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Vol. 96. Issue 2.
Pages 245-248 (01 March 2021)
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Vol. 96. Issue 2.
Pages 245-248 (01 March 2021)
Carta ‐ Investigação
DOI: 10.1016/j.abdp.2020.07.018
Open Access
Perfil clínico e laboratorial da esporotricose urbana em hospital terciário na cidade de São Paulo
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John Verrinder Veasey
Corresponding author
johnveasey@uol.com.br

Autor para correspondência.
, Milton Ferreira Neves Neto, Ligia Rangel Barbosa Ruiz, Clarisse Zaitz
Clínica de Dermatologia, Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, SP, Brasil
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Tabela 1. Descrição dos aspectos clínicos e laboratoriais dos casos atendidos no setor de dermatoses infecciosas de hospital do centro da cidade de São Paulo de janeiro de 2012 a abril de 2020
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Prezado Editor,

A esporotricose é a micose subcutânea mais frequente da América Latina, onde é considerada endêmica.1 No final do século XX, foram descritos os primeiros casos de transmissão zoonótica no Rio de Janeiro, dando início a um surto epidêmico que se estendeu a outras regiões do Brasil.2–4 A falta de notificação dessa doença omite sua real abrangência no país, o que ocorre em sua cidade mais populosa, São Paulo.5,6 O presente estudo apresenta dados clínicos e laboratoriais dos casos de esporotricose atendidos em hospital terciário do centro de São Paulo de 2012 a 2020 com a proposta de fortalecer o conhecimento dessa doença. Trata‐se de estudo retrospectivo que analisou dados de prontuários de pacientes atendidos na clínica de dermatologia do referido hospital. Em cada caso foram avaliadas as características do paciente (idade, sexo, comorbidades e contato com animal doente), da doença (localização, tempo de doença, forma clínica e tratamento) e métodos diagnósticos realizados (exame micológico direto – EMD, cultura de fungos – CF e exame histopatológico – EH).

No período analisado foram atendidos 20 pacientes, com faixa etária de 2 a 81 anos (média de 32,2 ± 25,10 anos), dos quais 55% eram do sexo feminino e 45%, masculino. Quanto ao rastreamento zoonótico, 30% negaram contato com animal e 70% afirmaram contato prévio com gato doente, sem outro animal mencionado. Os resultados obtidos estão descritos na tabela 1.

Tabela 1.

Descrição dos aspectos clínicos e laboratoriais dos casos atendidos no setor de dermatoses infecciosas de hospital do centro da cidade de São Paulo de janeiro de 2012 a abril de 2020

Caso  Idade  Sexo  Contato com animal doente  Localização da lesão  Tempo de doença (semanas)  Forma clínica 
58  Feminino  Não  Membro superior  20  Linfocutânea 
16  Feminino  Não  Tronco  22  Linfocutânea 
45  Feminino  Sim (gato)  Face e membros superiores e inferiores  13  Inoculação múltipla 
20  Masculino  Sim (gato)  Membros superiores  Inoculação múltipla 
10  Feminino  Não  Membro superior e membros inferiores  Imunorreativa ‐ eritema nodoso 
11  Feminino  Sim (gato)  Face  10  Linfocutânea 
12  Masculino  Não  Face, membro superior e dorso  44  Inoculação múltipla 
81  Feminino  Não  Membro superior  24  Linfocutânea 
Masculino  Sim (gato)  Face  Mucosa ocular 
10  46  Masculino  Não  Membro superior  167  Cutânea fixa 
11  42  Feminino  Sim (gato)  Membro superior  Cutânea fixa 
12  72  Feminino  Sim (gato)  Membro superior  Linfocutânea 
13  30  Feminino  Sim (gato)  Membro superior  Linfocutânea 
14  10  Feminino  Sim (gato)  Membro superior  Linfocutânea 
15  12  Masculino  Sim (gato)  Face  Linfocutânea + mucosa ocular 
16  75  Masculino  Sim (gato)  Membros superiores  39  Inoculação múltipla 
17  Masculino  Sim (gato)  Face  Cutânea fixa 
18  39  Masculino  Sim (gato)  Membros superiores e dorso  Inoculação múltipla 
19  13  Masculino  Sim (gato)  Membro superior  Linfocutânea 
20  47  Feminino  Sim (gato)  Membro superior  Linfocutânea 

Quanto às características da doença, a presença das lesões durou de 3 a 167 semanas até a consulta com o dermatologista, com média de 20,85 ± 36,24 semanas. Os membros foram os locais mais afetados, totalizando 15 casos (75%); houve dois casos de concomitância de membro superior e inferior e outros dois casos de membros e face, a qual foi o segundo local mais afetado, presente em seis pacientes (30%). A forma linfocutânea foi a mais frequente, em 50% dos casos (10 pacientes), seguida da forma inoculação múltipla em cinco casos (25%), cutânea fixa em três casos (15%), duas formas mucosa ocular e uma imunorreativa (eritema nodoso) (fig. 1). Interessante notar que a maioria dos casos (60%) acometeu pacientes nos extremos de idade, correspondente à população de maior contato com os animais doentes, dado compatível ao descrito na literatura. Do mesmo modo, ressaltamos o fato de todos os pacientes com acometimento na face serem crianças, o que indica o contato íntimo próximo ao rosto que pacientes dessa faixa etária mantêm com o animal.7 A forma linfocutânea é a principal manifestação clínica descrita da esporotricose, chegando a 80% dos casos relatados.2,4 No presente estudo, essa forma foi a principal manifestação clínica, porém em apenas metade dos casos registrados. A outra metade corresponde às demais manifestações, indicando que apresentações descritas como atípicas podem representar uma maior proporção que o esperado. Outro fato a ser observado é o de as comorbidades dos pacientes não indicarem estados de imunossupressão intensa, o que explica a presença de formas clínicas exclusivamente cutaneomucosa, sem qualquer caso com acometimento sistêmico.

Figura 1.

Esporotricose, forma cutânea de inoculação múltipla nos antebraços apresentada pelo caso 16.

(0.1MB).

Para a confirmação diagnóstica, realizou‐se em todos os casos raspado de lesão para análise de EMD e CF, e em 16 casos foi feita biópsia para análise de EH e CF. A biópsia não foi realizada em quatro casos por recusa dos pacientes ou responsáveis. Os EH foram analisados nas colorações de hematoxilina‐eosina, Grocott‐Gomori e PAS, e em apenas cinco (31,25%) houve visualização do fungo, índice semelhante a estudos de revisão que referem positividade entre 18% e 35,3% dos casos.4 Em nenhum EMD evidenciou‐se presença de levedura, situação já esperada, visto que o exame tem baixa sensibilidade e especificidade quando comparado à cultura.4,8 Já nas culturas de raspado e de fragmento de biópsia cultivados em ágar Sabouraud e Mycosel, houve isolamento do fungo Sporothrix sp. em 100% dos casos. Assim, confirma‐se que o diagnóstico padrão‐ouro da esporotricose é o cultivo e a identificação de espécies do gênero Sporothrix com base no material coletado de lesões cutâneas.2,4,9 Em todos os casos aqui apresentados, a cultura foi identificada fenotipicamente, por colônias de aspecto membranoso e coloração bicolor branca a bege com halo enegrecido, a 25°C. Em todos os casos realizou‐se análise do aspecto micromorfológico das colônias nessa mesma temperatura, exibindo hifas septadas hialinas com conidióforo em cuja extremidade apresentam conídios hialinos piriformes ou arredondados dispostos em arranjo de “margarida” (fig. 2).

Figura 2.

Aspectos fenotípicos de culturas de Sporothrix sp. Macromorfologia em meio de ágar Mycosel a 25°C com colônia filamentosa bicolor branco a bege e preto, e micromorfologia em ágar batata (azul de algodão, 400×) evidenciando hifas septadas hialinas com conidióforos com conídios hialinos na extremidade em arranjo de “margarida”.

(0.17MB).

Todos os pacientes foram tratados com medicação via oral – as opções de escolha foram solução saturada de iodeto de potássio, itraconazol e terbinafina, em uso único ou associado, com dose e tempo variáveis em cada caso. São todos medicamentos indicados para o tratamento dessa infecção para quadros localizados em pacientes imunocompetentes, porém o não fornecimento das medicações pelo serviço onde os atendimentos ocorreram e a dificuldade de os pacientes encontrarem a medicação disponível gratuitamente na rede pública impediram uma padronização de modo a se apresentar os achados em forma organizada.2,4 Todavia, em todos os casos foi constatada cura clínica com os tratamentos prescritos.

Em termos epidemiológicos, foram 19 casos autócnes da grande São Paulo e um alócne, do estado da Bahia, notando‐se um aumento progressivo de sua incidência ao longo do período analisado. Quanto ao rastreamento de casos familiares, encontrou‐se positividade em apenas três casos.

O presente estudo destaca características clínicas e diagnósticas de grande importância, reafirma conceitos prévios e apresenta ideias que devem ser analisadas em futuras pesquisas semelhantes na cidade a fim de se obter mais conhecimento e controle da doença. Os achados aqui apresentados também destacam a necessidade de uma vigilância epidemiológica mais contundente, visando controlar a disseminação dessa doença e evitar sua progressão, como ocorre em demais estados e países.1,7–10

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

John Verrinder Veasey: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Milton Ferreira Neves Neto: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; aprovação da versão final do manuscrito.

Ligia Rangel Barbosa Ruiz: Participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Clarisse Zaitz: Participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.

Conflito de interesses

Nenhum.

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Como citar este artigo: Veasey JV, Neves Neto MF, Ruiz LRB, Zaitz C. Clinical and laboratory profile of urban sporotrichosis in a tertiary hospital in the city of São Paulo. An Bras Dermatol. 2021;96:245–8.

Trabalho realizado na Clínica de Dermatologia, Hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

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