A esparganose é zoonose rara causada pela larva plerocercoide de cestoides do gênero Spirometra.1 Os parasitas adultos habitam o intestino de cães e gatos (hospedeiros definitivos), que eliminam ovos nas fezes.2 Quando esses ovos eclodem em água doce, liberam coracídios que são posteriormente ingeridos por crustáceos microscópicos do gênero Cyclops (primeiro hospedeiro intermediário), levando à formação de larvas procercoides. Peixes, serpentes e anfíbios (segundos hospedeiros intermediários) ingerem os Cyclops, resultando no desenvolvimento de larvas plerocercoides, conhecidas como esparganos.3 Quando cães e gatos se alimentam desses hospedeiros intermediários, os esparganos desenvolvem‐se em vermes adultos que habitam o intestino. A infecção humana ocorre principalmente pela ingestão de carne crua de peixes ou anfíbios ou pelo consumo de água contaminada com Cyclops.2 A esparganose é rara no Brasil, com poucos casos relatados anteriormente.4 Relatam‐se aqui dois casos autóctones.
Caso 1Paciente do sexo masculino, de 34 anos, natural de Gurupi, Tocantins, Brasil, apresentou‐se em 2022 com nódulo subcutâneo firme, endurecido e eritematoso, medindo aproximadamente 3cm, no flanco direito, acompanhado por nódulos menores cobertos por pele de aspecto normal, que haviam surgido 15 dias antes da consulta. O paciente relatou prurido e sensação de calor nas lesões, negando febre. Trinta dias antes do início das lesões, ele havia viajado para a Ilha do Bananal, uma ilha fluvial no estado do Tocantins – caracterizada por clima tropical quente, com verões chuvosos e invernos secos –, onde consumiu peixe de água doce cru proveniente do Lago Preto (11°54′33,2″ S, 50°38′28,4″ O). A ultrassonografia abdominal sugeriu processo inflamatório‐infeccioso com espessamento da pele e da parede abdominal. Realizou‐se a excisão cirúrgica completa, com a remoção de um parasita medindo aproximadamente 4cm de comprimento. O exame histopatológico demonstrou paniculite lobular com infiltrado inflamatório misto, incluindo eosinófilos circundando trajeto vazio, desprovido de revestimento epitelial. Foi identificada estrutura larval, delimitada externamente por parede corporal composta por tegumento (estrutura homogênea com espessura de aproximadamente 5 a 15μm), duas camadas finas de células musculares e células tegumentares. A porção central consistia em estroma frouxo contendo corpúsculos calcários e fibras musculares, sem órgãos internos identificáveis5–7 (fig. 1). Esses achados permitiram identificar o parasita como Spirometra sp. A excisão cirúrgica foi curativa.
Esparganose. (A) Nódulo subcutâneo eritematoso medindo aproximadamente 3cm no flanco direito. (B) Aspecto macroscópico de uma larva plerocercoide de um cestoide do gênero Spirometra, exibindo um verme branco, alongado e achatado. (C–D) Histologia do espargano. A parede corporal é composta por tegumento (seta preta), duas camadas finas de células musculares (seta vermelha) e células tegumentares (seta verde). A porção central consiste em estroma frouxo contendo fibras musculares (seta azul) e corpúsculos calcários (não visíveis nessas imagens), sem órgãos internos identificáveis (Hematoxilina & eosina, 100×e 400×).
Paciente do sexo masculino, de 59 anos, natural de Volta Redonda, RJ, Brasil, desenvolveu, em outubro de 2018, lesão eritematosa serpiginosa na coxa direita, algumas semanas após consumir peixe de água doce cru proveniente do Rio Uatumã, em um local próximo a São Sebastião do Uatumã, Amazonas, Brasil (2°26′23,7″ S, 58°14′39,9″ O) – área caracterizada por clima equatorial quente e úmido, chuvas abundantes durante todo o ano e uma estação seca de curta duração. A lesão apresentou evolução intermitente, com recidivas migratórias. Exames laboratoriais iniciais revelaram eosinofilia leve (7%), que regrediu nos anos subsequentes. Foram realizados múltiplos ciclos de tratamento com albendazol (800mg/dia por 21 dias), seguindo o esquema recomendado para gnatostomíase. Essas intervenções resultaram em melhora temporária, seguida de recidiva. Em agosto de 2022, a ultrassonografia de partes moles revelou trajeto tortuoso na hipoderme, contendo uma estrutura móvel. Realizou‐se a excisão cirúrgica, com a remoção de um parasita de aproximadamente 5cm de comprimento. O exame histopatológico revelou infiltrado inflamatório misto denso, com presença de eosinófilos, na hipoderme ao redor de um trajeto vazio e desprovido de revestimento epitelial. Identificou‐se estrutura larval associada, com características típicas de Spirometra sp.5–7 (fig. 2). A excisão cirúrgica foi curativa.
Esparganose. (A) Lesão eritematosa serpiginosa na face medial da coxa direita. (B) Histopatologia revelando paniculite lobular com infiltrado inflamatório misto denso circundando um trajeto (seta preta) desprovido de revestimento epitelial (Hematoxilina & eosina, 20×). (C) Corte histológico da porção anterior do verme mostrando o botrio (seta preta; Hematoxilina & eosina, 100×). (D) Visualização em grande aumento do espargano. O tegumento (seta preta) e as células tegumentares (seta verde) são observados na parede do corpo, enquanto corpúsculos calcários (seta vermelha) e fibras musculares (seta azul) estão presentes na porção central do verme. Nota‐se a ausência de órgãos internos (Hematoxilina & eosina, 400×).
A esparganose cutânea manifesta‐se geralmente como nódulos subcutâneos que podem ser assintomáticos ou dolorosos à palpação e, ocasionalmente, migratórios.8 Podem ocorrer também lesões eritematosas serpiginosas.9 O acometimento extracutâneo é menos comum e decorre da migração tecidual ou, raramente, da disseminação hematogênica.8 As formas ocular e neurológica são as clinicamente mais significantes em virtude da morbimortalidade associada.8,10 Outros locais relatados incluem pulmões, pleura, cavidade abdominal e trato urogenital.10 No Caso 2, transcorreram quase quatro anos entre o início dos sintomas e a excisão cirúrgica curativa. O paciente negou enfaticamente qualquer exposição adicional após o surgimento da primeira lesão em 2018, incluindo a ingestão de água não tratada ou de peixes de água doce crus. Essa evolução prolongada é biologicamente plausível, uma vez que as larvas (esparganos) podem permanecer viáveis no organismo humano por até 20 a 30 anos.3,7,9,11 O diagnóstico diferencial inclui paniculite, lipomas, cistos e abscessos, bem como outras infecções parasitárias, como a gnatostomíase, que também tem sido relatada como autóctone no Brasil.12 Esparganose e gnatostomíase compartilham características epidemiológicas comuns relacionadas à exposição a água doce e à ingestão de hospedeiros intermediários crus ou mal cozidos. Clinicamente, ambas as condições podem apresentar lesões subcutâneas migratórias, embora esse padrão seja mais típico da gnatostomíase, enquanto a esparganose se manifesta mais frequentemente como um nódulo fixo. Histopatologicamente, o gnathostoma é nematódeo menor com órgãos internos identificáveis, ao passo que o espargano é uma larva de cestoide maior, desprovida de trato intestinal e contendo corpúsculos calcários.5–7,13 O histórico de consumo de peixe de água doce cru é fundamental para a suspeita clínica, dada a forte associação entre hábitos alimentares e o risco de infecção.1,8 A variabilidade clínica e a raridade da doença contribuem para o subdiagnóstico, especialmente em regiões não endêmicas, ressaltando a importância de manter alto índice de suspeita em pacientes com histórico epidemiológico compatível.1,8 O diagnóstico é estabelecido inicialmente por meio da identificação morfológica macroscópica e microscópica do parasita em nível de gênero.2,7 No entanto, a identificação definitiva em nível de espécie requer métodos moleculares.14 A excisão cirúrgica é o tratamento de escolha; é eficaz e definitiva, visto que a terapia anti‐helmíntica tem demonstrado eficácia limitada.1
Estes casos visam aumentar a conscientização de dermatologistas e dermatopatologistas sobre a esparganose, zoonose rara e possivelmente subdiagnosticada no Brasil. O presente relato destaca sua apresentação clínica, achados histopatológicos, identificação parasitológica, contexto epidemiológico e manejo terapêutico.
ORCID IDAna Carolina Cortes Ferreira: 0009‐0005‐5784‐3476
Emyle Vitoria Pereira Sousa: 0009‐0001‐2996‐8168
Mariana Serdeira Arbex Pinto: 0000‐0001‐9217‐0100
Kátia Maria Serdeira Arbex: 0009‐0003‐8978‐7283
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresAna Carolina Cortes Ferreira: Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica do caso estudado 1; concepção e planejamento do estudo; revisão crítica do manuscrito.
Mariana Bezerra Benevides Brandão: Obtenção, análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.
Emyle Vitória Pereira Sousa: Obtenção, análise e interpretação de dados.
Mariana Serdeira Arbex Pinto: Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica do caso estudado 2.
Kátia Maria Serdeira Arbex: Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica do caso estudado 2.
Thiago Jeunon de Sousa Vargas: Participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica dos casos estudados 1 e 2; elaboração e redação do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorNeusa Yuriko Sakai Valente
Como citar este artigo: Cortes‐Ferreira AC, Brandão MBB, Pereira‐Sousa EV, Pinto MSA, Arbex KMS, Jeunon T. Autochthonous cutaneous sparganosis in Brazil: report of two cases. An Bras Dermatol. 2026;101. https://doi.org/10.1016/j.abd.2026.501430.
Trabalho realizado na Universidade de Gurupi, Gurupi, TO, Brasil e Investigação em Dermatologia, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.


