Botriomicose cutânea é infecção bacteriana granulomatosa crônica rara que geralmente ocorre em pacientes imunocomprometidos ou com histórico de trauma anterior.1
Relata‐se o caso de paciente do sexo feminino, de 64 anos, sem comorbidades, com histórico de colocação de fios de sustentação um mês antes do início do quadro. Ela procurou um dermatologista particular em virtude de dermatose na região mandibular direita, caracterizada por nódulo medindo 5 × 4cm (fig. 1), doloroso à palpação e com nove meses de evolução. Foi realizada biopsia incisional fusiforme da pele, que revelou infiltrado inflamatório denso, superficial e profundo, composto por histiócitos, células gigantes multinucleadas do tipo Langhans, neutrófilos e plasmócitos, com formação de pseudofístula. A coloração de ácido periódico de Schiff (PAS) evidenciou um pequeno grânulo composto por múltiplas bactérias filamentosas (fig. 2). A coloração de Gram foi negativa. Exames de biologia molecular identificaram Klebsiella michiganensis. Com base nesses achados, diagnosticou‐se botriomicose. A paciente foi tratada com ciprofloxacino por via oral (500mg a cada 12 horas) durante três meses, obtendo remissão completa.
A botriomicose cutânea apresenta início insidioso. As extremidades são as áreas mais afetadas, enquanto a cabeça e o pescoço são menos frequentemente afetadas. Manifesta‐se por meio de nódulos, abscessos, fístulas e úlceras com secreção seropurulenta, podendo apresentar grânulos amarelados semelhantes aos da actinomicose.1
Traumas cutâneos, sejam acidentais ou pós‐operatórios, favorecem essa infecção.2 No presente caso, a colocação de fios de sustentação foi a fonte do trauma e da inoculação bacteriana.
Os grânulos na botriomicose são basofílicos, positivos para a coloração de PAS e podem ou não ser detectáveis pela coloração de Gram, dependendo do agente causador.3
É necessário diferenciá‐la de outras doenças que produzem grânulos, como micetoma, actinomicose e nocardiose.4 A histopatologia, a cultura e a biologia molecular auxiliam nessa distinção.3,5
O agente etiológico mais frequente é Staphylococcus aureus, seguido por Pseudomonas aeruginosa. Outros microrganismos causadores incluem Escherichia coli, estafilococos coagulase‐negativos, Streptococcus spp. e Proteus spp.6 O isolamento de Klebsiella michiganensis neste caso é excepcional. A confirmação diagnóstica exigiu a integração de achados clínicos, histopatológicos e moleculares, utilizando sequenciamento e RT‐PCR direcionados a regiões específicas do gene 16S rRNA, confirmando assim o diagnóstico.
Klebsiella michiganensis (mi.chi.ga.nen.sis; adj. masc. em latim neoclássico: Michiganensis, proveniente ou pertencente ao estado de Michigan, EUA, onde a cepa foi isolada) é uma bactéria descrita pela primeira vez em 2013 como uma das nove espécies do complexo K. oxytica, dentro do gênero Klebsiella. Caracteriza‐se pela formação de colônias pequenas, circulares, mucoides, convexas, de bordas lisas (inteiras), opacas e brancas. As bactérias são bacilos retos, Gram‐negativos, encapsulados e imóveis, com 0,5–0,8μm de diâmetro e 1,0–2,0μm de comprimento, apresentando metabolismo anaeróbio facultativo.5
O tratamento da botriomicose baseia‐se no uso de antibióticos selecionados com base no perfil de suscetibilidade, até a resolução da infecção. A capacidade de K. michiganensis de adquirir e disseminar genes de resistência a antimicrobianos é motivo de crescente preocupação. Cepas produtoras de carbapenemases, como OXA‐181 e NDM‐1, têm sido associadas a plasmídeos móveis, como IncHI5 e IncFIB 4,6, os quais conferem multirresistência a betalactâmicos, aminoglicosídeos, fluoroquinolonas e sulfonamidas.4 No presente caso, foram realizados testes de resistência a antibióticos, incluindo a detecção de genes como blaKPC, NDM ou OXA; não foram identificados mecanismos de resistência a fluoroquinolonas na cepa analisada, o que explica a boa resposta clínica à ciprofloxacina.
Este caso constitui o primeiro relato de botriomicose cutânea secundária a um procedimento estético causada por Klebsiella michiganensis, ampliando o espectro etiológico dessa entidade. A identificação precisa por meio de técnicas moleculares foi fundamental para o diagnóstico, evidenciando as limitações dos métodos convencionais para espécies descritas mais recentemente.
ORCID IDMartha Daniela Alcázar Olaiz: 0000‐0001‐6512‐2322
Roberto Arenas Guzmán: 0000‐0002‐2992‐9564
Rigoberto Hernández Castro: 0000‐0002‐5656‐0942
Grecia Figueroa Ramos: 0000‐0003‐2068‐6911
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresSamantha Cruz López: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; elaboração e redação do manuscrito.
Martha Daniela Alcázar Olaiz: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; elaboração e redação do manuscrito.
Carlos Daniel Sánchez Cárdenas: Aprovação da versão final do manuscrito; elaboração e redação do manuscrito.
Roberto Arenas Guzmán: Aprovação da versão final do manuscrito; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica do manuscrito.
Rigoberto Hernández Castro: Aprovação da versão final do manuscrito; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica do manuscrito.
Grecia Figueroa Ramos: Aprovação da versão final do manuscrito; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica do manuscrito.
Conflito de interessesNenhum.
EditorNeusa Yuriko Sakai Valente
Como citar este artigo: Cruz López S, Alcázar Olaiz MD, Sánchez Cárdenas CD, Arenas Guzmán R, Hernández Castro R, Figueroa Ramos G. Botryomycosis by Klebsiella michiganensis secondary to aesthetic procedure. An Bras Dermatol. 2026;101:501436.
Trabalho realizado no Hospital General “Dr Manuel Gea González”, Cidade do México, México.


