A donovanose, ou granuloma inguinal, é doença de evolução crônica, indolente e progressiva, de baixa infectividade, causada pela bactéria Klebsiella granulomatis.1 A transmissão da donovanose ocorre predominantemente por via sexual,2 embora tenham sido relatados casos em crianças e adultos, sem atividade sexual, por meio de contato com adultos infectados. Também há relatos de pacientes que apresentam lesões extragenitais sem concomitância com lesão genital; é possível a contaminação pelas fezes, pois foi identificada bactéria similar a Klebisiela granulomatis nas fezes de paciente com a doença.1
A donovanose é considerada endêmica em algumas regiões tropicais e subtropicais, incluindo partes do Brasil, África do Sul, Índia e Austrália.3 Na década de 1990, verificou‐se aumento do número de casos, principalmente na África do Sul, após o uso de teste rápido em massa,1 inferindo‐se que a baixa incidência é consequência do subdiagnóstico. Atualmente, o número de novos casos é reduzido, descritos apenas de maneira esporádica,1 sem dados numéricos claros no Brasil e no mundo.
No presente trabalho é relatado caso de donovanose diagnosticado em centro de referência para infecções sexualmente transmissíveis (IST), na cidade de Manaus. Paciente do sexo feminino, indígena de 21 anos, procedente do município de Tabatinga (AM), que apresentava deficiência cognitiva e motora. A mãe referiu que, havia oito meses, observara lesões na vulva e região anal, associadas a dor, prurido e sangramento. Ao exame físico foram observadas múltiplas lesões vegetantes e ulceradas coalescentes em região vulvar e anal, com áreas de sangramento, além de linfedema de membro inferior direito e adenomegalia bilateral (figs. 1A–B; fig. 1C – lesão após tratamento). Os familiares desconheciam exposição sexual da paciente. As sorologias para hepatites B e C, sífilis e HIV, realizadas em dezembro de 2023, resultaram negativas.
A donovanose é caracterizada por lesões que, em geral, começam com pápulas indolores, evoluindo para nódulos, lesões vegetantes ou úlceras – que sangram com facilidade e podem apresentar aspectos similares a carcinoma.4 Quadros elefantiásicos, associados a lesões ulceradas e cicatriciais, como observados no presente caso, são relativamente frequentes nos pacientes com longa evolução. Em todos esses pacientes recomenda‐se sorologia para HIV, sífilis e hepatites B e C. Neoplasias malignas, leishmaniose tegumentar americana, tuberculose cutânea, entre outras doenças, estão entre os principais diagnósticos diferenciais.5
No caso relatado, o diagnóstico foi realizado pelo exame histopatológico, que revelou epiderme com acantose e infiltrado inflamatório acentuado na derme, composto por linfócitos e histiócitos vacuolizados (fig. 2A). A coloração pelo método de Warthin‐Starry evidenciou grande quantidade de corpúsculos de Donovan no citoplasma de histiócitos (fig. 2B), característicos da infecção por Klebsiella granulomatis.6
Para o tratamento da donovanose recomenda‐se a azitromicina como fármaco de primeira linha, face à sua eficácia e segurança. Entre os fármacos alternativos são indicados doxiciclina, ciprofloxacino e sulfametoxazol‐trimetoprima,1,3,4 especialmente em casos resistentes ou para possam fazer uso de azitromicina. Em pacientes imunossuprimidos, são indicados gentamicina ou cloranfenicol.1,6 No presente caso utilizou‐se doxiciclina na dose de 100mg, de 12 em 12 horas. Após 21 dias de tratamento observou‐se regressão parcial das lesões e regressão significante das adenomegalias.
Apesar da relativa raridade da donovanose em nosso meio, julgamos importante enfatizar que o diagnóstico de donovanose deve, sempre, ser considerado em pacientes com lesões ulceradas localizadas na genitália masculina ou feminina, períneo e região anorretal. De acordo com os registros da Fundação Alfredo da Matta, o último diagnóstico de donovanose ocorreu em 2007.
ORCID IDAna Tereza Orsi: 0009‐0007‐7216‐7589
Luiz Carlos de Lima Ferreira: 0000‐0002‐9657‐939X
Antonio Pedro Mendes Schettini: 0000‐0002‐5357‐9189
Silvana de Albuquerque Damasceno Ferreira: 0000‐0002‐8873‐0395
Sinésio Talhari: 0000‐0001‐9753‐6706
Suporte financeiroNenhum.
Contribuição dos autoresAna Tereza Orsi: Concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Sanmya Vitoria Bernardino de Oliveira: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação intelectual no diagnóstico do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.
Luiz Carlos de Lima Ferreira: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação intelectual no diagnóstico do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.
Antonio Pedro Mendes Schettini: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação intelectual no diagnóstico do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.
Silvana de Albuquerque Damasceno Ferreira: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação intelectual no diagnóstico do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.
Sinésio Talhari: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica do caso estudado; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito; aprovação da versão final do manuscrito.
Disponibilidade de dados de pesquisaNão se aplica.
Conflito de interessesNenhum.
EditorHiram Larangeira de Almeida Jr.
Como citar este artigo: Orsi AT, Oliveira SVB, Ferreira LCL, Schettini APM, Damasceno AS, Talhari S. Donovanosis – A rare, sexually transmitted infection that the world has not yet eradicated. An Bras Dermatol. 2026;101:501411.
Trabalho realizado na Fundação Hospitalar de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta, Manaus, AM, Brasil.


