A leishmaniose cutânea (LC) afeta até 1,2 milhão de pessoas anualmente, principalmente em regiões com recursos limitados. O antimoniato de meglumina, tratamento padrão, é limitado pela toxicidade sistêmica, administração injetável e resistência crescente. A miltefosina, uma alternativa oral, oferece vantagens práticas, embora os dados comparativos de eficácia e segurança permaneçam inconsistentes.
ObjetivoComparar a eficácia e a segurança de miltefosina versus antimoniato de meglumina para LC do Novo Mundo.
MétodosFoi realizada busca sistemática nas bases de dados PubMed, Embase, Scopus e Cochrane Library por ensaios clínicos randomizados que comparassem diretamente a miltefosina e o antimoniato de meglumina. As razões de risco (RR) com intervalos de confiança de 95% (IC 95%) foram calculadas usando modelos de efeitos aleatórios. A heterogeneidade foi avaliada com a estatística I2. O risco de viés foi avaliado usando a ferramenta Cochrane RoB‐2. A certeza da evidência foi avaliada utilizando a abordagem Grading of Recommendations, Assessment, Development, and Evaluations (GRADE).
ResultadosOito ensaios clínicos envolvendo 898 pacientes (502 tratados com miltefosina e 396 com antimoniato de meglumina) foram incluídos. A miltefosina apresentou taxas de cura significantemente maiores em dois meses (RR=0,83; IC 95%: 0,71–0,98; I2=0%). As diferenças em seis meses não foram estatisticamente significantes. Os efeitos colaterais gastrintestinais foram mais frequentes com a miltefosina, enquanto elevações de enzimas hepáticas, artralgia (RR=10,08; IC 95%: 2,36–43,12) e febre (RR=2,98; IC 95%: 1,53–5,80) foram mais comuns com o antimoniato de meglumina.
Limitações do estudoAlta heterogeneidade, curto período de acompanhamento, tamanho amostral reduzido e variabilidade entre os estudos podem limitar a precisão.
ConclusãoA miltefosina demonstra resposta inicial superior e perfil sistêmico mais seguro. No entanto, a certeza da evidência, avaliada pelo GRADE, variou de muito baixa a alta em todos os desfechos, e os dados de longo prazo permanecem limitados, destacando a necessidade de mais estudos de alta qualidade com seguimento prolongado.
A leishmaniose cutânea (LC) é doença tropical negligenciada (DTN) que afeta principalmente populações empobrecidas em regiões tropicais e subtropicais em todo o mundo. Ela é amplamente categorizada em duas formas principais: LC do Velho Mundo, que ocorre em partes da África, Europa e Ásia, e LC do Novo Mundo. Essas formas diferem significantemente em distribuição geográfica, espécies de Leishmania, manifestações clínicas e resposta ao tratamento.1
A LC do Novo Mundo, também conhecida como leishmaniose cutânea americana (LCA) ou leishmaniose tegumentar americana (LTA), é especialmente prevalente em áreas tropicais e subtropicais das Américas. A infecção é transmitida pela picada de flebotomíneos do gênero Lutzomyia e normalmente leva a úlceras cutâneas persistentes que podem resultar em cicatrizes significantes. Em casos mais graves, a doença pode se estender às membranas mucosas do nariz, boca e garganta.2,3
Múltiplas espécies de Leishmania são responsáveis pela LCA; Leishmania (Viannia) braziliensis, Leishmania (Leishmania) amazonensis e Leishmania (Viannia) guyanensis são as mais comumente identificadas no Brasil.2 Esses parasitas, classificados nos subgêneros Leishmania e Viannia, apresentam diferenças notáveis em sua capacidade de causar doença grave e em sua resposta às opções de tratamento.3
Essa diversidade biológica e clínica contribui para a dificuldade de controlar a LCA, especialmente em países endêmicos como Brasil, Colômbia e Peru.4,5 Essa complexidade se reflete na carga substancial e persistente da doença. Embora seja estimado que entre 600.000 e 1 milhão de novos casos de LC ocorram globalmente a cada ano, apenas cerca de 200.000 são oficialmente notificados à Organização Mundial da Saúde (OMS).6
Somente em 2023, foram relatados 272.098 novos casos de LC, dos quais 94% eram originários da região do Mediterrâneo Oriental e das Américas. O Brasil, juntamente com Afeganistão, Argélia, Colômbia, Irã, Iraque, Paquistão, Peru, Sri Lanka, Síria e Iêmen, foi responsável por mais de 90% de todos os casos relatados globalmente. Notavelmente, o número de casos nas Américas se recuperou após as quedas durante a pandemia de COVID‐19, refletindo tanto a retomada da transmissão quanto a melhora na detecção de casos. Apesar disso, a subnotificação continua sendo problema persistente em virtude de infraestrutura de vigilância limitada, das barreiras de acesso à saúde e das variações nos sistemas nacionais de notificação.7
Dada a carga substancial da doença e a considerável variabilidade na apresentação clínica e nas espécies de Leishmania em todas as regiões endêmicas, o tratamento da LC continua sendo particularmente desafiador.8 Os antimoniais pentavalentes (SbV) têm sido o principal tratamento para leishmaniose desde 1945; o antimoniato de meglumina é o mais comumente utilizado. Embora o mecanismo de ação dos SbV não seja totalmente compreendido, acredita‐se que sua atividade antileishmania se deva à estimulação dos macrófagos do hospedeiro. No entanto, o uso de SbV está associado a efeitos adversos graves, incluindo hepatotoxicidade, cardiotoxicidade e nefrotoxicidade.9,10 Desde a década de 1980, a resistência ao antimoniato de meglumina aumentou, em grande parte por seu uso inadequado.11 Além disso, a administração parenteral apresenta desafios adicionais, particularmente em áreas remotas e com recursos limitados, onde a adesão aos regimes de tratamento pode ser difícil.10
A miltefosina, medicamento oral, é alternativa em casos de resistência aos antimoniais. Seu mecanismo de ação envolve a interferência com os lipídios na membrana do parasita Leishmania e sua função mitocondrial. Estudos sugerem que a miltefosina pode ser mais bem tolerada em comparação com outros tratamentos, embora também existam relatos de efeitos colaterais como vômitos, diarreia e, em menor grau, hepatotoxicidade e nefrotoxicidade.11 Uma das principais limitações da miltefosina é seu potencial teratogênico, agravado por sua persistência prolongada no organismo por até quatro meses após o tratamento.12
Apesar da disponibilidade dessas terapias, a recidiva continua sendo comum. A resistência parasitária e a erradicação incompleta da Leishmania, particularmente sua persistência no tecido cicatricial, podem contribuir para a recorrência da doença. Almeida‐Santos et al., em revisão sistemática, relataram taxas de recidiva de 52% após um único medicamento, com 45% dos pacientes tratados com glucantime (antimoniato de meglumina), isoladamente ou em combinação, apresentando falha no tratamento, mais frequentemente definida entre seis e 12 meses após o tratamento. Esses achados destacam a dificuldade contínua em alcançar a cura parasitológica sustentada na LC.13
Embora a eficácia da miltefosina tenha sido demonstrada em vários estudos, a comparação entre miltefosina e antimoniato de meglumina permanece limitada e inconsistente, visto que diferentes estudos relatam resultados variados em relação à eficácia dos dois medicamentos.14 Dada a toxicidade dos medicamentos antimoniais e a dificuldade de seu uso em áreas remotas, a miltefosina apresenta importante alternativa para o tratamento da LC, especialmente em populações de baixa renda, pela facilidade de administração.10
Embora essa comparação seja clinicamente relevante, nenhuma síntese abrangente resolveu ainda as evidências conflitantes sobre a eficácia e segurança relativas do antimoniato de meglumina e da miltefosina em diversos contextos. Várias metanálises anteriores, publicadas entre 2013 e 2021, examinaram aspectos dessa questão. Entretanto, a maioria combinou estudos de LC do Velho Mundo e do Novo Mundo, apesar das diferenças significantes na distribuição das espécies, na apresentação clínica e na resposta ao tratamento entre as duas regiões.14–17 Consequentemente, suas conclusões careciam de especificidade geográfica e forneciam orientações limitadas para as decisões de tratamento nas Américas.
A presente análise aborda especificamente essa lacuna, concentrando‐se exclusivamente na LC do Novo Mundo, avaliando as taxas de cura desde os estágios iniciais até o seguimento em longo prazo e avaliando sistematicamente as taxas de falha do tratamento, desfecho frequentemente subnotificado em estudos anteriores. Portanto, a presente revisão sistemática e metanálise tem como objetivo comparar a eficácia e a toxicidade do antimoniato de meglumina e da miltefosina para o tratamento da LC do Novo Mundo.
MétodosEsta revisão sistemática foi conduzida de acordo com os protocolos estabelecidos pela Cochrane Collaboration e seguiu as diretrizes descritas no Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta‐Analyses (PRISMA).18,19 O protocolo do estudo foi pré‐registrado no International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO) sob o número de identificação CRD420251044262.
Critérios de elegibilidade e seleção de estudosOs critérios de elegibilidade foram estruturados de acordo com a estrutura PICOS: População: pacientes com LC do Novo Mundo; Intervenção: miltefosina; Comparação: antimoniato de meglumina; Desfechos: taxas de cura em vários pontos de seguimento, falha do tratamento e eventos adversos; Tipo de estudo: ensaios clínicos randomizados (ECRs).
Dois revisores (A.C.P.V. e F.C.L.) selecionaram independentemente os artigos para inclusão, resolvendo quaisquer discrepâncias por consenso. A inclusão nesta revisão sistemática foi restrita a estudos que atendessem a todos os seguintes critérios de elegibilidade: 1) ECRs controlados; 2) estudos in vivo; 3) estudos em humanos; e 4) comparações diretas entre miltefosina e antimoniato de meglumina para o tratamento da LC do Novo Mundo. Os critérios de exclusão incluíram: 1) artigos de revisão, relatos de caso, séries de casos, estudos observacionais e ensaios clínicos não randomizados; 2) estudos que não especificaram explicitamente o antimoniato de meglumina como o antimonial pentavalente utilizado; 3) ensaios clínicos não publicados ou incompletos; 4) estudos in vitro; 5) estudos que não compararam diretamente a miltefosina ao antimoniato de meglumina; 6) estudos sobre LC do Velho Mundo; e 7) publicações duplicadas.
Estratégia de busca e extração de dadosFoi realizada busca sistemática nas bases de dados PubMed, Embase, Scopus e Cochrane Library, desde a sua criação até 1° de novembro de 2024. A estratégia de busca utilizada foi: (“Meglumine Antimoniate” OR “Glucantime” OR “N‐Methylglucamine Antimonate”) AND (“Miltefosine” OR “hexadecylphosphocholine” OR “Impavido” OR “Miltex”) AND (“Cutaneous Leishmaniasis” OR “American cutaneous leishmaniasis” OR “tegumentary leishmaniasis” OR CL OR ACL OR “skin” OR “dermal leishmaniasis”).
Após a remoção de duplicatas, os títulos e resumos dos estudos restantes foram analisados no Rayyan. Os títulos e resumos dos estudos foram revisados com base nos critérios de elegibilidade. Posteriormente, os artigos selecionados foram submetidos a exame minucioso por meio da leitura do texto completo. Esses processos de triagem foram realizados independentemente por dois revisores (A.C.P.V. e F.C.L.) para minimizar o viés. As divergências foram resolvidas por discussão e consenso entre os dois revisores.
Dois autores (A.C.P.V. e F.C.L.) extraíram os dados independentemente para obter as seguintes informações de cada estudo: 1) características do estudo: nome dos autores, ano de publicação, país de origem, espécie de parasita, critérios de inclusão, número de pacientes, idade dos pacientes, seguimento, intervenções; 2) desfechos: taxas de cura em um, dois, três, quatro, seis e 12 meses, falha de cura em seis meses, taxas de cura em dois, três e seis meses em infecções por L. braziliensis, vômitos, náuseas, dor abdominal e diarreia, alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), artralgia, febre e cefaleia. Outros efeitos adversos, como alterações cardíacas e renais, não foram avaliados em virtude da insuficiência de dados nos estudos incluídos para permitir análise estatística. Discrepâncias na extração de dados foram resolvidas por consenso.
Avaliação da qualidadeDois autores (A.C.P.V. e F.C.L.) avaliaram a qualidade dos estudos incluídos. Conforme sugerido pela Cochrane, o risco de viés foi avaliado utilizando a ferramenta de risco de viés da Cochrane para ensaios randomizados (RoB‐2).20 Os estudos incluídos nesta metanálise foram classificados como tendo baixo risco de viés e algumas preocupações quanto ao risco de viés. Além disso, a qualidade geral das evidências foi avaliada seguindo as diretrizes Grading of Recommendations Assessment, Development, and Evaluations (GRADE).21 Os estudos foram categorizados como tendo evidências de qualidade muito baixa, baixa, moderada ou alta, com base em considerações como risco de viés, inconsistência dos resultados, imprecisão, viés de publicação e magnitude dos efeitos do tratamento.
Análise estatísticaA análise estatística foi realizada utilizando o software estatístico R versão 4.5.0 (R Foundation for Statistical Computing). Os seguintes pacotes foram utilizados: “metaprop”, “metafor”, “dmetar”, “ggplot2” e “meta”. Os desfechos foram avaliados utilizando proporções com intervalos de confiança de 95% (IC 95%). De acordo com as recomendações da Cochrane, um modelo de efeitos aleatórios foi utilizado para todos os desfechos, considerando a variabilidade entre os estudos. O teste Q de Cochrane e a estatística I2 foram realizados para quantificar a heterogeneidade. Os endpoints foram considerados com baixa heterogeneidade se I2 < 25%. Para minimizar a heterogeneidade e detectar outliers, foi realizada análise de sensibilidade utilizando o método leave‐one‐out. Adicionalmente, gráficos de Baujat foram gerados para os desfechos que apresentaram heterogeneidade moderada a alta (I2 > 25%) para identificar os estudos que mais contribuíram para a heterogeneidade e influência.
ResultadosSeleção de estudosComo ilustrado na figura 1, a busca identificou 2.161 resultados: 80 do PubMed, 371 do Embase, 1.680 do Scopus e 30da Cochrane Library. Desses, 388 foram identificados como duplicados e 1.736 foram excluídos com base no título e/ou resumo por não atenderem aos critérios de inclusão. Posteriormente, 37 estudos foram submetidos à revisão completa do texto, dos quais oito ECRs atenderam aos critérios de elegibilidade e foram incluídos nesta revisão sistemática. Foram incluídos 898 pacientes, dos quais 396 foram tratados com antimoniato de meglumina e 502 com miltefosina.22–29
Análise conjunta de todos os estudosA presente análise incluiu oito ECRs que avaliaram a eficácia do antimoniato de meglumina e da miltefosina para o tratamento da LC. Os participantes tinham entre 0 e 65 anos, todos com diagnóstico confirmado de LC. A espécie de parasita mais frequentemente identificada foi L. braziliensis. Os períodos de seguimento variaram de um a 12 meses, com a maioria dos estudos relatando os resultados em três e seis meses após o tratamento.22–29 As características dos estudos estão detalhadas na tabela 1.22–29
Características basais dos estudos incluídos
| Estudo, ano | Desenho do estudo | Espécie de Parasita | Critérios de inclusão | N° de Pacientes MF/AM | Faixa etária (anos) | Seguimento | Intervenções |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Chrusciak Talhari et al., 201122 | ECR | L. guyanensis | 1 a 5 lesões, 1 ulcerada, < 3 meses, amastigotas de Leishmania na biopsia, sem tratamento prévio | 56/28 | 2–65 | 6 e 12 m | AM: IV 20mg (13‐65 anos) ou 15mg (2‐12 anos) durante 20 dias (máximo de 3 ampolas/dia) |
| L. braziliensis | |||||||
| L. lainsoni | MF: Administração oral de 2,5 mg/kg diariamente durante 28 dias | ||||||
| Machado et al., 201023 | ECR | L. braziliensis | Úlcera típica, teste de Montenegro positivo, em área endêmica; idade 2‐65 anos; até 5 úlceras, 2 regiões; 10‐50 mm; < 90 dias desde a primeira úlcera. | 60/30 | 4–65 | 2 s, 1, 2, 4 e 6 m | AM: IV 20mg SbV/kg/dia durante 20 dias (máximo de 3 ampolas ou 1.215mg SbV/dia) |
| MF: Administração oral de 2,5 mg/kg de peso corporal (máximo de 150 mg) diariamente durante 28 dias | |||||||
| Machado et al., 202124 | ECR | L. braziliensis | Idade entre 18 e 65 anos, 1 a 3 úlceras (10 a 50 mm), menos de 90 dias desde o início | 47/45 | 4–65 | 2 e 6 m | AM: IV 20mg SbV/kg/dia durante 20 dias |
| MF: Administração oral de 2,5 mg/kg de peso corporal (máximo de 150 mg) diariamente durante 28 dias + placebo | |||||||
| Mendes et al., 202025 | ECR | L. guyanensis | Idade entre 18 e 65 anos, 1 a 5 úlceras (10 a 50 mm), duração da doença de 30 a 90 dias, sem tratamento prévio | 50/50 | 27–50 | 2, 3 e 6 m | AM: IV 20mg SbV/kg/dia durante 20 dias |
| L. braziliensis | |||||||
| L. naiffi | MF: Administração oral de 2,5 mg/kg de peso corporal (máximo de 150 mg) diariamente durante 28 dias + placebo | ||||||
| Rubiano et al., 201226 | ECR | L. panamensis/ guyanensis | LC confirmada parasitologicamente | 58/58 | 2–12 | 6 m | AM: (81mg Sb/mL) 20mg Sb/kg/dia IM durante 20 dias |
| MF: 10 mg/cápsula, 1,5–2,5 mg/kg/dia por via oral durante 28 dias, divididos em 2–3 doses | |||||||
| Soto et al., 200727 | ECR | L. braziliensis | ND | 45/26 | ND | 2,4 e 6 m | AM: IM por 28 dias |
| MF: Oral por 28 dias | |||||||
| Soto et al., 200828 | ECR | L. braziliensis | Úlcera positiva para leishmania (Giemsa), 12+, sem LM, sem tratamento nos últimos seis meses, sem comorbidades significantes | 41/16 | ≥ 12 | 1, 3, 6 e 12 m | AM: IM 20 mg/kg/d por 20 dias |
| MF: Via oral, 2,5 mg/kg/dia por 28 dias | |||||||
| Vélez et al., 201029 | ECR | L. (V.) panamensis / braziliensis | Leishmaniose confirmada; sem tratamento em seis semanas; funções renal, hepática e hematológica normais | 145/143 | 19–38 | 6 m | AM: IM 20 mg/kg/dia por 20 dias |
| MF: A cápsula de 50mg foi tomada três vezes ao dia por 28 dias |
ECR, ensaio clínico randomizado; ND; não disponível; LC, leishmaniose cutânea; LM, leishmaniose mucosa; AM, antimoniato de meglumina; MF, miltefosina; ± média ou mediana; IV, intravenoso; IM, intramuscular.
Em relação aos resultados de eficácia, não foi observada diferença significante entre os grupos nas taxas de cura em um mês (RR=1,20; IC 95%: 0,86–1,69; p=0,283; I2=77,3%; fig. suplementar 1). Esta metanálise incluiu dois estudos com um total de 144 pacientes (73 tratados com miltefosina e 44 tratados com antimoniato de meglumina).22,28 Embora um estudo tenha demonstrado benefício significante com a miltefosina (RR=1,41; IC 95%: 1,17–1,71),28 o efeito geral não foi estatisticamente significante em virtude da heterogeneidade considerável (Qui2=4,40; p=0,0359). A análise do gráfico de Baujat está disponível no Material Suplementar (fig. suplementar 2). A certeza da evidência para esse desfecho foi muito baixa em virtude da inconsistência e da grave imprecisão (fig. 2).
Essa tendência mudou notavelmente aos dois meses, quando a miltefosina demonstrou taxa de cura estatisticamente significante maior em comparação com o antimoniato de meglumina (RR=0,83; IC 95%: 0,71–0,98; p=0,024; I2=0%; fig. 3A). Com base em dois estudos que abrangeram 161 pacientes (105 tratados com miltefosina e 56 com antimoniato de meglumina),23,27 esse efeito foi consistente entre os ensaios, sem indicação de heterogeneidade (Qui2=1,60; p=0,6596), reforçando a robustez do achado. Resultados consistentes entre os estudos e intervalos de confiança estreitos sustentaram alta classificação de certeza para esse desfecho (fig. 2).
Aos três meses, a miltefosina continuou a mostrar vantagem numérica, embora a diferença não tenha atingido significância estatística (RR=0,89; IC 95%: 0,67–1,19; p=0,443; I2=79,9%; fig. 3B). Essa análise incluiu quatro estudos com um total de 345 pacientes, dos quais 155 receberam miltefosina e 134 receberam antimoniato de meglumina.24,25,27,29 As análises de sensibilidade leave‐one‐out demonstraram alterações mínimas no tamanho do efeito agrupado. A heterogeneidade diminuiu mais quando o estudo de Machado et al., 2021 foi excluído (I2=57%).26 A análise do gráfico de Baujat indicou que o estudo de Velez et al. contribuiu mais para a heterogeneidade e para a influência na estimativa do efeito geral, seguidos por Machado et al. (figs. suplementares 3 e 4).24,29 A certeza da evidência foi classificada como moderada em virtude da imprecisão e inconsistência (fig. 2).
Aos quatro meses, as taxas de cura permaneceram comparáveis entre os grupos (RR=0,95; IC 95%: 0,79–1,13; p=0,553; I2=12,5%; fig. suplementar 5). Essa análise incluiu dois estudos com um total de 155 pacientes, 101 tratados com miltefosina e 54 com antimoniato de meglumina. Ambos os estudos relataram resultados consistentes e a heterogeneidade foi baixa (Qui2=1,14; p=0,2851).22,27 Apesar da baixa heterogeneidade, o intervalo de confiança cruzou a linha de nenhum efeito, levando à classificação de certeza moderada com uma redução de grau devido à imprecisão (fig. 2).
Aos seis meses, não foi encontrada diferença significante nas taxas de cura em longo prazo, embora tenha havido uma ligeira vantagem para a miltefosina (RR=0,89; IC 95%: 0,74–1,06; p=0,179; I2=73%; fig. 3C). Essa análise incluiu oito estudos, totalizando 898 pacientes, dos quais 502 foram tratados com miltefosina e 396 com antimoniato de meglumina.22–29 As análises leave‐one‐out revelaram variabilidade moderada nas estimativas de efeito (intervalo de RR: 0,81–1,03). A exclusão do estudo de Velez et al. reduziu a heterogeneidade, embora a interpretação geral tenha permanecido inalterada. A análise do gráfico de Baujat identificou novamente Velez et al. como tendo a maior contribuição tanto para a heterogeneidade quanto para a influência no efeito agrupado geral, seguido por Machado et al. (figs. suplementares 6 e 7).24,29 Apesar dessas influências, o resultado geral foi estável. A certeza da evidência foi baixa (fig. 2).
Aos 12 meses, não foi observada diferença estatisticamente significante nas taxas de cura entre os tratamentos (RR=0,95; IC 95%: 0,71–1,29; p=0,755; I2=59,9%; fig. suplementar 8). Essa análise foi baseada em dois estudos que incluíram 142 pacientes, dos quais 97 foram tratados com miltefosina e 45 com antimoniato de meglumina.22,28 A análise do gráfico de Baujat está disponível no material suplementar (fig. suplementar 9). A certeza da evidência foi baixa, em virtude dos amplos intervalos de confiança observados e a heterogeneidade observada entre os estudos incluídos (fig. 2).
Leishmania braziliensisPara investigar melhor as possíveis diferenças entre subgrupos, a eficácia aos dois, três e seis meses também foi avaliada especificamente em pacientes infectados com L. braziliensis.
Aos dois meses, a miltefosina demonstrou taxas de cura significantemente maiores em comparação com o antimoniato de meglumina (RR=0,78; IC 95%: 0,63–0,96; p=0,022; I2=0%; fig. 4A), com resultados consistentes entre os estudos e sem heterogeneidade. Essa análise foi baseada em dois estudos que abrangeram 161 pacientes (105 tratados com miltefosina e 56 com antimoniato de meglumina).23,27
Aos três meses, não foi encontrada diferença estatisticamente significante (RR=0,80; IC 95%: 0,46–1,38; p=0,421; I2=87,8%; fig. 4B). Essa análise incluiu dois estudos com um total de 151 pacientes – 90 tratados com miltefosina e 61 com antimoniato de meglumina.24,28 A análise de Baujat indicou inconsistência principalmente devido a Machado et al. (fig. suplementar 10).24
Aos seis meses, não foi observada diferença estatisticamente significante nas taxas de cura entre miltefosina e antimoniato de meglumina (RR=0,93; IC 95%: 0,71–1,23; p=0,608; I2=74,7%; fig. 4C). Essa análise incluiu cinco estudos com 413 pacientes, dos quais 244 foram tratados com miltefosina e 169 com antimoniato de meglumina.23,24,27–29 A análise de sensibilidade leave‐one‐out mostrou que a heterogeneidade diminuiu mais quando o estudo de Machado et al. foi excluído (I2=52,7%), sugerindo que contribuiu significantemente para a heterogeneidade. De modo consistente, o gráfico de Baujat indicou que Machado et al. e Velez et al. foram os principais contribuintes tanto para a heterogeneidade quanto para a influência no resultado agrupado (figs. suplementares 11 e 12).24,29
Falha de cura em seis mesesA falha de cura em seis meses também foi avaliada como desfecho complementar de eficácia. Na análise agrupada, não foi encontrada diferença estatisticamente significante entre a miltefosina e o antimoniato de meglumina (RR=1,23; IC 95%: 0,63–2,40; p=0,550; I2=80,7%; fig. 5). Essa análise incluiu cinco estudos abrangendo 635 pacientes, dos quais 360 foram tratados com miltefosina e 275 com antimoniato de meglumina.22,23,26,28,29 A análise de leave‐one‐out confirmou a instabilidade da estimativa agrupada, com apenas a remoção do estudo de Velez et al. reduzindo significantemente a heterogeneidade (I2=0%) e alterando o resultado em favor do antimoniato de meglumina (RR=1,81; IC 95%: 1,25–2,63), sugerindo que esse estudo influenciou substancialmente o efeito geral. A análise do gráfico de Baujat identificou novamente o estudo de Velez et al. como tendo a maior contribuição tanto para a heterogeneidade quanto para a influência no efeito agrupado geral (figs. suplementares 13 e 14).29 A certeza da evidência foi muito baixa (fig. 2).
Desfechos de segurançaEventos adversos gastrintestinais foram consistentemente mais frequentes no grupo da miltefosina. Vômitos e náuseas foram avaliados em quatro estudos envolvendo 552 pacientes, demonstrando riscos significantemente menores com o antimoniato de meglumina: vômitos (RR=0,17; IC 95%: 0,06–0,45; p < 0,001; I2=47,8%; fig. 6A) e náuseas (RR=0,38; IC 95%: 0,24–0,60; p < 0,001; I2=0%; fig. 6B).22,23,26,29 Dor abdominal foi avaliada em três estudos, incluindo 464 pacientes, e também ocorreu significantemente menos frequentemente com antimoniato de meglumina (RR=0,33; IC 95%: 0,13–0,86; p=0,023; I2=23,8%; fig. suplementar 15).23,26,29 Diarreia foi avaliada em quatro estudos com 552 pacientes e, embora mais frequente com miltefosina, a diferença não foi estatisticamente significante (RR=0,43; IC 95%: 0,18–1,07; p=0,070; I2=0%; fig. suplementar 16).22,23,26,29 A certeza da evidência para vômito foi classificada como moderada em virtude da inconsistência (fig. suplementar 17).
Em contraste, os eventos adversos hepáticos foram mais comuns com o antimoniato de meglumina, com taxas significantemente mais elevadas de elevação de ALT (RR=2,31; IC 95%: 1,24–4,29; p=0,008; I2=0%; fig. suplementar 18) e AST (RR=2,77; IC 95%: 1,39–5,52; p=0,004; I2=0%; fig. suplementar 19), favorecendo a miltefosina. Esses achados foram baseados em dois estudos que incluíram 374 pacientes – 186 tratados com miltefosina e 188 com antimoniato de meglumina.26,29
Da mesma maneira, os sintomas musculoesqueléticos e sistêmicos também foram mais frequentes com o antimoniato de meglumina. Artralgia foi avaliada em três estudos envolvendo 438 pacientes e ocorreu significantemente menos frequentemente no grupo da miltefosina (RR=10,08; IC 95%: 2,36–43,12; p=0,002; I2=38,0%; fig. 6C).22,23,29 A febre foi avaliada em três estudos incluindo 464 pacientes e também apresentou risco significantemente menor com a miltefosina (RR=2,98; IC 95%: 1,53–5,80; p=0,001; I2=37,3%; fig. suplementar 20).23,26,29 Cefaleia foi avaliada em dois estudos com um total de 204 pacientes e apresentou tendência não significante na mesma direção (RR=1,57; IC 95%: 0,94–2,63; p=0,086; I2=0%; fig. suplementar 21).23,26 Artralgia e febre foram ambas classificadas como de alta certeza de evidência (fig. suplementar 17).
As análises de sensibilidade leave‐one‐out e Baujat para vômitos, artralgia e febre são apresentadas no material suplementar (figs. suplementares 22–27).
Avaliação de qualidade e evidênciasAs avaliações individuais dos ECRs utilizando a ferramenta RoB‐2 são ilustradas na figura 7. No geral, a maioria dos estudos foi classificada como tendo “algumas preocupações”, principalmente pelo viés na seleção do resultado relatado, já que a maioria dos estudos não forneceu protocolo de ensaio ou plano de análise estatística.
DiscussãoEsta metanálise comparou a eficácia e a toxicidade do antimoniato de meglumina e da miltefosina para LC, incluindo 903 pacientes. Os principais achados foram: 1) a miltefosina demonstrou taxas de cura superiores em dois meses, com efeitos consistentes entre os estudos e alta certeza de evidência; 2) não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes em um, três, quatro, seis ou 12 meses, embora a miltefosina tenha apresentado ligeira vantagem numérica em três e seis meses; 3) em pacientes infectados com L. braziliensis, a miltefosina apresentou taxas de cura significantemente maiores em dois meses. No entanto, não foram observadas diferenças significantes em três ou seis meses; 4) a miltefosina foi associada a mais eventos adversos gastrintestinais (p. ex., náuseas, vômitos), enquanto o antimoniato de meglumina apresentou maiores taxas de elevação de enzimas hepáticas, artralgia e febre. Esses achados sugerem que, embora a miltefosina ofereça algumas vantagens de eficácia e menos efeitos colaterais sistêmicos, sua toxicidade gastrintestinal e potencial de recidiva devem ser cuidadosamente considerados.
Para contextualizar esses achados, é importante revisar o contexto terapêutico. A miltefosina é recomendada em áreas endêmicas onde alternativas injetáveis, como antimoniais pentavalentes, anfotericina B lipossomal e paromomicina, apresentam limitações. Apesar de sua eficácia comprovada, a miltefosina possui contraindicações importantes, incluindo a rigorosa evitação durante a gravidez em virtude da teratogenicidade e de sua persistência prolongada no organismo. Também é contraindicada em pacientes com insuficiência renal ou hepática grave.30,31
Da mesma maneira, o antimoniato de meglumina requer consideração cuidadosa. Normalmente administrado por via intravenosa ou intramuscular durante período de tratamento semelhante ao da miltefosina, exige uso cauteloso em pacientes com condições cardíacas, hepáticas ou renais preexistentes em virtude de riscos como intolerância ao antimônio e arritmias. Assim como a miltefosina, seu uso é contraindicado durante a gravidez e recomenda‐se cautela durante a amamentação, apesar dos dados clínicos limitados.32
Os presentes resultados agrupados mostraram eficácia inicial superior da miltefosina, particularmente no seguimento de dois meses, alinhando‐se com os achados de ECRs anteriores. Em um estudo, 81,7% dos pacientes que receberam miltefosina alcançaram a cura da lesão em dois meses, em comparação com 60% no grupo do antimoniato de meglumina.23 Do mesmo modo, outro ECR relatou taxas de cura aparente de 73,2% para miltefosina versus 60,7% para antimoniato de meglumina no mesmo ponto de tempo.22 Esses achados ressaltam a vantagem da miltefosina em promover resposta terapêutica mais rápida em comparação com as terapias antimoniais tradicionais.
Entretanto, embora a miltefosina demonstre benefícios de eficácia inicial, as diferenças nas taxas de cura entre a miltefosina e o antimoniato de meglumina tendem a diminuir com o tempo. Nenhuma diferença estatisticamente significante foi observada em três, quatro, seis ou 12 meses após o tratamento, embora a miltefosina tenha mantido consistentemente ligeira vantagem numérica em três e seis meses. Apoiando essas observações, um estudo sobre LC do Velho Mundo e do Novo Mundo, realizado por Iranpour et al., descobriu que a miltefosina foi mais eficaz do que o antimoniato de meglumina no seguimento de três meses, particularmente quando um estudo com alta relevância foi excluído das análises de sensibilidade. No seguimento de seis meses, as análises agrupadas não revelaram diferença significante na eficácia entre os dois tratamentos.14
Em infecções por L. braziliensis, a miltefosina alcançou taxas de cura significantemente maiores em dois meses, mas essa vantagem não foi mantida em seguimentos posteriores. Embora a miltefosina promova cicatrização inicial mais rápida, sua eficácia em longo prazo parece comparável à do antimoniato de meglumina. Achados semelhantes foram relatados por Soto et al. em 2007, que também avaliaram infecções por L. braziliensis. Em seu estudo, a miltefosina alcançou taxas de cura mais altas do que o antimoniato de meglumina em dois meses. Entretanto, aos quatro e seis meses, as taxas de cura entre os dois tratamentos tornaram‐se comparáveis, com o antimoniato de meglumina superando ligeiramente a miltefosina em momentos posteriores.28 Esse padrão reforça ainda mais a observação de que o benefício inicial da miltefosina diminui com o tempo.
Embora taxas de cura em dois meses tenham sido relatadas em ensaios clínicos, elas refletem a resposta inicial ao tratamento, e não a cura definitiva. Olliaro et al., em um guia metodológico para ensaios clínicos em LC, propõem uma estrutura padronizada na qual os resultados são avaliados em três momentos‐chave: seis a nove semanas para resposta inicial, três meses para cura inicial e seis a 12 meses para cura definitiva – esta última, crucial para detectar recidivas tardias e garantir a eficácia em longo prazo.33 Complementando isso, a OMS considera a ausência de recidiva clínica em seis meses indicador confiável de cura sustentada, uma vez que as recidivas podem ocorrer vários meses após a cicatrização inicial da lesão.34 Portanto, embora as taxas de cura em dois meses forneçam informações clinicamente relevantes sobre a resolução inicial das lesões, elas não devem ser interpretadas como evidência definitiva de cura parasitológica. Um seguimento mais longo, preferencialmente de até seis ou 12 meses, é essencial para a avaliação confiável da eficácia.34
Em termos de taxas de falha, a presente análise não mostrou diferença estatisticamente significante na falha de cura em seis meses. Entretanto, a análise revelou heterogeneidade e sensibilidade consideráveis da estimativa agrupada, em grande parte pela influência de um único estudo. Quando esse estudo foi excluído na análise de sensibilidade, os resultados mudaram a favor do antimoniato de meglumina, sugerindo que a eficácia a longo prazo da miltefosina pode ser menos consistente em certos contextos. Preocupações semelhantes foram levantadas em estudos anteriores. Um estudo piloto relatou que, embora todos os pacientes tenham apresentado melhora clínica inicial após um ciclo de 28 dias de miltefosina, apenas 48,7% alcançaram a cura completa em seis meses, com taxa de recidiva de 32,3%.35 Esses achados estão alinhados com a tendência observada na presente metanálise, destacando as limitações potenciais da miltefosina na manutenção de resultados a longo prazo, apesar de sua eficácia inicial. Não obstante, outros estudos relataram resultados contrastantes. Um estudo de coorte separado observou que os antimoniais pentavalentes estavam associados a taxas de recidiva mais altas do que a miltefosina.36 Essas discrepâncias enfatizam a necessidade de mais estudos de alta qualidade para compreender melhor os fatores que afetam o sucesso do tratamento a longo prazo e a recidiva.
Os perfis de segurança também diferiram entre os tratamentos. O antimoniato de meglumina foi associado a maior incidência de eventos adversos sistêmicos e musculoesqueléticos, incluindo taxas significantemente maiores de artralgia e febre, ambas apoiadas por evidências de alta certeza, bem como elevações nas enzimas hepáticas (ALT e AST). Da mesma maneira, estudos sobre o tratamento sistêmico com antimoniato de meglumina destacaram seu amplo espectro de efeitos colaterais, que variam de sintomas leves, como dor muscular e articular, distúrbios gastrintestinais, fadiga, febre e reações cutâneas, a complicações graves e potencialmente fatais, como anormalidades cardiovasculares e disfunção hepática ou pancreática.2,37 O presente estudo também descobriu que a miltefosina estava ligada a maior incidência de problemas gastrintestinais, particularmente náuseas e vômitos, sendo consistente com uma metanálise sobre intervenções para LC e mucocutânea, que relatou taxas mais altas de náuseas e vômitos com miltefosina em comparação com o antimoniato de meglumina.16
Além da eficácia e segurança, o custo e a acessibilidade também são considerações críticas. Um estudo recente comparou os custos do antimoniato de meglumina e da miltefosina com a terapia diretamente observada pelo cuidador. O estudo constatou que a miltefosina é mais custo‐efetiva para os pacientes e para a sociedade em virtude dos menores custos de viagem e hospedagem em comparação com o antimoniato de meglumina. O estudo concluiu que a miltefosina representa economia de custos para os pacientes e para a sociedade, com aumento mínimo nas despesas governamentais.38 Dada a eficácia e segurança iniciais da miltefosina, esses benefícios em termos de custo justificam fortemente seu uso mais amplo, especialmente em áreas com recursos limitados, onde o acesso ao tratamento é um desafio.
Esta metanálise apresenta vários pontos fortes importantes. Inclui oito ECRs conduzidos em diversas regiões da América Latina, com foco exclusivo na LC do Novo Mundo para garantir relevância geográfica e clínica. A metodologia seguiu rigorosamente as diretrizes PRISMA, garantindo processo de seleção e avaliação transparente e rigoroso. O risco de viés foi avaliado sistematicamente usando a ferramenta Cochrane RoB‐2, e a certeza da evidência foi avaliada com a abordagem GRADE. Para lidar com a variabilidade e fortalecer a robustez das descobertas, análises de sensibilidade leave‐one‐out e gráficos de Baujat foram empregados para identificar fontes de heterogeneidade e avaliar a influência de estudos individuais.
No entanto, algumas limitações devem ser consideradas. Alta heterogeneidade foi observada em certos desfechos, o que pode reduzir a precisão e a generalização das estimativas agrupadas. Diversos estudos apresentaram períodos de seguimento relativamente curtos, o que pode ter subestimado recidivas tardias ou efeitos adversos em longo prazo. Além disso, o pequeno tamanho amostral em algumas comparações limitou o poder de detecção de eventos adversos raros e pode ter contribuído para a imprecisão nos resultados de segurança. Por fim, apesar dos esforços dos autores para padronizar a coleta de dados, variações nos protocolos de tratamento, populações de pacientes e definições de desfecho entre os estudos podem ter influenciado os resultados.
Apesar desses desafios, esta revisão sistemática e metanálise oferece visão abrangente das evidências mais robustas sobre a eficácia e segurança da miltefosina em comparação com o antimoniato de meglumina para o tratamento da LC do Novo Mundo.
ConclusãoEsta revisão sistemática e metanálise demonstra que a miltefosina oferece resposta terapêutica inicial superior em comparação com o antimoniato de meglumina para a LCA, particularmente aos dois meses. No entanto, essa vantagem diminui com o tempo, com as taxas de cura tornando‐se comparáveis em seguimentos posteriores. A miltefosina foi associada a mais efeitos colaterais gastrintestinais, enquanto o antimoniato de meglumina apresentou maior risco de eventos adversos hepáticos e sistêmicos. A certeza da evidência, avaliada pelo sistema GRADE, variou de alta para eficácia inicial e certos desfechos de segurança a muito baixa para eficácia a longo prazo e falha de cura, principalmente por inconsistência e imprecisão entre os estudos. Essa variabilidade limita a confiança nos efeitos sustentados do tratamento ao longo do tempo. Considerando sua eficácia inicial, perfil de segurança e custo‐efetividade, a miltefosina continua sendo opção de tratamento valiosa, particularmente em contextos com recursos limitados, nos quais a administração oral é vantajosa. No entanto, a durabilidade inconsistente da cura e os dados limitados a longo prazo destacam a necessidade de mais estudos de alta qualidade com seguimento prolongado.
ORCID IDAna Carolina Putini Vieira: 0009‐0001‐8714‐2962
Fernanda Cronemberger Lins: 0009‐0008‐3350‐7787
Arianne Costa Baquião: 0000‐0003‐3921‐9256
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresAna Carolina Putini Vieira: Concepção e planejamento do estudo; revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Fernanda Cronemberger Lins: Revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação dos dados; elaboração e redação do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Arianne Costa Baquião: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaTodo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Conflito de interessesNenhum.
EditorLuciana P. Fernandes Abbade
Como citar este artigo: Vieira AC, Lins FC, Baquião AC. Comparison of meglumine antimoniate versus miltefosine in the treatment of new world cutaneous leishmaniasis: a systematic review and meta‐analysis. An Bras Dermatol. 2026;101:501253.
Trabalho realizado na Universidade Santo Amaro, São Paulo, SP, Brasil.









