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Carta ‐ Investigação
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Procedimentos estéticos faciais minimamente invasivos e qualidade de vida em pessoas transgênero: estudo prospectivo

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Walter Refkalefsky Loureiroa,
Autor para correspondência
loureiro.w@gmail.com

Autor para correspondência.
, Francisca Regina Oliveira Carneiroa, Letícia Rezende da Silva Sobralb
a Serviço de Dermatologia, Universidade do Estado do Pará, Belém, PA, Brasil
b Consultório particular, Imperatriz, MA, Brasil
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Prezado editor,

Indivíduos transgênero, cuja identidade de gênero difere do sexo atribuído ao nascimento, buscam cada vez mais procedimentos estéticos para alinhar sua aparência com o gênero com o qual se identificam. Entre as ferramentas disponíveis, os preenchimentos injetáveis e os neuromoduladores desempenham papel importante na afirmação de gênero facial, oferecendo uma alternativa segura e minimamente invasiva à cirurgia. Entretanto, pouco se sabe sobre seu impacto na Qualidade de Vida (QV). Este estudo avalia as mudanças na QV após procedimentos injetáveis faciais em pacientes transgênero.

Foi realizado estudo prospectivo e intervencionista no Serviço de Dermatologia da Universidade do Estado do Pará, Belém (PA), Brasil, com a participação de 20 adultos transgênero – 10 mulheres trans e 10 homens trans – com idades entre 22 e 47 anos (média±DP, 30,5±7,3). Todos os participantes estavam em terapia hormonal contínua há pelo menos dois anos e não haviam se submetido a procedimentos estéticos faciais anteriormente. O consentimento informado foi obtido e o protocolo foi aprovado pelo comitê de ética local (CAAE 58177222.6.0000.5174). Todos os indivíduos receberam injeções do mesmo dermatologista, incluindo retoques, se necessário. Os pacientes foram recrutados em um centro público que supervisiona o tratamento hormonal para pessoas transgênero. Os autores são afiliados a uma instituição pública de dermatologia, mas as injeções foram realizadas no consultório particular de um dos autores.

Os procedimentos foram personalizados para realçar características específicas de gênero, com base em padrões estéticos estabelecidos e nas preferências dos pacientes. Mulheres trans foram tratadas para criar sobrancelhas arqueadas, lábios mais volumosos, projeção malar e queixo arredondado. Homens trans foram submetidos a procedimentos para fortalecer a linha da mandíbula, projetar o queixo e alinhar as sobrancelhas. Foram utilizados abobotulinumtoxina A (Dysport®, Ipsen, Wrexham, Reino Unido) e preenchedores de ácido hialurônico (linha Restylane®, Galderma, Uppsala, Suécia), e todos os tratamentos foram realizados em uma única sessão, com retoques de neuromodulador quando necessário. Os protocolos de tratamento estão detalhados na figura 1A.

Figura 1.

Gráfico de radar apresentando os escores de cada domínio dos questionários WHOQOL (A) e SF‐26 (B), considerando os escores na linha de base e após 30 dias de tratamento, por gênero. A análise comparativa mostrou diferenças significantes ao comparar gênero versus tempo nos domínios psicológico e de relações social do WHOQOL e no domínio de funcionamento social do SF‐36. Além disso, tanto o domínio psicológico (WHOQOL) quanto o de saúde geral (SF‐36) apresentaram diferenças significantes apenas na comparação por gênero.

A qualidade de vida (QV) foi avaliada utilizando dois instrumentos validados: WHOQOL‐BREF e SF‐36, aplicados na linha de base e 30 dias após o tratamento. O WHOQOL‐BREF avalia quatro domínios – saúde física, psicológica, relações sociais e ambiental – e inclui dois itens globais sobre saúde geral e QV geral. O SF‐36 abrange oito componentes, incluindo funcionamento físico, funcionamento social e saúde mental. O WHOQOL‐BREF avalia o bem‐estar ao longo de duas semanas, enquanto o SF‐36 abrange quatro semanas. Esse retorno após 30 dias equilibra o viés de recordação e alterações não relacionadas, evita exceder os intervalos recomendados para injeção de toxina e reduz as desistências.

Os resultados pós‐tratamento mostraram melhoras estatisticamente significantes nos domínios do WHOQOL‐BREF de saúde física (p=0,01), bem‐estar psicológico (p=0,048) e qualidade de vida geral (p=0,03). Esses efeitos foram particularmente marcantes entre homens trans, que apresentaram ganhos significantes nos domínios psicológico (p=0,02) e de relacionamento social (p=0,003; fig. 1B). Embora os escores do SF‐36 não tenham mostrado diferenças significantes para a coorte como um todo, os homens trans relataram escores pós‐tratamento mais altos no funcionamento social (p=0,042).

Os resultados destacam o potencial dos procedimentos injetáveis para melhorar o bem‐estar de indivíduos transgênero, reforçando características faciais congruentes com o gênero e promovendo a autoimagem e a integração social. Isso está em consonância com evidências anteriores de que intervenções de afirmação de gênero podem mitigar o estresse psicossocial e melhorar a qualidade de vida nessa população.1–4

Curiosamente, embora as mulheres trans também tenham relatado melhoras, os efeitos foram mais modestos. Isso pode estar relacionado a determinantes sociais, variabilidade na resposta hormonal ou a maiores expectativas estéticas frequentemente depositadas em procedimentos de feminização. Além disso, tratamentos injetáveis isolados podem não ser suficientes para atingir o grau de transformação facial desejado por algumas mulheres trans, particularmente aquelas com estruturas esqueléticas mais masculinas.5

Este estudo apoia o uso de procedimentos faciais minimamente invasivos como ferramenta valiosa para a afirmação de gênero, especialmente para pacientes que ainda não estão prontos ou não são elegíveis para intervenções cirúrgicas. Os procedimentos foram bem tolerados e nenhum evento adverso foi relatado durante o seguimento. A abordagem personalizada e informada sobre o gênero usada neste estudo pode servir como referência prática para clínicos que trabalham com pacientes transgênero.

As limitações incluem o pequeno tamanho amostral, o curto período de seguimento e a ausência de grupo de controle. Além disso, fatores psicossociais mais amplos, como discriminação, apoio social e situação de emprego, não foram controlados, mas podem influenciar a qualidade de vida independentemente das mudanças estéticas. Não obstante, esses resultados preliminares fornecem dados encorajadores sobre os benefícios da dermatologia estética nesse contexto e justificam uma investigação mais aprofundada em estudos mais amplos e de longo prazo. Um exemplo notável de iniciativa pública no atendimento a pessoas transgênero na Argentina foi recentemente publicado nos ABD, destacando o tratamento de condições clínicas relacionadas e não relacionadas com a terapia hormonal, como acne, alopecia androgenética e siliconomas.6 Um serviço ambulatorial financiado pelo governo está sendo desenvolvido na Universidade para pacientes transgênero, com o objetivo de oferecer cuidados gratuitos. As negociações para o financiamento de injetáveis com o governo local estão em curso.

ORCID ID

Francisca Regina Oliveira Carneiro: 0000‐0001‐6735‐4004, Letícia Rezende da Silva Sobral: 0009‐0002‐6724‐1549

Suporte financeiro

Nenhum.

Contribuição dos autores

Walter Refkalefsky Loureiro: Aprovação da versão final do manuscrito; revisão crítica da literatura; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica do manuscrito; elaboração e redação do manuscrito; análise estatística; concepção e planejamento do estudo.

Francisca Regina Oliveira Carneiro: Aprovação da versão final do manuscrito; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica do manuscrito.

Letícia Rezende da Silva Sobral: Revisão crítica da literatura; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; obtenção, análise e interpretação dos dados.

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Conflito de interesses

Dr. Walter R. Loureiro atua como palestrante da Galderma. No entanto, não recebeu qualquer compensação ou apoio financeiro para a realização deste estudo.

Editor

Sílvio Alencar Marques

Referências
[1]
A. Nobili, C. Glazebrook, J. Arcelus.
Quality of life of treatment‐seeking transgender adults: A systematic review and meta‐analysis.
Rev Endocr Metab Disord., 19 (2018), pp. 199-220
[2]
G.A. Raner, K.M. Jaszkul, M. Bonapace-Potvin, K. Al-Ghanim, G. Bouhadana, A.A. Roy, et al.
Quality of life outcomes in patients undergoing facial gender affirming surgery: A systematic review and meta‐analysis.
Int J Transgend Health., 25 (2023), pp. 653-662
[3]
N. Dhingra, L.M. Bonati, E.B. Wang, M. Chou, J. Jagdeo.
Medical and aesthetic procedural dermatology recommendations for transgender patients undergoing transition.
J Am Acad Dermatol., 80 (2019), pp. 1712-1721
[4]
C.M. Lima Silva, L.E. Oliveira Matos, A. Ribeiro Sassaqui, A. Dias de Oliveira Filho, C.E. da Rocha, G. de Carvalho Brito.
Quality of life and level of satisfaction with pharmacotherapeutic follow‐up in a transgender health center in Brazil.
[5]
B.A. Ginsberg, M. Calderon, N.M. Seminara, D. Day.
A potential role for the dermatologist in the physical transformation of transgender people: A survey of attitudes and practices within the transgender community.
J Am Acad Dermatol., 74 (2016), pp. 303-308
[6]
W.L. Kuperman, V. Orsi, G. Chebi, M.A. Balague, C.L. Cabral.
Two years of innovative dermatological care: The first public health consultation service for the transgender and gender diverse community in Argentina.
An Bras Dermatol., 99 (2024), pp. 869-874

Como citar este artigo: Loureiro WR, Oliveira Carneiro FR, Sobral LRS. Facial minimally invasive aesthetic procedures and quality of life in transgender individuals: a prospective study. An Bras Dermatol. 2026;101:501316.

Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Universidade do Estado do Pará, Belém, PA, Brasil.

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