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Prevalência de psoríase em comunidades indígenas ao redor do mundo: revisão de escopo

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Yebin Yanga,
Corresponding author
dryebinyang@gmail.com

Autor para correspondência.
, Sangho Leea, Francis Yi Xing Laia,b, Ricardo Romitic
a Departamento de Dermatologia, Monash Health, Victoria, Austrália
b Skin Health Institute, Victoria, Austrália
c Departamento de Dermatologia, Hospital das Clínicas, Universidade de São Paulo, SP, Brasil
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Tabela 1. Prevalência de psoríase em grupos indígenas em comparação com as respectivas populações nacionais2,3,7–32
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Resumo

A psoríase é condição inflamatória crônica com comorbidades sistêmicas e impactos significantes na qualidade de vida. Sua prevalência em populações indígenas é pouco compreendida, o que limita intervenções de saúde direcionadas. Esta revisão de escopo visa analisar a prevalência de psoríase em comunidades indígenas globalmente, identificar influências genéticas, ambientais e socioeconômicas e explorar barreiras ao diagnóstico preciso e aos cuidados. Uma busca nas bases PubMed, Ovid Medline, Cochrane Library e Scopus identificou 30 estudos, dos quais 15 atenderam aos critérios de inclusão, abrangendo 13 populações indígenas em seis continentes. Quase todos os grupos indígenas apresentaram prevalência de psoríase notavelmente inferior às estimativas globais; prevalência zero foi relatada entre os Ami de Taiwan, os Masai da Tanzânia e grupos indígenas do Brasil e do Peru; a doença é considerada anedoticamente rara entre aborígenes da Austrália, nativos do Alasca, Primeiras Nações do Canadá e nativos americanos. A maioria das populações indígenas demonstrou prevalência de psoríase menor do que a de suas respectivas populações nacionais. Fatores genéticos protetores e gatilhos ambientais, níveis de exposição à radiação ultravioleta, influências ambientais e estilos de vida culturais e tradicionais são hipóteses explicativas. No entanto, o acesso limitado a especialistas, os desafios diagnósticos em skinof color e as diferenças culturais dificultam a estimativa precisa da prevalência. Metodologias de pesquisa padronizadas e estratégias de saúde culturalmente sensíveis são fundamentais para abordar as disparidades e melhorar o reconhecimento da doença nessas comunidades.

Palavras‐chave:
Incidência
Pessoas nativas
Pigmentação da pele
Prevalência
Psoríase
Saúde de populações indígenas
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Introdução

A psoríase é doença inflamatória crônica da pele, de caráter multissistêmico, associada a artrite psoriásica, comorbidades metabólicas e eventos cardiovasculares graves, resultando em redução substancial da qualidade de vida e impacto significante na saúde mental.1 Em 2016, a Organização Mundial da Saúde reconheceu a psoríase como doença não transmissível grave, que exige esforços para definir com precisão sua prevalência global e orientar políticas de saúde direcionadas.1

Os dados de prevalência global variam amplamente, situando‐se entre 0,4% e 8,5%.2 Observa‐se variação considerável entre diferentes faixas etárias, sexos, etnias e grupos socioeconômicos, mesmo em uma mesma região geográfica.3 Os povos indígenas – definidos como grupos que se autodenominam comunidades distintas com vínculos ancestrais a populações históricas de uma região – permanecem sub‐representados nas pesquisas médicas.4,5 A vigilância limitada em saúde pública dificulta ainda mais a obtenção de estimativas precisas sobre a carga da doença, deixando a real extensão das disparidades em saúde amplamente desconhecida. No entanto, diversos estudos individuais sugerem que as comunidades indígenas apresentam prevalência de psoríase inferior à das populações não indígenas.

Esta revisão de escopo visa sintetizar as evidências existentes sobre a prevalência de psoríase em populações indígenas em todo o mundo e compará‐las com a prevalência nacional da doença nos respectivos países. Também são explorados os determinantes genéticos, ambientais, geográficos e socioeconômicos da doença e destacam‐se as barreiras de saúde pública que impedem a avaliação precisa da carga da doença nas comunidades indígenas.

Métodos

Foi elaborado protocolo de revisão registrado no International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO) – sob o número CRD420251075399 – descrevendo os critérios de elegibilidade, as fontes de informação, a estratégia de busca e a análise de dados.

Realizou‐se busca exploratória nas bases de dados PubMed, Scopus, Cochrane Library e Medline (via OVID), utilizando a combinação dos termos “psoriasis”, “indigenous“, “native“, “Aboriginal“, “population groups, “epidemiology” e “prevalence”, sem restrições de data. Uma das estratégias de busca eletrônica utilizadas foi a seguinte: (“Psoriasis”[Mesh] OR psoriasis) AND (“Indigenous Peoples”[Mesh] OR indigenous OR aboriginal OR native OR first nations) AND (“Epidemiology”[Subheading] OR epidemiology OR “Prevalence”[Mesh] OR prevalence). Os estudos foram considerados elegíveis para inclusão caso relatassem a prevalência de psoríase em comunidades indígenas de qualquer faixa etária. Artigos foram excluídos caso não apresentassem estimativas de prevalência, exceto quando representavam os únicos dados disponíveis para determinado grupo indígena. Um fluxograma baseado nas diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta‐Analyses) resume, na figura 1, o número de estudos identificados, triados e incluídos nesta revisão de escopo.

Figura 1.

Fluxograma PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta‐Analyses) para identificação, triagem e inclusão de estudos.6.

Os títulos e resumos foram analisados de modo independente por dois pesquisadores (YY e SL). Divergências foram resolvidas mediante discussão e consenso. O processo identificou 30 publicações que abordavam a prevalência de psoríase em populações indígenas ao redor do mundo. As referências dos estudos incluídos também foram examinadas para identificar artigos adicionais elegíveis. Após a análise dos textos completos, 15 estudos foram excluídos por não apresentarem dados específicos sobre populações indígenas ou por não fornecerem números de prevalência, restando 15 estudos para inclusão. Um estudo que apresentava dados específicos sobre populações indígenas, mas relatava a incidência de psoríase em vez da prevalência, mas foi considerado relevante por estar alinhado aos objetivos da revisão e foi incluído para a extração de dados.

A extração de dados abrangeu variáveis quantitativas e qualitativas predefinidas relacionadas à prevalência de psoríase. As variáveis quantitativas incluíram o número de indivíduos diagnosticados com psoríase (numerador), o tamanho total da população (denominador) e as estimativas de prevalência calculadas ou relatadas. Sempre que disponíveis, também foram extraídos dados específicos de subgrupos (p. ex., por região). As variáveis qualitativas incluíram o cenário do estudo, as características da população e os critérios diagnósticos utilizados para definir a psoríase.

Para contextualizar os achados, realizou‐se busca adicional no PubMed utilizando os termos “psoriasis”, “prevalence” e os nomes dos países de origem dos grupos indígenas incluídos, a fim de identificar as estimativas nacionais de prevalência correspondentes para fins de comparação.

Os resultados foram extraídos e resumidos em formato de tabela (tabela 1). A figura 2, que apresenta a prevalência de psoríase em comunidades indígenas em comparação com a prevalência nacional correspondente em adultos, foi elaborada para melhor visualização da distribuição geográfica e do número limitado de comunidades indígenas com estimativas conhecidas de prevalência de psoríase. O “Mapa de Calor da Prevalência de Psoríase” foi obtido a partir do Global Psoriasis Atlas mediante a exportação de uma imagem .png do mapa do site; essa imagem foi importada para o Microsoft PowerPoint (Versão 2603, Compilação 19822.20150 Click‐to‐Run) para a inclusão de títulos de legenda, a sobreposição de círculos coloridos representando a prevalência da doença nas comunidades indígenas e a respectiva legenda.

Tabela 1.

Prevalência de psoríase em grupos indígenas em comparação com as respectivas populações nacionais2,3,7–32

Continente  País e comunidade indígena  Prevalência de psoríase (%)  Número de casos/número total de pessoas no estudo (n)  Prevalência nacional de psoríase em adultos, se relatada (%)  Referências 
Ásia  Taiwan – povo Ami  0  Anedótico  0,18 – 0,86  Chandran,7 Bos,19 Heyes;32 Iskandar,20 Global Psoriasis Atlas23,24 
Oceania  Austrália – povos aborígenes  “Extremamente rara”  Anedótico  2,38 – 3,78  Green,8 Heyes;32 Parisi,3 Foley,21 Global Psoriasis Atlas23,24 
  Samoa Americana – povo Samoano  0  0/12.569  0,34 – 1,13  Valenzuela;9 Jacobson,31 Global Psoriasis Atlas23,24 
  Nova Zelândia – povo Maori no Conselho de Saúde do Distrito de Auckland  0,14  52/∼36630  2,50  Lee,18 Health Board;22 Global Psoriasis Atlas23,24 
Europa  Groenlândia – povo Inuit em Tasiiliq  5,7  16/283  1,1 – 1,34  Haulrig;10 Global Psoriasis Atlas,23,24 Botvid29 
  Noruega – povo Sami  1,4  35/2508  3,12 – 4,6  Chandran;7 Global Psoriasis Atlas,23,24 Solberg25 
América do Norte  Canadá e Estados Unidos – nativos do Alasca, Primeiras Nações do Canadá e nativos americanos  “Rara”  Anedótico  Estados Unidos: 1,12 – 3,0  Raychaudhuri;11 Armstrong,2 Parisi,3 Global Psoriasis Atlas23,24 
        Canadá: 1,34 – 2,65   
América do Sul  Brasil – povos indígenas  Todos os grupos indígenas do Brasil – 0,0012  Todos os grupos indígenas no Brasil – 953/775.995  0,30 – 1,31  Romiti;12 Global Psoriasis Atlas,23,24 Romiti,26 Andrade30 
    Região Auaris – 0  Povos indígenas da região de Auaris – 0/555     
  Peru – povos indígenas das regiões andinas  0  0/25.915  0,40 – 2,5  Chandran,7 Toloza,13 Toloza;14 Global Psoriasis Atlas,23,24 Rodriguez‐Zuniga27 
  Chile – povo Mapuche  0,26  1/380  1,43  Valenzuela;9 Global Psoriasis Atlas23,24 
África  Etiópia – povo Tigray  –  954 casos; incidência de 183 por ano  0,22  Morrone;15 Global Psoriasis Atlas23,24 
  Moshi, Tanzânia – povo Maasai  0  0/51  0,15  Morrone,9 Khan;16 Global Psoriasis Atlas23,24 
  Cabo Oriental (Mtyholo Dlova e Mdolomba), África do Sul  0,7  5/698  0.39 – 2.9  Wright;17 Hartshorne,28 Global Psoriasis Atlas23,24 

As referências para a prevalência de psoríase em populações indígenas e para a prevalência nacional de psoríase em adultos estão separadas por ponto e vírgula (;).

* O grupo de participantes não é composto exclusivamente por povos indígenas; não foi possível encontrar dados adicionais.

Figura 2.

Mapa de calor da prevalência da psoríase do Global Psoriasis Atlas (2026) sobreposto à prevalência de psoríase em comunidades indígenas em suas respectivas localizações geográficas.23,24.

Resultados

Foram utilizadas 15 fontes de evidência para extrair descrições e dados numéricos sobre a prevalência de psoríase em 13 grupos populacionais indígenas de seis continentes (tabela 1). Para fins de comparação, também foram incluídas as estimativas nacionais de prevalência de psoríase dos respectivos países. O tamanho das populações indígenas variou de 300 a 36.650 indivíduos. Apenas descrições anedóticas, sem denominador populacional associado, estavam disponíveis para os povos Ami de Taiwan, os aborígenes australianos e os povos indígenas da América do Norte.7,8,11,19,32 O tamanho da população Maori sob a jurisdição do Auckland District Health Board foi estimado com base em um relatório de 2014 do próprio conselho de saúde.22

Em quase todos os casos, os grupos indígenas apresentaram prevalência de psoríase inferior à de suas respectivas populações nacionais adultas. Relatou‐se a ausência completa da doença entre o povo Ami de Taiwan, os samoanos americanos, os povos indígenas da região de Auaris no Brasil, os povos indígenas andinos do Peru e o povo Maasai da Tanzânia.9,13–16,31 Relatos anedóticos também descreveram a psoríase como extremamente rara entre grupos indígenas da América do Norte (nativos do Alasca, Primeiras Nações do Canadá e nativos americanos) e aborígenes australianos.4,5,8,16,29 Embora a prevalência ainda não tenha sido determinada, a incidência de psoríase entre o povo Tigray, na Etiópia, foi registrada em 183 casos por ano.15 O povo Inuit de Tasiilaq, na Groenlândia, foi o único grupo indígena a apresentar prevalência de psoríase mais elevada (5,7%) em comparação com a prevalência nacional entre adultos (1,1%–1,34%).10,23,29

A maior prevalência da doença foi observada entre os grupos indígenas do Ártico, com 5,7% nas comunidades Inuit de Tasiilaq, na Groenlândia, e 1,4% entre o povo Sami da Noruega.7,10 Esses índices foram seguidos por 0,7% entre populações do Cabo Oriental na África do Sul, 0,26% entre o povo Mapuche no Chile e 0,14% entre o povo Maori na Nova Zelândia.9,20–22,29

Por continente, a psoríase foi mais comum entre grupos indígenas do Ártico na Europa (povos Inuit na Groenlândia e Sami na Noruega), com média ponderada de 1,15%.7,10 A Ásia apresentou a menor prevalência geral como continente, embora os resultados tenham sido limitados pela inclusão de apenas um grupo indígena. Essas tendências são comparáveis às observadas em populações não indígenas, nas quais as taxas mais elevadas foram registradas na Europa, na Oceania e na América do Norte (Noruega 3,12%–4,6%; Austrália 2,38%–3,78%; Nova Zelândia 2,5%; Canadá 1,34%–2,65%; Estados Unidos 1,12%–3,0%).3,7,21,23,25

A prevalência nos grupos indígenas, em comparação com a prevalência nacional nas respectivas populações não indígenas, é apresentada na figura 2.

Discussão

Verificou‐se que a maioria das populações indígenas apresentava taxas de prevalência de psoríase mais baixas em comparação com as comunidades não indígenas correspondentes, com faixas de prevalência variando de 0,15% a 3,78; alguns grupos relataram ausência total da doença.23 Vários fatores biológicos, ambientais e socioculturais provavelmente influenciaram o curso da doença nessas populações.

Suscetibilidade genética e epigenética

A patogênese da psoríase está estreitamente ligada à desregulação das vias imunológicas inatas e adaptativas.1 Mecanismos epigenéticos podem explicar ainda mais as diferenças na prevalência de psoríase entre populações, uma vez que alterações na expressão gênica induzidas pelo ambiente podem modular as respostas imunes sem alterar a base genética.33–35 Um dos genes de interesse mais significantes é o alelo HLA‐Cw6, que apresenta forte associação com a psoríase.4,7,9,30–39 O HLA‐Cw6 é mais comum em pacientes caucasianos do que em pacientes asiáticos; a presença desse alelo confere risco relativo de 13 para o desenvolvimento de psoríase na população caucasiana, em comparação com 25 nas populações japonesas.37 É importante ressaltar que a predisposição genética parece ser determinante mais forte do que a localização geográfica dos grupos indígenas. Apesar da grande distância geográfica, os indígenas norte‐americanos, os aborígenes australianos e o povo Ami de Taiwan – três grupos indígenas descendentes de um mesmo ancestral – apresentam prevalência insignificante da doença em comparação com as populações não indígenas que vivem nas mesmas áreas.3,32

A epigenética fornece um elo mecanístico entre a suscetibilidade genética e as exposições ambientais na psoríase. Por meio de processos como metilação do DNA, modificação de histonas e regulação de microRNAs, estímulos externos podem induzir alterações persistentes na expressão gênica que influenciam vias inflamatórias fundamentais, incluindo o eixo IL‐23/Th17 e a proliferação de queratinócitos.33,34 Portanto, em populações geneticamente predispostas, gatilhos ambientais podem promover modificações pró‐inflamatórias que revelam a manifestação da doença; inversamente, isso significa que, em populações sem alelos de risco, as exposições ambientais isoladas podem ser insuficientes para induzir as alterações necessárias para desencadear a doença.33–35 Isso pode ajudar a explicar a prevalência persistentemente baixa de psoríase observada em certos grupos indígenas, apesar da crescente exposição a fatores de risco ambientais semelhantes aos enfrentados atualmente pelas populações não indígenas.

Colonização e exposição a infecções

Estudos demonstraram correlação positiva entre a incidência de psoríase e atividade elevada do sistema imune inato, a qual, segundo hipóteses, teria evoluído a partir da exposição ancestral a doenças infecciosas.9,14,32 Acredita‐se que a maioria dos grupos indígenas com prevalências insignificantes de psoríase tenha vivenciado exposição tardia a infecções estreptocócicas e outras infecções sistêmicas, em comparação com as populações europeias. Evidências sugerem que a psoríase era praticamente inexistente na Austrália até a colonização europeia nos últimos 200 anos e, de modo semelhante, no Chile até as conquistas espanholas nos séculos XVI e XVII – eventos que introduziram novos patógenos nessas comunidades.9,14,32 Tendências semelhantes são relatadas entre os indígenas norte‐americanos e o povo Ami de Taiwan, cujas comunidades também foram impactadas por ondas de colonização entre os séculos XIV e XVI.3,11

Um estudo de 1989 que investigou associações entre o antígeno leucocitário humano (HLA, do inglês human leukocyte antigen) e doenças constatou que o complexo principal de histocompatibilidade nos loci HLA‐A e HLA‐B era quase idêntico entre os indígenas australianos, o que é consistente com uma história evolutiva de menor exposição a patógenos e taxas correspondentemente mais baixas de psoríase.32,36 Essa variabilidade reduzida provavelmente limita a diversidade da apresentação de antígenos, influenciando a maneira como o sistema imunológico responde a gatilhos ambientais associados à psoríase.32

Influências ambientais e do estilo de vida

A exposição à luz solar e à radiação UV desempenha papel importante tanto na modulação da doença quanto nas abordagens terapêuticas para a psoríase. Uma revisão sistemática de 85 artigos demonstrou que a prevalência de psoríase estava correlacionada com o aumento da distância em relação à linha do Equador, corroborando a correlação entre a exposição à radiação UV e a melhora clínica.21 Esse padrão reflete‐se na presente revisão, na qual a maioria das comunidades indígenas que vivem mais próximas do Equador – como os Ami de Taiwan, os indígenas australianos, os samoanos americanos e grupos da África Subsaariana – não relatou casos de psoríase.7–9,14,31,32,40 Em contrapartida, populações indígenas do Ártico apresentaram taxas de prevalência mais elevadas: 5,7% entre os Inuit da Groenlândia e 1,4% entre o povo Sami da Noruega.7,10 Do mesmo modo, um estudo realizado na localidade rural de Kasach’ye, no Ártico, demonstrou prevalência atípica de 11,8%.31

Fatores geográficos, como altitude, disponibilidade sazonal de luz solar e refletividade na superfície da neve e água, contribuem para determinar a distribuição da psoríase. Acredita‐se que a presença generalizada e persistente de cobertura de neve nas regiões circumpolares aumente a refletividade UV e confira efeito protetor contra a psoríase.31,39 Propõe‐se também que a adaptação biológica de longo prazo a grandes altitudes e ao frio extremo possa contribuir para a ausência de psoríase entre os indígenas peruanos da região dos Andes.13 Um levantamento com 555 indígenas no Brasil, que não encontrou casos de psoríase, também atribuiu esses resultados ao clima quente e úmido da região, à alta exposição aos raios UV e à exposição mínima a gatilhos ambientais externos e urbanos.12

Fatores relacionados ao estilo de vida – como dieta, tabagismo, consumo de álcool, obesidade, atividade física e estresse – contribuem para a psoríase ao intensificar respostas inflamatórias crônicas.1,29 Relatou‐se a ausência de casos de psoríase entre populações indígenas da região de Auaris, no Brasil, provavelmente pela exposição abundante à luz solar natural e ausência de fatores associados ao estilo de vida urbano.12 Na população de etnia Inuit de Nuuk, pacientes com psoríase apresentaram maior associação com comorbidades como síndrome metabólica e doenças cardiovasculares.29

Práticas culturais e fenótipo cutâneo

Valores culturais, terapias tradicionais e o fenótipo cutâneo desempenham papel importante para garantir o diagnóstico e o tratamento precisos da psoríase em populações indígenas. Mulheres de ascendência africana tendem a apresentar formas mais graves de psoríase no couro cabeludo decorrente das características do cabelo afro, das práticas de cuidado capilar (uso de relaxantes químicos, tranças e apliques) e dos intervalos mais longos entre as lavagens; todos esses fatores podem dificultar a adesão aos regimes de tratamento tópico.38 Em Tigray, na Etiópia, uma série de casos relatou o uso frequente de terapias tradicionais locais, incluindo a hijama (ventosaterapia úmida) e o uso de plantas tradicionais como a Kigelia africana.9 Tais tratamentos apresentam resultados dermatológicos inconclusivos e, em alguns casos, foram associados a exacerbações da doença ou à hiperpigmentação pós‐inflamatória. O acesso a terapias convencionais é limitado, restringindo‐se, para a maioria dos pacientes, ao uso de corticosteroides tópicos, ácido salicílico ou metotrexato.15 Práticas tradicionais asiáticas – como ventosaterapia, “coining” (raspagem da pele com moeda), moxabustão e remédios à base de ervas – também podem exacerbar a atividade da doença cutânea.38

Um dos fatores mais importantes que dificultam a estimativa precisa da prevalência é a acurácia diagnóstica, particularmente em skinof color. Em populações indígenas com fototipos de pele mais escuros, a psoríase pode apresentar características atípicas, levando ao subdiagnóstico ou a diagnósticos equivocados. O eritema em pele de fototipo VI de Fitzpatrick pode apresentar‐se com tonalidade marrom ou violácea, dificultando a avaliação e contribuindo para a subestimação dos escores do Psoriasis Area and Severity Index (PASI).32,38 A hiperpigmentação e a hipopigmentação pós‐inflamatórias também são mais acentuadas nessas populações, complicando ainda mais a avaliação clínica. Entre as populações Inuit, a psoríase frequentemente se manifesta como placas finas que lembram o eczema numular, o que pode retardar o diagnóstico e resultar em um estágio mais avançado da doença no momento da apresentação clínica.10,15 O reconhecimento tardio não apenas afeta os resultados do tratamento, mas também aumenta o risco de progressão para a forma grave da doença, para a qual terapias sistêmicas podem estar indisponíveis ou ser de difícil acesso em comunidades remotas.

Acesso reduzido a serviços dermatológicos e a pesquisas

Uma limitação importante desta revisão é que grande parte dos dados disponíveis consiste em relatos anedóticos ou resultados de pequenos estudos de campo com amostras populacionais reduzidas. A escassez de dados epidemiológicos em larga escala sobre populações indígenas é influenciada por questões subjacentes, como o acesso reduzido a serviços dermatológicos, a sub‐representação em ensaios clínicos e os desafios relacionados à acurácia diagnóstica.

Em muitos contextos de escassez de recursos, capacitar comunidades remotas e indígenas para acessar serviços dermatológicos convencionais pode ser um desafio. Em regiões rurais da África, o diagnóstico e o manejo de doenças de pele, incluindo a psoríase, são frequentemente realizados por agentes comunitários de saúde ou profissionais não médicos.41 Isso leva a diagnósticos incorretos de psoríase (mais comumente confundida com tinea corporis) e ao atraso no tratamento adequado, resultando, consequentemente, na progressão da doença e em maior morbidade.32 Barreiras de acesso também existem em nações de alta renda. Na Austrália, apenas 4% dos dermatologistas atuam em áreas rurais e remotas, e apenas 2% em áreas regionais, apesar de essas regiões abrigarem uma grande parcela das comunidades indígenas.42 Traumas históricos e intergeracionais agravam ainda mais esses desafios. Entre os aborígenes australianos, atitudes culturais em relação a doenças de pele, combinadas com a localização rural e o legado persistente da colonização, têm sido apontadas como barreiras para a adesão aos serviços dermatológicos convencionais.8

Lacunas na pesquisa também contribuem para a sub‐representação. Ensaios clínicos e estudos observacionais frequentemente deixam de relatar detalhadamente a origem racial ou étnica dos participantes, o que limita a capacidade de avaliar com precisão a carga da doença em comunidades indígenas.

Embora fatores biológicos, ambientais e culturais provavelmente contribuam para a menor prevalência de psoríase em comunidades indígenas, a escassez de dados epidemiológicos padronizados e de alta qualidade continua sendo um obstáculo importante para a compreensão da verdadeira carga global da doença. Portanto, o aprimoramento das práticas de obtenção e relato de dados é fundamental para enfrentar as desigualdades e embasar políticas de saúde pública.

Conclusão

Com base nos dados disponíveis e nas explicações biológicas, ambientais, culturais e sociais propostas, a psoríase parece ser menos frequente em populações indígenas; no entanto, as evidências atuais são limitadas, escassas e potencialmente pouco confiáveis. Persistem desafios significantes para garantir o diagnóstico oportuno e o acesso equitativo a cuidados dermatológicos, especialmente para povos indígenas em áreas remotas.

Para suprir essas lacunas, pesquisas futuras devem priorizar estudos epidemiológicos de base populacional e em larga escala que utilizem critérios diagnósticos padronizados e incluam explicitamente participantes indígenas. Melhorar a qualidade e a inclusividade da obtenção de dados é essencial para esclarecer a verdadeira carga global da psoríase e orientar o planejamento equitativo da assistência à saúde e a alocação de recursos.

ORCID ID

Sangho Lee: 0009‐0004‐4846‐5381

Francis Yi Xing Lai: 0000‐0003‐3976‐1432

Ricardo Romiti: 0000‐0003‐0165‐3831

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Yebin Yang: Obtenção, análise e interpretação de dados; elaboração e redação do manuscrito; análise estatística; concepção e planejamento do estudo.

Sangho Lee: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Francis Yi Xing Lai: Aprovação da versão final do manuscrito; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Ricardo Romiti: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica do manuscrito; concepção e planejamento do estudo.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Nenhum.

Agradecimentos

Agradecemos ao Dr. Franxis Yi Xing Lai por supervisionar o projeto e facilitar a comunicação com o Prof. Ricardo Romiti.

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Como citar este artigo: Yang Y, Lee S, Lai FY, Romiti R. Prevalence of psoriasis in indigenous communities around the world: a scoping review. An Bras Dermatol. 2026;101. https://doi.org/10.1016/j.abd.2026.501421.

Trabalho realizado em Monash Health, Victoria, Austrália.

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