso  Relato de caso  Masculino, 55 anos  Metotrexato, infliximabe, secuquinumabe e ustequinumabe  Tofacitinibe 5mg, 2×/dia  Melhora em 5 dias; resolução em 6 meses  NR  6 meses 
Muzumdar et al., 20216  PPNP (palmar) e PV  Série de casos (1/7)  Feminino, 65 anos  Tópicos, adalimumabe, ixequizumabe e ustequinumabe  Tofacitinibe XR 11mg, 1×/dia  Resolução em 4 meses  Nenhum  4 meses 
  PPNP (palmoplantar) e Apso  Série de casos (2/7)  Feminino, 63 anos  Tópicos, metotrexato, adalimumabe, ixequizumabe, secuquinumabe e ustequinumabe  Tofacitinibe XR 11mg, 1×/dia  Melhora em 1 mês; resolução palmar em 8 meses e discreta descamação em dorso dos pés  Nenhum  8 meses 
  PPNP (palmoplantar)  Série de casos (3/7)  Feminino, 57 anos  Tópicos, ciclosporina, metotrexato, adalimumabe, certolizumabe, guselcumabe, ixequizumabe, risanquizumabe e secuquinumabe  Tofacitinibe XR 11mg, 1×/dia  Resolução quase completa em 1 mês  Nenhum  1 mês 
  PP mista (palmoplantar) e PV  Série de casos (4/7)  Feminino, 45 anos  Tópicos, metotrexato, adalimumabe, certolizumabe, etanercepte, guselcumabe, ixequizumabe, secuquinumabe e ustequinumabe  Tofacitinibe XR 11mg, 1×/dia  Melhora em 1 mês; resolução em 3 meses  Nenhum  3 meses 
  PPNP (plantar)  Série de casos (5/7)  Feminino, 69 anos  Tópicos, apremilaste e metotrexato  Tofacitinibe 5mg, 2×/dia  Melhora em 3 meses; resolução palmar e discreta hiperceratose plantar em 6 meses  Nenhum  6 meses 
  PPNP (plantar) e Apso  Série de casos (6/7)  Feminino, 61 anos  Tópicos, apremilaste, metotrexato, guselcumabe e ixequizumabe  Tofacitinibe 5mg, 2×/dia  Melhora em 2 meses com discreta descamação plantar residual  Nenhum  2 meses 
  PPNP (palmar) e Apso  Série de casos (7/7)  Feminino, 66 anos  Tópicos, metotrexato, ixequizumabe e secuquinumabe  Tofacitinibe XR 11mg, 1×/dia  Resolução quase completa em 1 mês  Nenhum  1 mês 
De Luca et al., 20247  PPP (palmar) e PV  Série de casos (1/5)  Masculino, 33 anos  Apremilaste, secuquinumabe  Deucravacitinibe 6mg, 1×/dia e etanercepte 50 mg/semana  Exacerbação nas semanas 4 e 16  NR  4 meses 
  PPP (plantar) e PV  Série de casos (2/5)  Feminino, 49 anos  Fototerapia, ácido fumárico, apremilaste e ciclosporina  Deucravacitinibe 6mg, 1×/dia  Melhora na semana 16; perda de seguimento na semana 28  NR  7 meses 
  PPP (palmoplantar) e PV  Série de casos (3/5)  Masculino, 51 anos  Alitretinoína e adalimumabe  Deucravacitinibe 6mg, 1×/dia e metotrexato 15 mg/semana  Exacerbação nas semanas 4 e 16; exacerbação de espondilite anquilosante  NR  4 meses 
  PPP (palmoplantar), PV e Apso  Série de casos (4/5)  Feminino, 41 anos  Adalimumabe e secuquinumabe  Deucravacitinibe 6mg 1×/dia e metotrexato 15 mg/semana  Exacerbação na semana 4; melhora na semana 16  NR  12 meses 
  PPP (palmoplantar), PV e Apso  Série de casos (5/5)  Feminino, 31 anos  Fototerapia, metotrexato ciclosporina, biquemizumabe, certolizumabe e guselcumabe  Deucravacitinibe 6 mg/dia e creme‐PUVA na semana 12  Melhora na semana 16; falha na semana 48  Palpitações, herpes simples, cistite e foliculite em 3 dos 5 casos  12 meses 
Choi et al., 20258  PPNP (palmoplantar) e PV  Série de casos (1/2)  Feminino, 61 anos  Tópicos, fototerapia, acitretina e secuquinumabe  Upadacitinibe 15mg, 1×/dia  Resolução em 3 meses  Elevação de triglicerídeos (2,24 mmoL/L)  3 meses 
  PPNP (palmoplantar)  Série de casos (2/2)  Feminino, 52 anos  Tópicos, alitretinoína, apremilaste, ciclosporina, ixequizumabe, risanquizumabe, secuquinumabe e ustequinumabe,  Upadacitinibe 15mg, 1×/dia  Melhora do prurido em 2 semanas; resolução em 3 meses  Elevação de ALT (124 U/L)  3 meses 
Hardy Q et al., 20259  PPNP (palmoplantar) e AA associadas à IDCV  Relato de caso  Feminino, 33 anos  Tópicos  Upadacitinibe 15mg, 1x/dia  Melhora em 2 semanas; resolução em 12 semanas  Nenhum  20 meses 
Este caso  PPNP  Relato de caso  Feminino, 48 anos  Tópicos, acitretina, metotrexato, adalimumabe e secuquinumabe  Tofacitinibe 5mg, 2×/dia  Melhora do prurido em 2 semanas; resolução em 4 meses  Cefaleia  8 meses 

PP, psoríase palmoplantar; PPNP, psoríase palmoplantar não pustulosa; PPP, psoríase palmoplantar pustulosa; PV, psoríase vulgar; Apso, artrite psoriásica; AA, alopecia areata; IDCV, imunodeficiência comum variável; XR, extended release (liberação prolongada); ALT, alanina aminotransferase; NR, não relatado.

Apesar da correlação clínico‐histopatológica do caso apresentado, compatível com PPNP, é importante reconhecer que algumas formas de psoríase apresentam fenótipo inflamatório exuberante e áreas eczematizadas, podendo simular ou mesmo coexistir com eczema palmoplantar crônico. A distinção entre essas entidades é desafiadora, especialmente quando há sobreposição clínica de fissuras, eritema, prurido e hiperceratose. Nesses contextos, o espectro diagnóstico deve incluir tanto a PPNP quanto o eczema hiperceratósico de palmas e plantas, cuja diferenciação pode exigir exercício de correlação clínica, histopatológica e da resposta terapêutica.11 Ademais, há relatos da modificação do fenótipo de psoríase vulgar para quadros eczematosos após terapias com imunobiológicos.12 Portanto, os iJAKs, ao modularem múltiplas vias inflamatórias (como IL‐4, IL‐13, IL‐22 e IFN‐γ), constituem alternativa terapêutica diante da complexidade imunopatológica dessas apresentações.13

Quanto à segurança, tofacitinibe exige vigilância quanto a infecções, atualização vacinal e interações medicamentosas. Deve‐se ter cautela em pacientes com insuficiência renal, hepática, trombofilia, risco cardiovascular e neoplasias. Exames de monitoramento incluem hemograma, perfil lipídico, função hepática, renal e rastreamento de infecções virais e bacterianas.14

Embora tofacitinibe oral apresente um perfil satisfatório de segurança e eficácia, não foi aprovado para psoríase pela Food and Drug Administration, em virtude de efeitos colaterais e disponibilidade de outras terapias. Entretanto, foi aprovado em 2012 para artrite reumatoide e, posteriormente, para artrite psoriásica, colite ulcerativa, artrite idiopática juvenil e espondilite anquilosante.15 Deucravacitinibe é o único iJAK aprovado para psoríase em placas moderadas a graves; entretanto, não existem estudos comparativos avaliando outros iJAKs (p. ex., tofacitinibe, upadacitinibe, abrocitinibe, baricitinibe) no tratamento da PPNP.

Este caso documenta resposta clínica expressiva em PPNP refratária, corroborando o potencial terapêutico dos iJAKs e reforçando a necessidade de estudos controlados para esse fenótipo específico.

ORCID ID

Paula Hitomi Sakiyama: 0000‐0001‐7813‐8294, Luciane Donida Bartoli Miot: 0000‐0002‐2388‐7842

Suporte financeiro

CNPq (306358/2022‐0) – Hélio Amante Miot é pesquisador bolsista do CNPq.

Contribuição dos autores

Paula Hitomi Sakiyama: Concepção e o desenho do estudo; levantamento, análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante; revisão crítica da literatura; aprovação final da versão final do manuscrito.

Luciane Donida Bartoli Miot: Concepção e o desenho do estudo; levantamento, análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação final da versão final do manuscrito.

Hélio Amante Miot: Concepção e o desenho do estudo; levantamento, análise e interpretação dos dados; redação do artigo; revisão crítica do conteúdo intelectual importante; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação final da versão final do manuscrito.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Não se aplica.

Conflito de interesses

Nenhum.

Editor

Sílvio Alencar Marques

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Como citar este artigo: Sakiyama PH, Miot LDB, Miot HA. Efficacy of tofacitinib in the treatment of refractory palmoplantar psoriasis (non‐pustular): case report and literature review. An Bras Dermatol. 2026;101:501357.

Trabalho realizado no Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade Estadual de São Paulo, Botucatu, SP, Brasil.

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