Os agentes antifator de necrose tumoral alfa (TNF‐α), particularmente o adalimumabe, são amplamente utilizados em dermatologia para o tratamento de doenças inflamatórias como psoríase e hidradenite supurativa. Embora se saiba que a imunossupressão crônica aumente o risco de malignidade em virtude da vigilância imunológica prejudicada, os inibidores de TNF‐α não foram associados a aumento geral na incidência de câncer, exceto câncer de pele não melanoma e malignidades hematológicas.1 Relatos de tumores sólidos, incluindo câncer testicular, permanecem raros e pouco compreendidos. Apresentamos dois casos de pacientes que desenvolveram seminomas testiculares após o tratamento com adalimumabe. O objetivo deste artigo é destacar essa associação potencial e enfatizar a importância do monitoramento oncológico vigilante em pacientes recebendo terapia biológica de longo prazo.
Paciente do sexo masculino, de 36 anos, com hidradenite supurativa inflamatória grave (iHS4 >10, estágio III de Hurley), apresentando fístulas axilares, inguinais e genitais, foi diagnosticado com seminoma testicular quatro anos e nove meses após o início do tratamento com adalimumabe (80mg a cada duas semanas). O paciente relatou inchaço e dor progressivos no testículo direito; massa firme foi palpada. Após avaliação urológica, foi realizada orquiectomia inguinal direita, e o exame histopatológico confirmou seminoma testicular (pT1 N1 M0). Foi administrada quimioterapia adjuvante com cisplatina, bleomicina e etoposídeo. Após discussão com o oncologista, o adalimumabe foi descontinuado. Dois anos após o diagnóstico, o paciente permanece livre de recorrência do seminoma.
Paciente do sexo masculino, de 33 anos, com psoríase ungueal e artropática grave, além de hidradenite supurativa leve nas regiões axilar e glútea, foi diagnosticado com seminoma testicular 11 meses após o início do tratamento com adalimumabe (40mg a cada duas semanas). O paciente apresentava dor lombar, sudorese noturna, astenia e perda ponderal significante (8kg em um mês, aproximadamente 10% do peso corporal). Os exames laboratoriais revelaram leucocitose com neutrofilia, proteína C‐reativa elevada (128mg/L) e hematúria (8784 hemácias/mL). Em virtude do estado de imunossupressão, foi realizada tomografia computadorizada tóraco‐abdomino‐pélvica, que revelou grande conglomerado adenopático à esquerda, causando hidronefrose esquerda. A ultrassonografia escrotal identificou nódulo intratesticular sólido. Foi realizada orquiectomia inguinal esquerda, e a análise histopatológica confirmou seminoma testicular (pT1 cN3 M0). Após discussão com o oncologista responsável, a terapia com adalimumabe foi continuada. O paciente foi submetido a quimioterapia adjuvante com cisplatina, bleomicina e etoposídeo. No entanto, oito semanas após o fim da quimioterapia, observou‐se progressão da doença e o paciente evolui a óbito em decorrência da doença.
Embora não seja possível estabelecer relação causal direta, esses casos levantam a possibilidade de associação rara, mas biologicamente plausível, entre adalimumabe e seminoma testicular. Ambos os pacientes estavam na faixa etária típica para essa malignidade (25 e 40 anos), mas características clínicas adicionais podem ter contribuído. Embora grandes metanálises não tenham demonstrado aumento significante no risco geral de malignidade associado aos inibidores de TNF‐α, tumores raros podem ser subnotificados em virtude do curto período de seguimento e da notificação limitada.1 Notavelmente, um relato anterior descreveu tumor misto de células germinativas após terapia com infliximabe,2 e estudos experimentais mostraram que o TNF‐α promove a apoptose de células germinativas e pode atuar como supressor tumoral no tecido testicular.3,4 Sua inibição farmacológica poderia, portanto, comprometer a vigilância imunológica local e facilitar a proliferação de células germinativas e a transformação maligna.
Em conjunto, esses achados reforçam a importância da farmacovigilância contínua e a necessidade de incluir malignidades raras de órgãos sólidos no monitoramento de segurança em longo prazo das terapias anti‐TNF‐α.
Declaração de éticaConsentimento informado foi obtido do paciente vivo. Em relação ao paciente falecido, todas as informações foram anonimizadas e apresentadas de acordo com os padrões éticos para relatos de casos.
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresBeatriz F. Vilela: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; levantamento, obtenção, análise e interpretação dos dados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
I. Aparício Martins: Análise e interpretação dos dados; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Nélia Cunha: Análise e interpretação dos dados; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Joana Cabete: Análise e interpretação dos dados; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica da literatura; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorHiram Larangeira de Almeida Jr.
Como citar este artigo: Vilela BF, Martins IA, Cunha N, Cabete J. Testicular seminoma in patients receiving adalimumab: two case reports. An Bras Dermatol. 2026;101:501317.
Trabalho realizado no Departamento de Dermatovenereologia, Hospital Santo António dos Capuchos, Unidade Local de Saúde de São José, Lisboa, Portugal.
